Cinco anos depois de ter comprado por um valor recorde o NFT Everydays, de Beeple, Vignesh Sundaresan continua a defender o valor da arte digital, apesar do colapso do mercado dos NFT. Hoje, mais do que na especulação, aposta em experiências artísticas imersivas e em novas formas de dar sentido cultural e físico a obras nascidas no universo virtual
Eram quase 4 da manhã quando Vignesh Sundaresan comprou uma das obras de arte mais caras da história. Vestido com a sua T-shirt preferida para a ocasião, passou a noite em claro, sozinho em casa, diante do iMac, a ver as licitações rivais chegarem a conta-gotas. Ao lado, tinha uma fila de copos de café da Starbucks em cima da secretária; por perto, aguardavam computadores de reserva, caso o site do leilão da Christie’s falhasse no momento decisivo. A plataforma esteve sob a pressão de 22 milhões de visitantes que se ligaram para assistir aos instantes finais da venda histórica.
Duas semanas antes, o leilão tinha arrancado em apenas 86 euros. As licitações online avançaram lentamente ao início, mas o investidor indiano em criptomoedas Sundaresan suspeitava, em privado, de que poderiam vir a ultrapassar os 8,6 milhões de euros. Depois, uma súbita vaga de ofertas de última hora — mais de 180, feitas por 33 licitadores diferentes na última hora — fez o preço disparar muito para além de qualquer previsão.
A obra pela qual Sundaresan acabaria por pagar 59,8 milhões de euros, em março de 2021, não era um Van Gogh nem um Picasso. Era um jpeg chamado Everydays: The First 5000 Days, uma colagem de 5.000 desenhos virtuais satíricos, muitas vezes distópicos, de Beeple, o nome artístico do pouco conhecido designer gráfico Mike Winkelmann, da Carolina do Sul. Ou, mais precisamente: era um token não fungível (NFT) que assinalava a propriedade daquela imagem de 319 megabytes.
“Depois disso, decidi que nunca mais voltaria a participar num leilão”, recordou Sundaresan, na galeria de arte que abriu recentemente em Singapura, onde vive. “A pressão, a ansiedade, estar naquele momento e em modo de combate acaba mesmo por afetar-nos.”
Na altura do leilão, Singapura estava sob restrições da Covid-19. Por isso, mesmo que Sundaresan, então com 32 anos, quisesse celebrar devidamente, não podia, “porque era ilegal”. E também não queria beber sozinho. Em vez disso, ficou acordado até depois do nascer do dia a planear como poderia expor a sua mais recente aquisição, de forma virtual, no metaverso. “O meu objetivo era construir alguma coisa à volta dela. Já estava a pensar com que arquiteto devia falar”, explicou, acrescentando: “Para mim, havia uma estratégia mais ampla.”
Este mês assinala cinco anos desde o leilão recordista — um momento cujas “diferentes consequências, boas e más”, Sundaresan diz continuar a sentir. O mercado dos NFT pode ter colapsado de forma espetacular nos últimos anos, mas a sua compra de 59,8 milhões de euros continua a ser a terceira maior quantia alguma vez paga em leilão por uma obra de um artista vivo, atrás da escultura Rabbit, de Jeff Koons, vendida por 78,5 milhões de euros, e de um quadro de David Hockney com uma piscina, vendido por 77,9 milhões de euros. E o preço de Everydays poderia até ter subido ainda mais: o empresário chinês das criptomoedas Justin Sun afirmou depois que o site do leilão não registou a sua contraoferta, que teria prolongado a janela da venda.
Sundaresan evita dizer se teria continuado a licitar. “É algo muito do momento, percebes? A competitividade — tornamo-nos uma pessoa diferente. Teria parado algures, sem dúvida”, acrescentou, descrevendo a venda como “um processo muito doloroso”.
Boom e colapso dos NFT
De fala calma e aberto quanto a erros do passado, o homem de 37 anos não é nem o típico cryptobro nem um patrono das artes de fortuna antiga e tradicional. Cresceu em Hosur, uma pequena cidade do estado indiano de Tamil Nadu, e nunca visitou museus em criança. Ir ao cinema era o seu “único contacto” com as artes, disse. Por volta dos 12 anos, começou a programar a partir de casa, recorrendo a um computador emprestado quando não tinha acesso a um seu.
Criar sites tornou-se a janela de Sundaresan para a economia global — e uma fonte de rendimento. Depois de terminar o ensino secundário, chegou a mudar de rumo por algum tempo para estudar engenharia mecânica no Dubai (“Os meus pais diziam: ‘Os computadores não têm futuro’”, brincou), antes de regressar à Índia para trabalhar como consultor tecnológico em Chennai. Teve o primeiro contacto com a Bitcoin em 2012, quando procurava formas de transferir dinheiro entre duas contas de negociação suas.
