São vários os casos de navios-espiões russos que passam na costa portuguesa. Debaixo deles estão infraestruturas críticas para as vidas de milhões de pessoas
A costa nacional está "na mira" da Rússia, avisou o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que esteve em Portugal esta segunda-feira. Tudo porque o país alberga "uma parte considerável" dos cabos submarinos que asseguram as telecomunicações mundiais. Mas, para um dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal, a costa portuguesa tem tanto interesse para a Rússia "como a costa da Biscaia”.
“Há infraestruturas críticas internacionais que estão em território nacional e atravessam inclusivamente o espaço marítimo nacional: as infraestruturas de cabos submarinos e os pontos de ligação à Europa”, explica o comandante João Fonseca Ribeiro, do Observatório de Defesa e Segurança da SEDES. Servem, continua, para assegurar "mais de 90% das telecomunicações e a Internet do mundo” e “uma parte considerável deles está em Portugal - mas não todos”.
São cerca de 10% a 15% das comunicações de todo o mundo que passam na Zona Económica Exclusiva (ZEE) do país. Em Portugal já estão (ou vão estar) ligados 14 cabos submarinos, incluindo o maior do mundo. “Os navios russos e os bombardeiros russos importam para a costa portuguesa. A costa portuguesa está nos olhos da Rússia”, avisou Mark Rutte esta segunda-feira, durante uma conferência de imprensa no Palácio de São Bento a lado do primeiro-ministro, Luís Montenegro. O alerta surge depois de vários navios russos terem sido detetados na ZEE portuguesa.
Contudo, para o major-general Agostinho Costa, nada disto é relevante. “Isto é uma narrativa que não colhe. Andam na nossa costa para quê? Para ver se temos bandeira vermelha ou verde nas praias?”, ironiza. O especialista em assuntos de segurança e defesa reconhece que em Portugal passam “rotas marítimas importantes”, mas lembra: “Também passam no Canal da Mancha”.
“A costa portuguesa para os russos tem interesse zero, não tem interesse nenhum. A costa portuguesa tem tanto interesse como a costa da Biscaia”, garante, falando no golfo que faz o cruzamento entre Espanha e França, no País Basco.
Agostinho Costa esclarece ainda que, em termos de estratégia marítima, os mares se controlam "através de estreitos” e não de cabos submarinos. E “nós não controlamos nenhum”. “Se Portugal tivesse o Estreito de Gibraltar, já era diferente. Se Portugal controlasse o Canal da Mancha, já era diferente”, afirma.
E acrescenta: “Se Portugal fosse importante para os russos, Trump vinha dizer que queria o que quer que seja, como com a Gronelândia”. Assim, Agostinho Costa garante que "o que Mark Rutte diz tem pouca relevância". "Nós é que vivemos neste mito marítimo henriquino que vem do tempo da expansão marítima, mas nós não impedimos nada”, diz, aludindo à Turquia, que é “importante” porque controla o Mar Negro, tal como o Panamá com o Canal do Panamá.
“Nós conseguimos impedir a navegação ao longo da costa portuguesa? Não conseguimos. Sabemos qual é a dimensão da nossa Marinha”, conclui. O discurso de Mark Rutte é por isso “um discurso de circunstância, diplomático”.
Em novembro, o vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa, Dmitry Medvedev, um dos mais próximos aliados de Vladimir Putin, ameaçou a destruição de cabos de comunicação. "Se comprovarmos a cumplicidade do Ocidente na sabotagem dos gasodutos Nord Stream, então não teremos constrangimentos - nem mesmo morais - que nos previnam de destruir os cabos de comunicação dos inimigos”, disse.
Esta é uma ameaça que visa também a costa portuguesa, por onde têm passado inúmeros navios com bandeira da Rússia, grande parte deles para recolher informações. Tal pode conduzir a um cenário onde as casas ficam sem ligação à Internet ou os telemóveis sem redes sociais.
“A presença naval de navios de investigação - que podem fazer mais do que investigação se as intenções forem danificar as infraestruturas - tem de ser identificada”, afirma o comandante João Fonseca Ribeiro, do Observatório de Defesa e Segurança da SEDES. O comentador da CNN Portugal faz referência ao que está a acontecer no Mar Báltico, “ainda que numa dimensão diferente”.
Esta segunda-feira, o Ministério Público da Suécia anunciou a apreensão de um navio, que tinha partido da Rússia, suspeito de danificar um cabo submarino que liga o país à Letónia através do mar Báltico. Antes, o corte de um cabo elétrico submarino, que liga Finlândia e Estónia, levou a NATO prometer reforçar a presença militar no Mar Báltico. “A NATO vai reforçar a sua presença militar no Mar Báltico”, escreveu na rede social X o secretário-geral da Aliança Atlântica, Mark Rutte, à data, para logo a seguir condenar o que diz ser uma “possível sabotagem de cabos submarinos no Mar Báltico”.
Desta forma, para João Fonseca Ribeiro, as palavras de Mark Rutte servem para “deixar o alerta, porque o espaço marítimo tem de considerar esta ameaça na sua prontidão e resposta”.
Mas, reforça o major-general Agostinho Costa, os incidentes nos cabos submarinos “não começaram agora” e “normalmente são provocados por barcos deixarem cair as âncoras e arrastam-nas”. “Estes senhores querem lançar-nos areia para os olhos para quê? Vão pôr em cada cabo submarino um mergulhador?”, questiona.
O especialista em assuntos de segurança e defesa considera ainda que, no caso de uma guerra entre a NATO e a Rússia, “a fragilidade desenvolve-se nas bases logísticas norte-americanas, que estão na Europa”. “Durante a Segunda Guerra Mundial, a Batalha do Atlântico não se deu na costa portuguesa, deu-se ao longo do Atlântico. Se houver uma guerra, os submarinos russos não vêm para aqui, estarão mais próximos dos portos americanos do que em Portugal”, assegura Agostinho Costa.
O secretário-geral da NATO esteve em Portugal esta segunda-feira, onde se encontrou com o Presidente da República e o primeiro-ministro. Mark Rutte defende que canalizar 2% do PIB de cada Estado-membro já não é suficiente para a defesa da Europa, em linha com o que já afirmou o presidente dos EUA.
“Temos de continuar a adaptar-nos, temos de aumentar os nossos esforços e as nossas despesas. O objetivo de 2% [do Produto Interno Bruto] não vai ser suficiente”, garantiu, avisando que a ameaça russa “pode parecer longínqua”. Mas acrescentou: “Asseguro-vos que não é”.
#Portugal is a founding #NATO member providing essential contributions to our transatlantic security. To keep our Alliance strong, we must continue to adapt & we need to ramp up our efforts now. pic.twitter.com/LHL8uEpmwI
— Mark Rutte (@SecGenNATO) January 27, 2025