"Quando o eleitor vê que os líderes da velha ordem se dedicam ao carreirismo, ao negócio fácil, ao poder pelo poder, a reação natural é a fuga. Mas o vazio não fica por ocupar"
Há destinos políticos que parecem escritos por mãos que misturam tragédia e farsa, como se a História nunca resistisse à tentação de nos lembrar que os grandes homens, afinal, também tropeçam em pequenos vícios. Nicolas Sarkozy foi, em 2007, o homem que encarnava a promessa de um novo ciclo francês - hiperativo, determinado, europeísta pragmático e capaz de se mover com a mesma rapidez nos salões do Eliseu e nos bastidores da diplomacia internacional. Hoje, é um ex-presidente condenado por associação criminosa, a carregar o peso simbólico de um colapso moral que não é apenas dele: é também da política francesa e europeia.
Sarkozy construiu a sua ascensão sobre uma narrativa de modernização, de coragem reformista, de energia inesgotável. A França fatigada via nele o contrário de Jacques Chirac - menos solene, mais incisivo, pronto para enfrentar os desafios da globalização e da Europa em crise de identidade. Porém, a mesma hiperatividade que lhe deu notoriedade cedo se revelou vertigem. Sarkozy correu demasiado, confundiu velocidade com rumo, e acabou por se perder na teia que ele próprio ajudou a tecer.
A condenação de hoje não é apenas um episódio jurídico; é um acontecimento político de primeira ordem. Revela como o exercício do poder, quando contaminado por redes de financiamento obscuro, por pactos com ditadores caídos em desgraça - recordemos a relação ambígua e promíscua com Muammar Kadhafi, de quem Sarkozy aceitou favores e a quem depois abandonou à sua sorte na intervenção de 2011 -, abre feridas que não cicatrizam facilmente. É uma marca na pele da democracia francesa: a ideia de que aqueles que deviam ser exemplos de probidade confundiram o Estado com um palco privado de negócios, favores e sobrevivências.
Não surpreende, portanto, que os partidos tradicionais, herdeiros do gaullismo ou da social-democracia mitterrandiana, tenham perdido a confiança popular. Quando o eleitor vê que os líderes da velha ordem se dedicam ao carreirismo, ao negócio fácil, ao poder pelo poder, a reação natural é a fuga. Mas o vazio não fica por ocupar. É nele que se instalam as extremas-direitas, com a sua promessa de pureza, com o seu discurso contra as elites corruptas, com a sua imagem - falsa, mas eficaz - de que estão livres dos vícios dos velhos partidos.
A França, hoje, é talvez o exemplo mais acabado deste fenómeno. O colapso de Sarkozy e a implosão do Partido Socialista deixaram órfãos milhões de eleitores. Emmanuel Macron soube ocupar parte desse espaço, mas não deixa de ser significativo que a oposição mais robusta ao atual presidente venha de Marine Le Pen e de um radical como Éric Zemmour. O sarkozysmo não apenas morreu: abriu caminho para a normalização do discurso extremista em França.
E a questão não se limita ao Hexágono. Em toda a Europa, os partidos tradicionais - populares, socialistas, democratas-cristãos — vivem em estado de erosão. Na Alemanha, a CDU de Merz sobrevive mas sem brilho, a social-democracia tentou reinventar -se sob Scholz mas sem carisma; em Itália, o colapso da velha ordem abriu espaço a Giorgia Meloni; em Espanha, o PSOE e o PP vivem encurralados pelo peso de Vox e pela fragmentação partidária. O fio condutor é claro: a corrupção, os pactos obscuros, a falta de visão e projectos transformaram os partidos tradicionais em fósseis institucionais.
Sarkozy simboliza essa decadência. Um homem que prometeu reforma e terminou na lama judicial. Um político que jurou renovação mas que manteve, com um sorriso hábil, os métodos mais antigos da política de bastidores. Um líder que não resistiu ao fascínio de se colocar no centro de todos os jogos — fosse em Paris, em Bruxelas ou em Tripoli. O seu percurso é a história de uma promessa que se tornou ameaça, e de uma esperança que degenerou em cinismo.
É precisamente este cinismo que alimenta as extremas-direitas. Quando os cidadãos se convencem de que todos os políticos são iguais, que todos têm preço, que a democracia se resume a uma troca de favores entre elites, abrem-se as portas aos discursos simplistas. O eleitor, cansado, prefere quem pelo menos lhe diz o que quer ouvir, mesmo que sem consistência. E assim se percebe por que razão em França, na Alemanha, na Itália ou em Portugal, o populismo e o radicalismo ganham fôlego. Não é apenas uma questão ideológica: é uma questão de descrédito.
A condenação de Sarkozy é, portanto, mais do que uma sentença judicial. É um aviso histórico. A Europa paga caro o preço da degradação moral das suas elites. Não se trata de um destino inevitável, mas de um resultado previsível: quando a democracia é esvaziada por dentro, os inimigos da democracia aparecem sempre prontos a preenchê-la com discursos fáceis, nacionalistas e autoritários.
Sarkozy, que sonhou ser recordado como o presidente da renovação francesa, será lembrado como um dos catalisadores do enfraquecimento das democracias europeias. A sua queda não é apenas pessoal; é sistémica. Representa a implosão de uma classe política que se julgava eterna e que acabou a abrir caminho para aquilo que mais dizia temer: a ascensão dos extremos.
Eis a ironia cruel da História: quem se compromete com os vícios do poder acaba, cedo ou tarde, por entregar o poder àqueles que juravam combater. Sarkozy, condenado, não é apenas uma nota de rodapé judicial. É um espelho onde a democracia europeia deveria ter coragem de se olhar — antes que seja demasiado tarde.