Seguiu-se uma série de negócios ligados às criptomoedas e à blockchain. Ao longo da década seguinte, fundou ou cofundou uma bolsa de criptomoedas (Coins-E), uma rede de caixas automáticas de Bitcoin (BitAccess) e uma plataforma descentralizada de crédito (Lendroid Foundation). Foi também investidor precoce nas blockchains Ethereum, Polkadot e Flow, mudando-se da Índia para o Canadá e, mais tarde, para Singapura, um de apenas dois países — a par da Suíça — cujos reguladores, no seu entender, estavam a acompanhar a evolução da tecnologia.
Quando Sundaresan fez a compra histórica, o mercado da arte encontrava-se nas fases iniciais de um boom especulativo dos NFT que hoje parece um delírio febril. A era das celebridades a vender macacos de desenhos animados ainda estava por vir, mas os tokens — que usam tecnologia blockchain para verificar a propriedade de ativos digitais — já mudavam de mãos por somas de seis e sete algarismos. No mês anterior, um gif tokenizado de um gato a voar pelo espaço (com uma Pop-Tart como corpo) tinha sido vendido pelo equivalente a 508,8 mil euros. Já o NFT de outra obra de Beeple, que retratava Donald Trump nu e coberto de graffiti, tinha sido vendido por 5,7 milhões de euros.
Durante anos, os evangelistas das criptomoedas apresentaram os NFT como um avanço tecnológico comparável à imprensa do século XV. Ao registar transações no livro-razão incorruptível de uma blockchain, imagens e vídeos facilmente replicáveis poderiam, pela primeira vez, ser colecionados, transacionados ou vendidos, argumentavam. A decisão da Christie’s de colocar Everydays à venda foi o sinal há muito esperado de aceitação generalizada. Foi também o primeiro grande leilão a aceitar criptomoedas como pagamento (Sundaresan liquidou a conta com 42.329 Ether, que, à taxa de câmbio atual, valeriam hoje mais de 84,5 milhões de euros).
Num comunicado da Christie’s divulgado no dia seguinte, Sundaresan — então a atuar anonimamente sob o nome MetaKovan, um utilizador que juntava “metaverse” à palavra tâmil para “rei” — descreveu a colagem de Beeple como “a obra de arte mais valiosa desta geração”. O seu verdadeiro valor, acrescentou, era na realidade de 862,4 milhões de euros. Num texto de blogue, viria mais tarde a chamar à venda “um ponto de viragem na forma como pensamos a propriedade digital, a proveniência e o trabalho artístico na era da internet”.
“Sou uma pessoa profundamente nativa do digital. E, ainda assim, sinto mesmo que sou mais feliz, mais tranquilo, quando a vida é física.”
Muita coisa mudou, no entanto, nos últimos cinco anos. O colapso do mercado dos NFT foi quase tão dramático como a sua ascensão. Entre janeiro e setembro de 2022, os volumes mensais de negociação caíram 97%, segundo uma análise da Bloomberg a dados da Dune Analytics. No ano seguinte, uma investigação da dappGambl sobre cerca de 73.000 coleções de NFT estimou que mais de 95% delas eram, na prática, destituídas de valor.
Os críticos que há muito comparavam o mercado a um esquema em pirâmide, em que os primeiros investidores lucravam à custa dos que chegavam mais tarde, assistiram com um certo deleite. A Christie’s encerrou discretamente, no ano passado, o seu outrora pioneiro departamento de arte digital. “Nos NFT, todas as empresas faliram”, disse Sundaresan, cujas histórias estão cheias de colaboradores e plataformas online que entretanto deixaram de existir.
Tudo isto levanta a pergunta dos 59,8 milhões de euros: quanto vale hoje Everydays?
O seu proprietário não tem uma resposta definitiva. Como qualquer obra de arte, o seu valor é apenas aquele que alguém estiver disposto a pagar por ela — e Sundaresan não tem qualquer intenção de o descobrir. “Seria a última coisa que ponderaria vender”, disse. Em vez disso, quer “deixá-la estar” e ver em que ponto estarão as coisas “daqui a 20 anos, ou até uma geração depois”. Por outras palavras, o verdadeiro valor do NFT poderá só revelar-se quando o seu lugar na história da arte estiver mais bem compreendido. “Ela terá o seu valor, mas, se tentar monetizá-la, não terá”, disse Sundaresan, de forma algo enigmática.
“Sempre que comprei um NFT, considerei o dinheiro perdido”, acrescentou, afirmando que nunca vendeu um único NFT da sua coleção pessoal, composta por milhares. “Por isso, de certa forma, já fiz as pazes com isso.”
