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Rutte destaca papel de Portugal e envia mensagem aos europeus: "Parem de se preocupar com os EUA e foquem-se na vossa defesa"

João Guerreiro Rodrigues , Enviado especial a Haia
24 jun 2025, 12:24
Mark Rutte assume o cargo de secretário-geral da NATO (EPA/OLIVIER HOSLET)
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Mark Rutte alertou que a Rússia continua a produzir em três meses o que a NATO produz num ano, mas avisou também que os adversários da aliança estão em vários continentes e não falam só russo

Os membros europeus da NATO devem parar de se preocupar com as posições americanas e focar as suas energias em criar planos de investimento na sua própria defesa e destacou o papel de países do sul da aliança para travar a influência russa e da chinesa, afirmou o secretário-geral da NATO, durante o painel de abertura da cimeira da aliança, que decorre esta terça e quarta-feira em Haia. 

"A minha mensagem para os meus colegas europeus é, parem de se preocupar tanto com os Estados Unidos. Foquem-se em ter planos de investimento, em ter as vossas indústrias de defesa a funcionar, que o apoio à Ucrânia se mantenha a nível elevado. Parem de se preocupar, os EUA estão aqui e estão connosco", afirmou Mark Rutte.

A falar na sua cidade natal, o antigo primeiro-ministro neerlandês destacou o papel de Portugal e de países do sul da Europa na defesa da fronteira sul da NATO, numa altura em que tanto a Rússia como a China estão a aumentar a sua influência na região, com Moscovo a enviar mercenários para apoiar vários regimes na região do Sahel e com a China a aumentar a sua influência através de uma vaga de investimento e de construção de infraestruturas, um pouco por todo o continente africano.

"Quando falamos da fronteira sul, é algo fundamental para nós. É aqui que Portugal, Espanha, Itália e Grécia lutaram consistentemente. A NATO está a concentrar-se na sua fronteira sul, vamos abrir um escritório na Jordânia, temos uma missão no Iraque e estamos a ajudar no G5 do Sahel, a Mauritânia é um parceiro próximo. China e Rússia estão a ganhar influência na região, portanto não podemos ser inocentes", defende Rutte.

Moscovo continua a ser "a ameaça a longo prazo" da aliança, mas para o secretário-geral, seria ingénuo pensar que esta é a única. Por este motivo, a aliança tem de ter uma "postura 360" e olhar para África com particular atenção. Moscovo tem enviado apoio militar a países como o Mali, Sudão e República Centro-Africana, através de empresas militares. Em troca deste apoio, a Rússia recebe o acesso às vastas reservas de recursos minerais destes países, bem como apoio diplomático em fóruns internacionais como na ONU.

Embora a postura chinesa no continente seja diferente, focando-se principalmente em investir largas quantias de dinheiro para financiar a construção de infraestruturas como caminhos de ferro, portos e estradas em troca do acesso a recursos naturais, a NATO aparenta estar a encarar esta presença como origem de uma futura ameaça. Mark Rutte recorda que Pequim tem já quatro das maiores empresas de defesa do mundo, está a apoiar a Rússia e isso deve levar os aliados a focar-se nas suas capacidades.

"Esta é uma das razões pela qual temos de ter uma postura 360. A nossa ameaça a longo prazo é a Rússia, mas não é a única, podem haver outras. A China não tem quatro das maiores empresas de defesa do mundo só para fazer paradas militares, eles podem querer fazer alguma coisa com as suas capacidades militares, e nós sabemos os riscos que existem em Taiwan", defende Rutte. 

No mesmo sentido, o secretário-geral afirmou que a NATO "não foi feita só para lutar" em caso de um ataque russo ao território da aliança, apontando também o dedo ao Irão e à Coreia do Norte, que estão a apoiar os esforços russos durante a invasão russa da Ucrânia, cabendo a cada aliado focar-se em utilizar o aumento das verbas da defesa para criar os seus planos de investimento para mudar o atraso que a aliança tem em relação aos seus rivais. 

"Todos os generais me dizem, no que toca à guerra, é tudo acerca de reservas de munições, munições, munições. Também precisamos de drones e tecnologia, mas precisamos de munições. Os russos estão a produzir em três meses o que nós produzimos em um ano", afirmou. 

O aviso do secretário-geral da aliança surge num momento em que os aliados se preparam para anunciar o aumento do investimento em defesa para 5% do PIB, entre 3,5% em gastos diretos nas forças armadas e 1,5% para outras áreas ligadas à segurança, como a cibersegurança ou infraestruturas. Esta meta deverá ser atingida pelos aliados até 2035, uma concessão feita pela NATO a países como a Itália e o Reino Unido, que criticaram o prazo de sete anos inicialmente proposto. 

A grande dúvida continua a pairar sobre a posição de Espanha, que rejeita o compromisso de 5%, com o governo a considerar a meta como sendo "desproporcional e desnecessária". Para ser aprovado, o acordo tem de contar com o voto favorável de todos os membros. Tudo parecia pronto para o anúncio, depois de Pedro Sánchez ter anunciado no domingo que Espanha tinha chegado a acordo com a NATO para ficar isenta de atingir esta meta. Só que horas depois, foi o próprio Mark Rutte a refutar as palavras do presidente do governo espanhol, sublinhando que a NATO não admite exceções nem acordos paralelos.

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