«Trouxe a roupa que tenho no corpo, o telemóvel, a carteira e o passaporte»

24 fev, 17:56

O relato de Nelson Monte, o único português a jogar na Liga ucraniana e que continua retido no país. «Não sei se terei combustível para chegar até à Polónia», diz quem só pensa em regressar a Portugal para estar junto da família

Nelson Monte foi acordado na madrugada desta quinta-feira pelo barulho de uma bomba que explodiu nas imediações do condomínio onde vive (ou vivia) em Dnipro. Dois minutos depois, novo estrondo.

Foi aí que o único português da Liga ucraniana ligou para os outros jogadores estrangeiros residentes no mesmo complexo. «O condomínio onde eu vivo é enorme e é horrível a imagem que eu tenho na cabeça, das pessoas a fugirem com malas e os filhos ao colo. Entrámos no meu carro e seguimos até ao centro de estágio para tentarmos perceber o que fazer. Mandaram-nos ir para Lviv, que era o sítio mais perto para passar para a Polónia», conta ao Maisfutebol visivelmente cansado.

Às horas dos contactos com o nosso jornal, Nelson encontrava-se num hotel pertencente ao presidente do Dnipro-1, a equipa que representa, a cerca de hora e meia de Dnipro e ainda a longas dez horas de carro e centenas de quilómetros da zona de segurança: a fronteira com a Polónia. «Peguei no telemóvel, na carteira e no passaporte e só trouxe a roupa que tenho no corpo.»

Pelo caminho, ele e os restantes estrangeiros da equipa - dois espanhóis (um adjunto), dois croatas, entre eles o treinador, um argentino e três brasileiros – pararam num posto de combustível. «Demorámos quase uma hora e meia a abastecer o carro e depois começaram a sair notícias de que não podemos circular durante a noite porque temem outro bombardeamento durante a noite.»

Por isso, Nelson vai pernoitar no hotel até ao amanhecer (que não sabe ao certo onde fica), mas desconhece para onde irá nesta sexta-feira ao amanhecer. O plano passa por fazer-se à estrada e seguir de carro até à fronteira, mas nem isso é garantido nesta altura. «É possível que sim, mas também não sei se vou ter combustível suficiente para chegar até à Polónia, porque acredito que o combustível vai acabar entre hoje e amanhã no país. Se não, terei de ir até Kiev, ao ponto de encontro definido pela embaixada portuguesa.»

Agora num lugar relativamente seguro - «entre aspas», nota o próprio - o jogador português partilha os maiores receios: a insegurança e o desconhecido. «O que pode vir a acontecer-me daqui a cinco minutos, daqui a uma hora ou durante a noite. Nem sabemos muito bem o que fazer», assume um dia depois de ter regressado à Ucrânia após um estágio de 30 dias com a equipa na Turquia e também pouco mais de 24 horas depois de ter visto a situação escalar de uma guerra psicológico para uma invasão em curso e com bombardeamentos até na capital do país.

«Cheguei à Ucrânia ontem de manhã e quatro horas depois saiu a notícia de que tinham cancelado o campeonato por 30 dias. Aí, começámos a perceber que nós, estrangeiros, íamos viajar cada um para o seu país. E eu, entre hoje à tarde e amanhã de manhã, estaria a viajar para Portugal, mas aconteceu isto...», lamenta.

Nelson Monte transferiu-se do Rio Ave para o Dnipro-1 - atual 3.º classificado do campeonato - no final de agosto e presenciou até há em pouco tempo aquilo que define de forma sintética como um «clima super-normal», apesar do país estar em relativo sobressalto desde a anexação da Crimeia por parte dos russos e os bombardeamentos nas regiões separatistas do leste do país, em 2014. «Falava-se deste momento de tensão na televisão, mas a mensagem que nos passaram era a de que estava tudo tranquilo e que isto não ia passar de uma guerra psicológica, de uma tensão em que eles já vivem desde 2014, quando houve a última guerra, mas que não ia passar disso», nota Nelson Monte, que até há poucos dias ainda via esse estado de espírito nos colegas ucranianos.

«Sentia-se a tensão deles, mas eles lidavam bem com este clima. Para mim, até era estranho o mundo todo falar do que estava a acontecer e para eles quase nem chegava a ser tema de conversa. Isso causava-me alguma confusão e por vezes comentava com eles. Agora, claro que estão preocupados, mas há dois ou três dias estavam super-tranquilos.»

Mas, agora, a Ucrânia - o maior país da Europa - à exceção da parte europeia da Rússia - deixou de ser um território seguro e milhares de estrangeiros e de ucranianos tentam fugir de um guerra que poucos julgariam ser possível ocorrer na Europa em pleno século XXI.

Nelson é um deles e nesta altura nem pensa na carreira de futebolista que ficará em suspenso até que a paz possível volte à Ucrânia ou, quem sabe, até encontrar um novo clube. «Não sei como será o meu futuro e nem tenho pensado nisso. A única coisa em que penso é em sair do país. E depois, aí sim, vou pensar seriamente nisto», diz sem serem necessárias mais questões.

Afinal de contas, tudo isso são minudências quando se trata de tentar voltar a casa são e salvo e voltar a abraçar a mulher, grávida, e os dois filhos pequenos. «A coisa que eu mais quero é chegar a Portugal para estar junto da minha família», remata.

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