"Mexe com a nossa própria regulação emocional". Há uma condição que afeta 20% da população e que é mais difícil de diagnosticar nas mulheres

16 nov, 18:00
Saúde mental Getty Images

Profissionais de saúde continuam "colados aos modelos masculinos" e, por isso, a neurodivergência na mulher tem vindo a passar despercebida. Os diagnósticos chegam tarde, mas já foi criada uma aplicação que pode ajudar a gerir os sintomas.

Uma pessoa neurotípica “consegue perfeitamente trabalhar num ambiente ruidoso de trabalho, lembrar-se de todos os compromissos que tem no dia a dia, fazer pausas para ir à casa de banho e comer”. Um neurodivergente - pessoa com um funcionamento cerebral considerado diferente do típico - tem de fazer tudo isto, mas à custa de uma maior sensibilidade aos sons, de um défice de atenção ou, pelo contrário, de períodos de hiperfoco. Adicione-se ao filtro ser mulher: os sintomas são os mesmos, mas o diagnóstico está muitas vezes em falta.

Em 15 anos de prática clínica, a neuropsicóloga Mariana Lucas Aguiar percebeu que muitas mulheres são diagnosticadas com depressão, com ansiedade ou mesmo com um burnout “sem que os profissionais de saúde vejam o que causou todo esse stress, essa ansiedade e esse burnout, que normalmente pode estar associado a uma neurodivergência”, diz em entrevista à CNN Portugal. A especialista explica que nesses casos a doença é atribuída a outros sintomas, deixando as pacientes sem um acompanhamento “que faz toda a diferença”.

“Estas mulheres muitas vezes são diagnosticadas com bipolaridade ou com perturbação da personalidade borderline e há uma diferença muito grande entre ser diagnosticado com uma perturbação borderline e uma perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA)”, refere, sublinhando que “numa perturbação borderline há comportamentos completamente disfuncionais que têm de ser tratados, enquanto na PHDA ou no autismo há muitos comportamentos que são apenas uma forma diferente de estar e muitas vezes a resposta a isso é uma acomodação”.

Desde usar fones no trabalho e pedir para gravar uma reunião a distribuir melhor as reuniões durante o horário de trabalho em vez de as concentrar numa manhã. São estas algumas das pequenas mudanças que permitem adaptar o quotidiano de uma sociedade “moldada para neurotípicos” aos sintomas da neurodivergência. A especialista alerta para a importância do diagnóstico certo, tendo em conta que “se um psiquiatra diagnostica com borderline, há pequenas estratégias que nem passam pela cabeça trabalhar, enquanto que se perceber que a exaustão está a vir de uma dificuldade na atenção e na concentração podem ser adotadas estratégias para melhorar isso.”

A neurodivergência refere-se a uma condição em que o cérebro processa informação de uma maneira diferente quando comparado àquilo que é considerado neurotipicamente expectável. Esta realidade já afeta cerca de 20% da população mundial, segundo o National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos. Colocando as coisas em perspetiva, são aproximadamente 1,62 mil milhões de pessoas por todo o mundo.

Mariana Lucas Aguiar também entra para a percentagem de mulheres que vivem com PHDA e as consultas só vieram confirmar aquilo de que já suspeitava: “Percebi que faltam ferramentas simples que às vezes ajudem a fazer coisas básicas como reconhecer os seus próprios padrões, aquilo que lhes drena e dá energia, antes de chegarem ao limite.”

Assim nasceu a aplicação Lira, de uma vontade de levantar informação sobre a saúde mental da mulher, desenhada especialmente para todo o público feminino que seja, ou se identifique como, neurodivergente. Para dar resposta às necessidades desta fatia da população, a que muitas vezes é atribuído um diagnóstico tardio, a app permite registar padrões de comportamento, ajudar as mulheres a refletir sobre o seu dia e pode estar articulada com o ciclo menstrual, “que é algo fundamental quando trabalhamos com a saúde da mulher, tendo em conta que mexe com a nossa própria regulação emocional e com a nossa sensibilidade”, acrescenta a criadora.

Como se manifestam os sintomas na mulher neurodivergente?