Do recorde à reinvenção
Hoje, Sundaresan divide o seu tempo entre uma empresa de gestão de ativos digitais, a Portkey Technologies, e as suas incursões contínuas pela arte digital. Mas o seu projeto mais recente, o Padimai Art & Tech Studio, leva-o a migrar de um mundo virtual para um mundo (comparativamente) presencial. Instalado num armazém reconvertido junto a um grande porto de contentores em Singapura, este “laboratório artístico” convida os visitantes a ver arte através de óculos de realidade virtual suspensos do teto. “Sempre fui uma pessoa muito nativa do digital”, disse sobre a decisão de abrir uma galeria. “Sinto mesmo que sou mais feliz, mais tranquilo, quando a vida é física.”
Sundaresan também passou por uma espécie de reposicionamento no mundo da arte. Na altura da venda de Beeple, o seu site descrevia-o como “empreendedor, programador e angel investor”. A fotografia que acompanhava essa descrição mostrava-o num fato cinzento impecável, com um relógio de luxo bem visível a sair da manga. No dia da nossa entrevista, porém, usa um boné raso, óculos de aros grossos e uma camisa de estilo havaiano estampada com xilogravuras do pintor japonês Hokusai, do período Edo. A sua biografia oficial apresenta-o agora como um “tecnólogo de blockchain” que anda “à procura de arte e de experiências de construção de mundos associadas, na esfera digital”.
Está a pôr as suas criptomoedas ao serviço dessa visão: a entrada no Padimai é gratuita (na minha primeira visita, um grupo de crianças em idade escolar andava pelo espaço), e Sundaresan reservou orçamento suficiente para manter a galeria, que “não gera receitas”, a funcionar nos próximos três anos — num dos mercados imobiliários mais caros do mundo. O objetivo do Padimai não é vender arte, mas “dar-lhe sentido”, disse. “Se encomendas uma obra de arte e a guardas na tua carteira, qual é o propósito disso?”
Sundaresan parece mais curioso quanto às inovações que sustentam a arte digital do que propriamente quanto ao seu aspeto visual, entusiasmando-se repetidamente com as formas como a tecnologia e a criatividade se cruzam. Ao longo da nossa entrevista, que durou quase duas horas, descreve coisas como “interessantes” quase 50 vezes. Disse sentir-se atraído por encomendar arte “que puxe pelos limites da experimentação, do lado tecnológico”. E atribui esta nova perspetiva ao homem por detrás da primeira experiência de realidade virtual da galeria: Olafur Eliasson.
O célebre artista islandês-dinamarquês contactou Sundaresan pela primeira vez imediatamente após o leilão de Everydays, para saber mais sobre tecnologias emergentes. “Eu nem sequer sabia quem era o Olafur, por isso entrei na chamada e a minha proposta foi: ‘Porque é que não constróis qualquer coisa à volta do Beeple?’”, recordou Sundaresan, a rir-se agora da ousadia de pedir a um dos artistas mais celebrados da Europa que o ajudasse a expor um jpeg da obra de outra pessoa.
Ainda assim, os dois desenvolveram uma amizade ao longo de dezenas de chamadas por Zoom. Sundaresan levou Eliasson numa visita guiada ao metaverso e tornou-se “aluno” da sua célebre prática artística, centrada na experiência. “Ele interessou-se por mim, e isso mudou a minha vida”, disse Sundaresan, acrescentando que o colapso do mercado dos NFT também provocou um “colapso de sentido”, que o levou a questionar-se sobre a razão de estar tão preocupado com o espetáculo em vez da substância. “Eu teria rebentado a certa altura.”
Em Your View Matter, de Eliasson, a única obra da exposição inaugural do Padimai, os visitantes percorrem uma série de espaços abstratos em realidade virtual. Paredes e tetos tremeluzem com padrões Moiré — a interferência visual típica que surge quando se tenta filmar um ecrã de computador ou de televisão — que mudam consoante o ponto para onde o visitante olha. O código subjacente existe como um NFT de edição única, que constitui a primeira aquisição da ainda incipiente coleção do museu.
Cimentado na história da arte
Sundaresan ainda olha para Everydays de vez em quando. Construiu um espaço de visualização virtual em que o seu jpeg recordista surge com o equivalente a 13 andares de altura. Com uns óculos de realidade virtual e um joystick, consegue deslocar-se pela superfície da colagem, examinando mais de perto os seus 5.000 desenhos, como se estivesse a subir um edifício numa plataforma de limpeza de janelas. Nunca tornou essa experiência pública, mas deixa amigos vê-la sempre que lhe pedem para “ver o Beeple”.
O seu plano original era, contudo, mais complexo.
Sundaresan foi um dos primeiros a adotar NFT, tendo fundado o fundo de investimento Metapurse em 2017 e adquirido milhares de tokens para a sua coleção pessoal. Os seus NFT representavam sobretudo terrenos no metaverso (“estava rapidamente a seguir o caminho de me tornar um promotor imobiliário virtual”), mas adquiriu também objetos de coleção digitais e obras de arte para aí expor. Em 2019, pagou cerca de 97,4 mil euros por uma imagem de um carro de Fórmula 1 coberto de diamantes, o preço mais alto pago por um NFT nesse ano.
