O que pode ter dado aos humanos modernos vantagem sobre os Neandertais

CNN , Katie Hunt
18 set, 12:00
Um crânio de mulher Neandertal (Homo neanderthalensis) encontrado na pedreira Forbes em Gibraltar

Por estudarem crânios fossilizados, os cientistas sabem que o tamanho do cérebro de um Neandertal era o mesmo, se não ligeiramente maior, do que o de um humano moderno. Contudo, os investigadores pouco sabem sobre o desenvolvimento do cérebro do Neandertal porque os tecidos moles não se conservam bem no registo fóssil.

Surgiu recentemente um estudo fascinante, que revelou uma possível diferença que pode ter dado aos humanos modernos, ou Homo sapiens, uma vantagem cognitiva sobre os Neandertais, os hominins da Idade da Pedra que viveram na Europa e algumas partes da Ásia antes de se extinguirem há cerca de 40.000 anos.

Os cientistas do Instituto Max Planck de Biologia Celular Molecular e Genética em Dresden, na Alemanha, disseram ter identificado uma mutação genética que desencadeou a criação mais rápida de neurónios no cérebro do Homo sapiens. A variante Neandertal do gene em questão, conhecida como TKTL1, difere da variante humana moderna por um aminoácido.

“Identificámos um gene que contribui para nos tornar humanos”, afirmou o autor do estudo Wieland Huttner, professor e diretor emérito do instituto.

Quando as duas versões do gene foram inseridas em embriões de ratos, a equipa de investigação descobriu que a variante humana moderna do gene resultou num aumento de um tipo específico de célula que cria neurónios na região do neocórtex do cérebro. Os cientistas também testaram as duas variantes do gene em embriões de furões e tecido cerebral cultivado em laboratório feito a partir de células estaminais humanas, chamadas organoides, com resultados semelhantes.

A equipa argumentou que esta capacidade de produzir mais neurónios provavelmente deu ao Homo sapiens uma vantagem cognitiva não relacionada com o tamanho geral do cérebro, sugerindo que os humanos modernos têm “mais neocórtex visível do que o antigo Neandertal”, de acordo com o estudo publicado na revista Science.

“Isto mostra-nos que, embora não saibamos quantos neurónios o cérebro Neandertal tinha, podemos assumir que os humanos modernos têm mais neurónios no lobo frontal do cérebro, onde a atividade de TKTL1 é mais elevada, do que os Neandertais”, explicou Huttner.

“Havia uma discussão sobre se o lobo frontal dos Neandertais era ou não tão grande como o dos humanos modernos”, acrescentou.

“Mas isso não é importante porque (a partir desta investigação) sabemos que os humanos modernos devem ter tido mais neurónios no lóbulo frontal e pensamos que isso é uma vantagem no que diz respeito às capacidades cognitivas.”

Descoberta ‘prematura’

Alysson Muotri, professor e diretor do Stem Cell Program e do Archealization Center da Universidade da Califórnia em San Diego, não esteve envolvido na investigação, no entanto afirmou que enquanto as experiências com animais revelaram “uma diferença dramática” na produção de neurónios, a diferença era mais subtil nos organoides.

“Isto foi feito apenas numa linha celular, e uma vez que temos uma enorme variabilidade com este protocolo de organoides do cérebro, seria ideal repetir as experiências com uma segunda linha celular”, considerou.

Também era possível que a versão arcaica do gene TKTL1 não fosse única para os Neandertais, observou Muotri. A maioria das bases de dados genómicas tem-se concentrado na Europa Ocidental, e é possível que as populações humanas noutras partes do mundo possam partilhar a versão Neandertal desse gene.

“Penso que é bastante prematuro sugerir diferenças entre o Neanderthal e a cognição humana moderna”, afirmou.

As descobertas arqueológicas mais recentes sugeriram que os Neandertais eram mais sofisticados do que aquilo que as representações da cultura pop (de homens das cavernas animalescos) sugerem. Os nossos familiares da antiguidade sabiam como sobreviver em climas frios e quentes e utilizavam ferramentas complexas. Também faziam fios de lã, nadavam e criavam arte.

O coautor de estudos e geneticista Svante Pääbo, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, foi pioneiro nos esforços para extrair, sequenciar e analisar o ADN antigo dos ossos de Neandertal.

O seu trabalho levou à descoberta, em 2010, de que os humanos primitivos se misturaram com os Neandertais. Os cientistas compararam subsequentemente o genoma do Neandertal com os registos genéticos dos seres humanos vivos de hoje, para ver como os nossos genes se sobrepõem e diferem: TKTL1 é apenas uma das dezenas de diferenças genéticas identificadas, sendo que alguns dos genes partilhados podem ter implicações para a saúde humana.

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