À primeira vista, não há nada de invulgar na paisagem rural em torno da pequena aldeia polaca de Pniewo. A paisagem é típica da região do distrito de Lubusz: vastos campos de culturas amarelas sob um céu imenso, interrompidos apenas por algumas manchas de floresta.
Parece sereno, mas por baixo esconde-se uma história mais sombria — uma cidade subterrânea nazi.
Festungsfront Oder-Warthe-Bogen, ou Ostwall, é um complexo subterrâneo fortificado construído antes da Segunda Guerra Mundial, quando Adolf Hitler procurava proteger a fronteira oriental da Alemanha contra a Polónia e a União Soviética.
Entre os rios Oder e Warta, que hoje fazem parte da fronteira entre a Alemanha e a Polónia, a instalação permanece praticamente intacta: um labirinto extenso de túneis, estações ferroviárias subterrâneas, instalações de combate e poços enormes que cobrem cerca de 32 quilómetros de comprimento.
Hoje, os visitantes podem descer a esta obra de engenharia militar praticamente esquecida. Os soldados que outrora ocuparam os bunkers já se foram há muito tempo, assim como os frequentadores de festas dos anos 80 e 90, que deixaram grafites como lembrança de suas raves. Mas o complexo tem novos residentes.
Depois de os nazis terem abandonado o local em 1945, os morcegos descobriram os túneis, considerando-os ideais para hibernar. Cerca de 40 mil chegam anualmente de toda a Europa Central a cada outono, tornando-o uma das maiores colónias de morcegos da Europa.
Um fracasso ambicioso
A história do Ostwall começou na década de 1930, quando Hitler, firmemente no poder, lançou uma campanha de militarização em desafio aos tratados que encerraram a Primeira Guerra Mundial.
Ele olhou para a Porta de Lubusz, o território entre os rios Oder e Warta, então ainda parte da Alemanha, como o local a ser fortificado. Proteger esse corredor, acreditavam os seus estrategistas, era fundamental para salvaguardar Berlim.
Em 1935, os planos para o "Arco Fortificado" estavam concluídos, e o próprio Hitler viajou para a vizinha Wysoka para inaugurar o projeto. A construção começou no ano seguinte.
Ambicioso é pouco para descrevê-lo. Os engenheiros imaginaram uma linha defensiva com quase 80 km de extensão, com obras previstas até 1951. Embora nunca tenha sido concluído, o projeto já estava entre as fortificações mais avançadas do mundo. Só a secção central utilizou mais de 56 mil metros cúbicos de betão e poderia abrigar dezenas de milhares de soldados.
Mas as prioridades mudaram. Em 1938, a atenção da Alemanha voltou-se para oeste, em direção a França, e a construção foi interrompida. No ano seguinte, após a invasão da Polónia, que desencadeou a Segunda Guerra Mundial, o objetivo estratégico do Ostwall evaporou-se.
O complexo Ostwall continuou a fazer parte da máquina de guerra nazi enquanto a guerra assolava a Europa. Em janeiro de 1945, quando o Exército Vermelho avançou, as forças soviéticas capturaram a linha em apenas três dias. A cidade subterrânea foi abandonada.
Por um tempo, o exército polaco manteve o local, mas na década de 1960, o custo provou ser muito alto e os túneis foram mais ou menos abandonados novamente.
Na escuridão
O século XXI deu ao Ostwall uma segunda vida. Com o apoio da União Europeia e o entusiasmo local, o complexo foi transformado num destino de turismo sombrio.
Em 2011, foi inaugurado o Museu da Região Fortificada de Międzyrzecz, incorporando 30 km de túneis na secção central.
Do lado de fora, o bunker de entrada parece quase caricatural, com cúpulas verdes em forma de cogumelo. No interior, o ar é frio e húmido, mas surpreendentemente hospitaleiro.
"Os nazis planearam este complexo para uma estadia prolongada dos soldados, por isso tudo foi construído para torná-lo mais habitável", diz Mikolaj Wiktorowski, guia do museu e entusiasta da história local.