“Nessa altura, eu era muito hiper-capitalista e estava a especular quando comprei os terrenos”, admitiu. “Não compreendia totalmente as implicações. E, quando também comprava arte, pensava: ‘Estou a comprar isto porque vai ter valor.’”
Mais tarde, expôs Everydays tanto numa metrópole virtual, chamada Origin City, como numa física — Nova Iorque, onde a Metapurse a mostrou em ecrãs no seu festival Dreamverse, em Manhattan. Mas a sua ideia inicial era construir uma experiência virtual inteira em torno da obra que pudesse ser fracionada, transformada em tokens e revendida — recuperando potencialmente até 50% do investimento, disse.
Era um modelo que Sundaresan já tinha testado com os tokens B20 da Metapurse, no início de 2021. A oferta dava aos investidores uma participação num conjunto de ativos digitais, incluindo 20 NFT de Beeple (comprados por um total de 1,9 milhões de euros em 2020), bem como num museu virtual que os albergava. Negociados por menos de 1,72 euros cada em meados de fevereiro de 2021, os tokens dispararam algumas semanas depois — para mais de 25 euros no dia em que Everydays foi vendida — no meio do entusiasmo crescente em torno do artista. Sundaresan detinha mais de metade dos 10 milhões de tokens, o que desencadeou acusações de que só tinha feito a compra recordista para inflacionar o valor do B20. Ele insiste que não lucrou com o esquema nem vendeu qualquer dos seus tokens, que agora são negociados por menos de 0,04 euros.
Ainda assim, Sundaresan ponderou replicar o esquema com Everydays. O novo token chamar-se-ia “B5K”. Mas disse que abandonou a ideia poucas semanas depois do leilão, desgastado pela “crítica pública” e pelo escrutínio a que foi sujeito após revelar-se como o homem por detrás do pseudónimo MetaKovan.
“Levei um mês, ou um mês e meio, a pensar profundamente nisso, e concluí: ‘Não, não é isto que devo fazer.’ Foi aí que decidi: ‘OK, se fizer isto agora, vai ser apenas muito espetacular e depois vai cair de forma desastrosa.’”
“Há a tecnologia subjacente — a ideia subjacente — e depois há aquilo com que as pessoas ficaram entusiasmadas durante uns instantes. E essas são duas coisas separadas.” - Beeple
Apesar da capitulação do mercado, Sundaresan distingue os NFT enquanto classe de ativos especulativa dos NFT enquanto mecanismo de propriedade. O problema do boom foi ter tentado “financeirizar tudo”, argumentou. Disse que deixou completamente de comprar NFT no final de 2021, mas mantém que a sua criação é evidentemente necessária para quem cria, encomenda ou coleciona arte digital.
“É o momento em que a obra de arte se torna pública”, disse, comparando a criação de um token ao ato de emoldurar um quadro quando ele está concluído. “Se és uma galeria a vender novos media, porque não haverias de fazer disso um NFT? É simplesmente melhor do que um papel.”
Beeple, por seu lado, recorre frequentemente a uma analogia retirada da história recente: o colapso do mercado dos NFT não é mais indicativo do fim dos NFT do que o rebentar da bolha dot-com, no final dos anos 1990, foi indicativo da morte da internet. “Há a tecnologia subjacente — a ideia subjacente — e depois há aquilo com que as pessoas ficaram muito entusiasmadas durante um segundo”, acrescentou o artista numa chamada por Zoom, refletindo sobre a bolha que o projetou para a ribalta há cinco anos. “E essas são duas coisas separadas.”
Hoje uma figura bem conhecida da arte contemporânea, Beeple fala a partir de Charleston, na Carolina do Sul, onde dirige um estúdio de 50.000 pés quadrados com equipa completa — graças, em não pequena medida, à compra recordista de Sundaresan. O artista diz continuar a “processar” o acontecimento que transformou a sua vida. “Agora, olhando para trás, tenho uma perceção maior da importância daquele momento e de como ele surgiu completamente fora do radar para o resto do mundo da arte”, afirmou.
Beeple planeia visitar o Padimai numa viagem a Singapura ainda este ano. Mas o homem que o colocou entre os nomes mais valiosos da história da arte não tenciona expor o seu jpeg de 59,8 milhões de euros na galeria, dizendo que isso não transmitiria “a mensagem certa” aos visitantes.
“As pessoas que entram nem sequer sabem que isto é um NFT, ou quanto custou”, disse Sundaresan sobre a sua instalação inaugural em realidade virtual. “Estão aqui para experienciar a obra. Isso faz com que o artista — e a arte — sejam o foco, em vez do preço.”