Arqueólogos descobrem verdadeira identidade de naufrágios na Costa Rica que há muito se pensava serem navios piratas

CNN , Amarachi Orie
15 jun 2025, 16:00
Naufrágio Costa Rica (John Fhær Engedal Nissen/Museu Nacional da Dinamarca)

Arqueólogos marinhos descobriram que dois navios naufragados na Costa Rica são os restos de navios negreiros dinamarqueses desaparecidos há séculos – uma descoberta que restaura a linhagem ancestral de toda uma comunidade costarriquenha, mais de 300 anos depois de os ocupantes dos navios terem chegado às suas costas.

Segundo o Museu Nacional da Dinamarca, há muito que se sabia que os destroços se encontravam em águas pouco profundas ao largo do Parque Nacional de Cahuita, na costa sul das Caraíbas da Costa Rica.

No entanto, durante anos, acreditou-se que se tratava de navios piratas, informou o museu num comunicado de imprensa.

Os pescadores que se estabeleceram na área em 1826 pensaram assim porque os restos dos navios estavam dispersos e quebrados. Eles acreditavam que os dois navios poderiam ter se envolvido numa luta e virado, diz Maria Suarez Toro, fundadora da iniciativa comunitária local Ambassadors of the Sea Community Diving Center, à CNN.

A identidade dos navios só foi posta em causa em 2015, quando arqueólogos marinhos americanos encontraram tijolos amarelos num dos naufrágios.

Aqui vê-se um buraco escavado com tijolos e madeira visíveis do naufrágio foto:John Fhær Engedal Nissen/Museu Nacional da Dinamarca

Esta descoberta foi importante porque os tijolos amarelos foram produzidos na cidade alemã de Flensburg nos séculos XVIII e XIX para serem utilizados na Dinamarca e nas suas colónias. Na altura, não estavam na moda noutros países europeus, indica o museu.

Segundo fontes históricas, dois navios negreiros dinamarqueses naufragaram na costa da América Central em 1710: o Fridericus Quartus foi incendiado, enquanto a corda da âncora do Christianus Quintus foi cortada e o navio arrastado.

Mas a localização dos destroços não era conhecida – até agora.

Arqueólogos marinhos do Museu Nacional e do Museu do Navio Viking da Dinamarca efetuaram uma escavação subaquática dos destroços na Costa Rica em 2023, retirando madeira de um deles, bem como amostras de tijolos, e encontrando vários tubos de barro.

Os investigadores do Museu Nacional e da Universidade do Sul da Dinamarca efetuaram então análises científicas que confirmaram os relatos históricos, refere o museu.

A datação por anéis de árvores revelou que a madeira de carvalho de um dos destroços era originária da parte ocidental do Mar Báltico, que engloba a Dinamarca, o nordeste da Alemanha e o sul da Suécia. A madeira era de uma árvore cortada entre 1690 e 1695, segundo o museu.

Os tijolos amarelos foram medidos e considerados do mesmo tamanho que aqueles que foram fabricados em Flensburg para os dinamarqueses.

Verificou-se que o barro utilizado nos tijolos era proveniente do sul da Dinamarca, da pequena cidade de Egernsund ou de Iller Strand, ambas com grandes indústrias de fabrico de tijolos no século XVIII.

Os cachimbos de barro também se revelaram dinamarqueses, com o seu tamanho, forma e desenhos a indicarem que foram feitos pouco antes de 1710, altura em que os navios naufragaram.

“As análises são muito convincentes e já não temos dúvidas de que se trata dos destroços dos dois navios negreiros dinamarqueses”, afirma o arqueólogo marinho David Gregory, professor investigador e diretor do novo centro de investigação marítima Njord, do Museu Nacional da Dinamarca, no mesmo comunicado de imprensa.

"Os tijolos são dinamarqueses e o mesmo se aplica às madeiras, que para além disso estão carbonizadas e sujas de fuligem de um incêndio”, adianta. “Isto encaixa perfeitamente nos relatos históricos que afirmam que um dos navios ardeu."

Rebelião e motim

Gregory dirigiu as escavações ao lado do arqueólogo marinho Andreas Kallmeyer Bloch, que também é conservador no Museu Nacional.

“Tem sido um processo longo e estive quase a desistir pelo caminho, mas esta é sem dúvida a escavação arqueológica mais louca em que já participei”, diz Bloch no comunicado de imprensa.

"Não só porque é muito importante para a população local, mas também porque se trata de um dos naufrágios mais dramáticos da história da Dinamarca e agora sabemos exatamente onde ocorreu”, adianta. “Isto dá-nos duas peças que faltavam na história da Dinamarca."

Bloch disse à CNN que a descoberta é significativa em parte por causa dos “eventos dramáticos envolvidos na viagem [dos navios] de Copenhaga para a África Ocidental, e de lá para as costas de Cahuita na Costa Rica”.

Uma rebelião das pessoas escravizadas, um erro “horrível” de navegação e um motim dos membros da tripulação quando chegaram a Cahuita estão entre os eventos documentados nos arquivos dinamarqueses, ressalta Bloch.

A rebelião teve lugar a bordo do Fridericus Quartus, que viajava do Gana para a colónia holandesa de São Tomé. O tumulto, a par da declaração de guerra de franceses e ingleses, influenciou a decisão dos holandeses de enviar o navio com uma embarcação parceira, adianta Toro.

Havia 800 pessoas nos dois navios, que se perderam por causa do nevoeiro cerrado, diz. Em vez de seguirem para norte de uma luz que avistaram, que poderia ser Barbados, foram para sul, acabando por chegar à Costa Rica a 2 de março.

O medo dos piratas e dos nativos alimentou dois dias de discussões entre os capitães sobre se deviam ir para a costa à procura de comida e água. Este facto conduziu a um motim entre os marinheiros e os escravos, após o qual restaram cerca de 650 pessoas.

Reescrever a história afro-costa-riquenha

“A parte mais dramática são as vidas que mudaram devido a este acontecimento”,diz Bloch. “Mais de 600 africanos foram deixados na praia, no que hoje é o Parque Nacional Cahuita."

"A descoberta é importante para a história dinamarquesa e para o facto de podermos ligar a nossa história à Costa Rica. Mas é ainda mais significativa para a população local da Costa Rica, pois tem um significado direto para a identidade do povo local", adianta.

O esforço para desvendar a identidade dos navios e ligá-la à identidade da comunidade tem sido um projeto de uma década conduzido por um grupo de jovens mergulhadores de origem africana e indígena, explica Toro, acrescentando que sentem “orgulho por terem encontrado as suas raízes”.

A descoberta “muda também a história desta região”, diz ela, acrescentando que prova que os afro-costa-riquenhos estavam na província de Limon “100 anos antes de isso ter sido registado na história oficial”.

O esforço da comunidade e dos cientistas para identificar os navios negreiros afundados apareceu na série de documentários televisivos “Enslaved”, de 2020, apresentada por Samuel L. Jackson.

Celia Ortíz, da cidade costarriquenha de Cartago, disse que sua mãe de 103 anos é descendente de Miguel Maroto, um dos homens escravizados que desembarcaram de um dos navios, de acordo com os Embaixadores do Mar. Ortiz sublinha que descobrir a sua ascendência, mesmo tarde na vida da sua mãe, “trouxe uma nova luz para as nossas vidas”.

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