Porque Neptuno é mais azul do que o gémeo Urano

CNN , Ashley Strickland
5 jun, 10:00
A Voyager 2 da NASA obteve estas imagens de Urano (à esquerda) e de Neptuno (à direita) quando sobrevoou os planetas na década de 1980

Neptuno e Urano são tão semelhantes que os cientistas se referem às vezes aos planetas distantes e gelados como os gémeos planetários. Mas estes gigantes de gelo têm uma grande diferença: a cor.

Novas observações de telescópios espaciais e terrestres revelaram o que está por trás dessa diferença de tom.

Os planetas mais distantes do Sol no nosso sistema solar, Neptuno e Urano, têm tamanhos, massas e condições atmosféricas semelhantes. Olhando para os dois planetas lado a lado, algo que foi possível depois de a Voyager 2 da NASA ter passado por eles na década de 1980, Neptuno tem uma aparência azul brilhante enquanto Urano apresenta um tom mais pálido de azul ciano.

Os astrónomos usaram o telescópio Gemini North e o Infrared Telescope Facility da NASA, ambos situados no Havai, bem como o Telescópio Espacial Hubble, para criar um modelo que pudesse comparar as observações de Neptuno e de Urano.

Os cientistas determinaram que um excesso de neblina acumula-se na atmosfera de Urano, o que lhe confere uma aparência mais clara. Essa neblina é mais espessa em Urano do que na camada atmosférica semelhante de Neptuno, e isso atenua a tonalidade de Urano, da nossa perspetiva.

Sem essa neblina em qualquer uma das duas atmosferas planetárias, os astrónomos acreditam que ambos os planetas seriam de um azul praticamente igual. Um estudo com os pormenores das descobertas foi publicado na terça-feira no Journal of Geophysical Research: Planets.

Tentativas anteriores de entender essa diferença centraram-se nas atmosferas planetárias superiores em comprimentos de onda específicos de luz.

“Este é o primeiro modelo a ajustar simultaneamente as observações da luz solar refletida dos comprimentos de onda do ultravioleta ao infravermelho próximo”, disse em comunicado o principal autor do estudo, Patrick Irwin, professor de Física Planetária da Universidade de Oxford. “É também o primeiro modelo a explicar a diferença na cor visível entre Urano e Neptuno.”

O modelo também sondou camadas atmosféricas mais profundas que incluem partículas de neblina, além das nuvens de metano e gelos de sulfureto de hidrogénio.

Novas observações do telescópio Gemini North, localizado perto do cume do Mauna Kea, no Havai, foram comparadas com outros dados de telescópios em arquivo. A equipa analisou três camadas de aerossóis a diferentes alturas em Urano e em Neptuno. A camada intermédia de partículas de neblina é aquela que tem maior impacto na cor.

Em ambos os planetas, a camada intermédia é onde o gelo de metano se transforma em quedas de neve de metano. Neptuno tem uma atmosfera turbulenta que é mais ativa do que a lenta e vagarosa atmosfera de Urano, portanto, as partículas de metano e as quedas de neve evitam que se acumule uma névoa em Neptuno.

Os cientistas acreditam que o modelo também pode ajudar a explicar as manchas escuras que aparecem em Neptuno, mas que são menos comuns em Urano. É provável que se devam ao facto de a camada atmosférica mais profunda escurecer, algo que seria mais visível em Neptuno.

“Esperávamos que o desenvolvimento deste modelo nos ajudasse a entender as nuvens e as neblinas nas atmosferas dos gigantes de gelo”, disse em comunicado o coautor do estudo, Mike Wong, astrónomo da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Explicar a diferença de cor entre Urano e Neptuno foi um bónus inesperado!”

Podemos aprender mais sobre estes mundos misteriosos, que só foram visitados pela Voyager 2 durante rápidas passagens.

A pesquisa decenal planetária, publicada em abril, recomendou que a próxima grande missão da NASA seja a Uranus Orbiter and Probe. Os autores do relatório veem a Uranus Orbiter and Probe como uma forma de revolucionar o conhecimento que os astrónomos têm sobre os gigantes do gelo.

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