"A desconfiança está ao rubro": este é o maior exercício aéreo da história da NATO

10 jun 2023, 08:00

25 membros da Aliança vão simular a partir desta segunda-feira a resposta aérea caso seja ativado o artigo 5.º - que estabelece que um ataque a um membro da NATO é um ataque a todos. E prepare-se: o Kremlin "vai pronunciar-se" sobre isto

É o maior exercício alguma vez feito pela NATO, tem como foco a Rússia e a Aliança não o esconde: mais de dez mil militares e 220 aeronaves vão voar nos céus da Alemanha para simular a resposta a um ataque de “uma aliança militar de leste”. Os especialistas alertam que este é o reflexo de um mundo que está a mudar e que devemos esperar mais e maiores exercícios destes no futuro.

“Há uma mudança radical de paradigma. A seguir ao conflito da Jugoslávia, a NATO virou a força militar de resolução de conflitos regionais. Foi isso que fez até à saída do Afeganistão. Em 2014, quando se dá a intervenção russa na Crimeia, isto tem sido uma subida de tensão sistemática. Atualmente há um clima de confrontação estratégico, a desconfiança está ao rubro”, considera o major-general Agostinho Costa.

E o comando da NATO não o esconde: trata-se de um exercício que envolve uma suposta invasão da Alemanha por parte de uma fictícia aliança militar de leste chamada “OCCASUS”, havendo ainda a infiltração de membros do “Organização Bruckner”, apoiados pela força aérea. Os adversários da Aliança Atlântica têm como objetivo cortar o acesso da Alemanha ao mar e controlar o porto de Rostock. Em resposta, a NATO aciona o artigo 5.º da Aliança - que estabelece que um ataque a um membro da NATO é um ataque a todos.

O cenário descrito no documento que estabelece a base para o exercício não deixa grandes espaços para a imaginação sobre quem é o principal adversário. Na descrição feita na página oficial das forças armadas alemãs, a aliança "OCCASUS" tenta aproveitar-se de uma Alemanha que está a ser afetada por uma crise energética e uma inflação galopante. Ao mesmo tempo, simpatizantes da "OCCASUS" tentam influenciar a opinião pública.  

“Como responder quando uma aliança militar inimiga ocupa partes da Alemanha? Este é o ponto de partida geopolítico para o exercício Air Defender 23”, escreve o documento da NATO.

A solução, acreditam as chefias militares, passa por um gigantesco contra-ataque aéreo. São mais de dez mil participantes e 250 aviões de 25 países. Desde 1949, ano em que a NATO foi criada para fazer frente ao poderio militar soviético no continente europeu, nunca foi feito um exercício desta dimensão. Entre os dias 12 e 23 de junho, o exercício vai estender-se do norte do país, perto da fronteira com a Dinamarca, até ao sul, já perto da Suíça e da Áustria, com operações planeadas em seis aeroportos, um deles nos países baixos e outro na Chéquia.

Será a própria Luftwaffe, a Força Aérea alemã, a tratar de coordenar todos os meios das 25 nações que participam na simulação. Bélgica, Bulgária, Croácia, Dinamarca, Eslovénia, Estados Unidos, Estónia, Espanha, Finlândia, França, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Polónia, República Checa, Reino Unido, Roménia e Turquia são alguns dos países que participam neste exercício. Este ano até há espaço para a participação de dois parceiros fora da Aliança: a Suécia (que está em vias de entrar) e o Japão.

De fora fica Portugal, membro fundador da Aliança, que tem uma das suas esquadras de F-16 ocupadas na missão de patrulhamento do espaço aéreo da NATO na região do Báltico. Atualmente, segundo o Ministério da Defesa, estão empenhados 82 militares portugueses e 4 F-16AM na Lituânia para esse propósito.

O Kremlin "vai pronunciar-se"

O major-general Agostinho Costa explica que estes tipos de exercícios são planeados por militares dos Estados-Maiores, que tentam criar cenários hipotéticos que antevejam um cenário o mais parecido com a realidade. Neste momento, a possibilidade de a Rússia invadir países vizinhos já não é ficção e a NATO tem de se adaptar.

“Os exercícios são claramente uma demonstração de poder e determinação por parte da NATO e têm de ser vistos à luz da invasão russa da Ucrânia. A mensagem é clara: os países da NATO estão prontos para defender o território da Aliança”, afirma o major-general Isidro de Morais Pereira.

O exercício parece tirar algumas ilações acerca do decorrer da guerra na Ucrânia e, por isso, um dos seus objetivos é treinar a reação da força aérea e a sua capacidade de proteger a população alemã de mísseis de médio alcance, uma tática muito utilizada pelas forças armadas russas contra algumas das maiores cidades ucranianas ao longo de mais de um ano de guerra. Além disso, representa a mudança do conceito estratégica da NATO, aprovado a 29 de junho em Madrid.

“O cenário criado para este exercício é um cenário de combates convencionais. Durante uma série de anos, a NATO preparou outro tipo de cenários, como o terrorismo transnacional. O novo conceito estratégico da Aliança definiu a Rússia como a principal ameaça”, frisa Isidro de Morais Pereira.

E, para isso, o exercício conta com algumas das máquinas tecnologicamente mais evoluídas, particularmente o norte-americano F-35, da Lockheed Martin. É um avião de combate furtivo de quinta geração, considerado pelos especialistas um dos mais avançados equipamentos militares disponíveis no mercado. E não é para menos: cada um destes aviões custa cerca de 79 milhões de dólares (aproximadamente 73 milhões de euros), o que não inclui o preço do armamento nem da manutenção. Além dos Estados Unidos, vários países da Aliança Atlântica operam esta aeronave, incluindo Dinamarca, Países Baixos, Noruega, Reino Unido. Outras nações da NATO já encomendaram várias unidades do F-35.

Além do F-35 vão estar presentes outros caças, como o Gripen, o Eurofighter, o F-18, o F-16 e o F-16, operados por vários países. Mas também vão estar presentes outro tipo de aeronaves, como o A10, um avião de suporte de combate para as tropas no terreno, conhecido pela sua potente metralhadora, capaz de destruir os mais sofisticados blindados. Todos estes meios vão ser apoiados por uma frota de aviões de abastecimento e aviões de transporte.

“Este exercício desloca imensos meios durante 12 dias. Acima de tudo acaba por ter um efeito prático que é o treino das tripulações e a interoperabilidade”, explica o major-general.

Segundo o comandante da Luftwaffe, tenente-general Ingo Gerhartz, o objetivo parece mesmo ser o enviar de uma mensagem para a Rússia - o território da NATO é uma linha vermelha para a organização e a Aliança está coesa e forte para enfrentar todas as ameaças. A própria embaixadora norte-americana em Berlim disse que ficaria “muito surpreendida” se algum líder mundial “não tomasse nota” do que este exercício demonstra sobre “o espírito da Aliança”.

“A Rússia vai estar muito atenta. Não por se tratar de um exercício, mas sim pela dimensão do que vai acontecer. O número de aeronaves deve levar o Kremlin a pronunciar-se sobre o assunto”, refere o major-general Isidro de Morais Pereira.

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