Na mulher especificamente, a neurodivergência traduz-se muitas vezes numa dificuldade em reconhecer os estados internos do corpo: a fome e a sede, por exemplo. “Isso faz com que possa passar o dia inteiro em hiperfoco, sem parar para satisfazer essas necessidades e chegam ao final do dia completamente drenadas”, descreve Mariana Lucas Aguiar. Para o sexo feminino que tenha esta condição também é difícil planear uma tarefa com um determinado objetivo, seja ela cozinhar uma refeição ou organizar uma apresentação para o trabalho. Esta fraca capacidade de planeamento é uma falha naquilo a que a comunidade médica dá o nome de funcionamento intuitivo, que numa pessoa neurodivergente, tem uma “carga brutal em termos de esforço mental”. “Estas mulheres drenam-se mais facilmente, porque tudo aquilo que fazem é à custa de um esforço maior”, admite.

“Uma mulher com défice de atenção sabe que tem de estar três vezes mais atenta, porque senão vai-se perder naquele assunto de que o colega está a falar. Uma mulher que tem um défice de atenção tem de verificar quatro ou cinco vezes se está tudo pronto para a escola dos filhos, porque normalmente esquece-se de algum passo”, exemplifica a especialista.

Em contexto clínico, um denominador comum despertou a atenção de Mariana Lucas Aguiar: a exaustão das mulheres que recebia em consulta. Muitas delas já em estado de burnout. A algumas apenas faltava um diagnóstico que respondesse à frustração de não saber o que se passa. 

No caso de mulheres subdiagnosticadas, a especialista em avaliação e intervenção em neurodesenvolvimento da infância à idade adulta explica que, “quando vão estudar sobre o tema, porque querem perceber o que se passa com elas, e porque é uma vida inteira a sentir que não pertencem, percebem que parece que não é bem aquilo [o diagnóstico atual], porque a PHDA e o autismo estão muito pouco estudadas nestes perfis mascarados nas mulheres.”

"A maior parte das amostras são de modelos masculinos"

Os números da Associação Portuguesa de PHDA apontam para aproximadamente 400 mil pessoas a viver com perturbação da hiperatividade e défice de atenção em Portugal, também conhecida pela sigla TDAH. Este é só um exemplo dos vários tipos de neurodivergência, como o autismo e a dislexia, que afetam parte da população portuguesa.

Mas no momento em que se faz o retrato do país nesta matéria, muitas mulheres não são incluídas na estatística final por estarem subdiagnosticadas. Isto deve-se ao facto de “a maior parte das amostras nestas situações serem de modelos masculinos”.

“Há muitos profissionais de saúde que ainda estão muito colados a mitos de autismo e PHDA, que depois, ao verem estas mulheres, acham que os critérios de diagnóstico não batem com elas, mas podem bater, eles não podem é estar colados aos modelos masculinos”, acrescenta.

Os homens são mais facilmente diagnosticados e com mais frequência, adianta a neuropsicóloga, e as manifestações “mais subtis” nas mulheres, podem justificar a diferença. “Normalmente estes diagnósticos são mais visíveis na infância e num caso de hiperatividade normalmente os rapazes são mais espalhafatosos, chamam mais a atenção e são encaminhados para a consulta”, ao contrário das raparigas que “internalizam mais e portanto passam muito mais despercebidas e chegam à idade adulta e têm estes quadros de saúde mental mais complexos”, sublinha.

A solução não é "forçar uma pessoa a levar com estímulos agressivos"

O diagnóstico certo dá um nome à condição, mas também reconfigura o painel de soluções. Mariana Lucas Aguiar afirma que a resposta ao problema “não está em forçar uma pessoa a levar com todos os estímulos que são mais agressivos”, mas sim em avaliar o seu perfil e trabalhar em estratégias: “Como é que eu posso tirar notas eficazes caso me perca numa reunião por ser muita informação? Como é que eu posso não interromper tanto uma pessoa?”.

Procurar ajuda profissional é outro conselho deixado pela neuropsicóloga que garante que a psicoterapia pode ser bastante eficaz. “Muitas mulheres voltam a ver-se e a pensar: ‘Então eu fui esta criança que estavam sempre a dizer que estava na lua, que se estava sempre a esquecer de coisas e cresci com esta identidade a pensar que estava estragada e afinal há uma explicação para isto’”, ilustra.

A aplicação não consegue atribuir diagnósticos, mas dá algumas pistas sobre o que pode ser um padrão que já tem um indicador clínico significativo que tem de ser explorado.,

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