Exclusivo: EUA já lançaram o primeiro ataque dentro da Venezuela numa operação realizada pela CIA

CNN , Natasha Bertrand, Zachary Cohen e Jim Sciutto
30 dez 2025, 08:18
Donald Trump (Andrew Caballero-Reynolds/AFP via Getty Images via CNN Newsource)

Dica utilizada pelo Tren de Aragua foi o alvo do ataque

No início deste mês, a CIA efetuou um ataque com drones a uma instalação portuária na costa da Venezuela, confirmaram à CNN fontes familiarizadas com o assunto, naquele que é o primeiro ataque conhecido dos EUA a um alvo dentro desse país.

O ataque com drones, cujos detalhes não foram divulgados anteriormente, teve como alvo uma doca remota na costa venezuelana que o governo dos EUA acreditava estar a ser usada pela quadrilha venezuelana Tren de Aragua para armazenar drogas e transportá-las para barcos para posterior embarque, disseram as fontes. Ninguém estava presente nas instalações no momento em que foram atingidas, portanto não houve vítimas, ainda de acordo com a mesma informação.

Duas fontes disseram que as Forças de Operações Especiais dos EUA forneceram apoio de informação à operação, sublinhando o seu envolvimento contínuo na região. Mas o coronel Allie Weiskopf, porta-voz do Comando de Operações Especiais dos EUA, negou esse cenário, dizendo que "as Operações Especiais não apoiaram esta operação para incluir apoio de informação”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pareceu reconhecer pela primeira vez o ataque numa entrevista na semana passada que inicialmente atraiu pouca atenção, até porque o próprio ofereceu poucos detalhes, inclusive quando os repórteres perguntaram diretamente sobre o ataque.

O ataque poderá agravar significativamente as tensões entre os Estados Unidos e o presidente venezuelano Nicolás Maduro, que os norte-americanos têm vindo a pressionar para que se demita através de uma campanha militar agressiva.

Os Estados Unidos lançaram ataques que destruíram mais de 30 embarcações no Mar das Caraíbas e no leste do Oceano Pacífico, naquilo que descreveram como uma campanha de combate ao narcotráfico, e Trump ordenou um bloqueio aos petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela. Trump também ameaçou repetidamente realizar ataques dentro da Venezuela, mas até ao ataque da CIA no início deste mês, os únicos ataques conhecidos dos Estados Unidos contra alvos venezuelanos eram contra os barcos suspeitos de tráfico de droga em águas internacionais.

A CIA não quis comentar. A CNN solicitou comentários à Casa Branca, ao Comando de Operações Especiais dos EUA, ao Ministério das Comunicações e ao Ministério das Relações Exteriores da Venezuela, mas não obteve qualquer reação.

Trump reconheceu, numa entrevista a 26 de dezembro, que os Estados Unidos tinham destruído algum tipo de “grande instalação de onde saem os navios”, ao falar sobre a campanha da sua administração contra a Venezuela. Questionado novamente sobre o assunto já esta segunda-feira, acrescentou que os EUA atacaram “na área do cais onde eles carregam os barcos com drogas”. Mas não quis comentar quando lhe perguntaram se o ataque foi efetuado pelos militares ou pela CIA.

“Atingimos todos os barcos e agora atingimos a área”, reiterou Trump na mesma resposta. “É a área de implementação, é onde eles implementam, e isso não existe mais.”

Uma das fontes disse que o ataque foi bem-sucedido na medida em que destruiu as instalações e os barcos, mas descreveu-o como sendo em grande parte simbólico, uma vez que é apenas uma das muitas instalações portuárias utilizadas pelos traficantes de droga que saem da Venezuela. Também pareceu atrair pouca ou nenhuma atenção, mesmo dentro do país, em tempo real.

No início deste ano, Trump expandiu as autoridades da CIA para conduzir operações na América Latina, incluindo dentro da Venezuela, informou a CNN anteriormente. Mas, mesmo nessa altura, os militares dos EUA só tinham autoridade legal para realizar ataques contra suspeitos de tráfico no mar, e não em terra, como a CNN noticiou.

A administração Trump apresentou várias justificações para a campanha na Venezuela, que envolveu uma acumulação maciça de meios militares nas Caraíbas. As autoridades apontaram para um imperativo de combate ao narcotráfico, mas a chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, admitiu numa entrevista à Vanity Fair que os ataques com barcos tinham como objetivo fazer com que Maduro “desse o braço a torcer”. O líder venezuelano não deu sinais de abandonar o poder.

Os altos funcionários deixaram claro publicamente e em briefings aos legisladores que pretendem continuar a atacar suspeitos de contrabando de drogas usando um manual semelhante ao usado para matar terroristas durante a guerra global contra o terrorismo - uma campanha na qual a CIA também desempenhou um papel crucial. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, comparou abertamente os traficantes de droga à Al-Qaeda.

“Estes narcoterroristas são a Al-Qaeda do nosso hemisfério”, disse o secretário no Fórum de Defesa Nacional Reagan no início deste mês. “E estamos a caçá-los com a mesma sofisticação e precisão com que caçámos a Al-Qaeda.”

Haley Britzky, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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