A vida subterrânea foi parcialmente recriada: manequins uniformizados estão de guarda em salas administrativas e beliches, até mesmo fora de uma casa de banho, evocando os ritmos diários de uma guarnição desaparecida.
O momento mais impressionante ocorre no poço principal, um abismo que se abre profundamente na terra.
Para algo construído há quase um século, é uma impressionante proeza de engenharia. A escadaria descendente foi construída com a precisão assustadoramente suave pela qual muitas megaestruturas nazis são conhecidas. Esta leva a um amplo túnel central revestido com carris e tubos.
À espreita nas sombras
Estar a 40 metros abaixo do solo, num corredor vasto o suficiente para comboios e veículos militares, é surreal — ao mesmo tempo inspirador e inquietante. Quanto mais se avança, mais frio fica, com uma atmosfera que evoca "Fallout" ou "The Last of Us". Não há mutantes ou zombies aqui, mas criaturas aladas espreitam nas sombras.
Ninguém sabe exatamente quando os morcegos colonizaram os túneis pela primeira vez, mas na década de 1970, os cientistas começaram a registar colónias. Hoje, 12 espécies hibernam aqui.
"Os morcegos descobriram estes túneis e adoraram a temperatura estável, entrando no sistema através de bunkers superficiais e poços de ventilação", explica Wiktorowski. "Durante o período de hibernação no final do outono e inverno, o seu número pode ultrapassar os 40 mil."
Para os visitantes, a sua presença é difícil de ignorar. Os morcegos saem repentinamente da escuridão, com os seus guinchos agudos a ecoarem no betão. Outros ficam pendurados imóveis nas abóbadas, adormecidos. Durante a época de hibernação, o museu limita o acesso para lhes dar descanso.
Pessoas do bunker
Os morcegos não são os únicos a terem reivindicado o Ostwall. No final do século XX, os túneis tornaram-se o lar de uma subcultura conhecida como Pessoas do Bunker.
O movimento nasceu aqui, diz Mikolaj Wiktorowski. "Começou no início dos anos 80 e atingiu o seu auge no final dos anos 90."
Eles realizavam raves, celebravam casamentos e protestavam contra a autoridade neste improvável local subterrâneo. Mas o labirinto era perigoso: pelo menos cinco pessoas morreram em acidentes, desde quedas em poços até incêndios provocados por cigarros acesos descuidadamente.
Os grafitti que deixaram — declarações de amor, esboços rudimentares, slogans anticomunistas — ainda cobrem as paredes, dando cor às passagens cinzentas.
"Os grafitti são a alma deste lugar", diz Wiktorowski, que fotografa as obras de arte e as inscrições e espera publicar um livro sobre o assunto. "Sem eles, teríamos apenas paredes nuas e sem vida."
"Toscana polaca"
Os visitantes do museu podem escolher entre três visitas guiadas: "curta" (1,5 horas), "longa" (2,5 horas) e "extrema" (3 a 8 horas). Também podem optar por uma viagem num comboio elétrico subterrâneo e um passeio num BTR-152, um veículo blindado soviético dos anos 50, para uma dose extra de atmosfera.
O museu é atualmente o local mais visitado da região de Lubusz, na Polónia. Mas a área reserva outras surpresas.
Zielona Gora, a capital, é frequentemente chamada de "Toscana polaca" devido às suas vinhas e paisagens. Todos os anos, em setembro, o Festival do Vinho Winobranie celebra a produção das 40 adegas da região.
E fora da cidade de Świebodzin, com os braços abertos, ergue-se a que é considerada a estátua de Jesus Cristo mais alta do mundo — com 52 metros de altura, quase 3 metros mais alta do que a sua congénere no Rio de Janeiro.
Aqui, distâncias curtas conectam experiências surpreendentemente diferentes: um mergulho nos túneis nazis, um encontro com a maior colónia de morcegos da Europa, um olhar para cima em direção a Jesus e, finalmente, uma taça de vinho local à noite.