"Pode ter algum sentido ter alguns milhares de tropas na Ucrânia. Entre 15 e 20 mil parece um bom número"

5 jun 2025, 09:00
Militares ucranianos fazem treinos reais antes de ir para a frente de batalha (AP Photo/Evgeniy Maloletka)

ENTREVISTA | Ao final de 30 anos, a União Europeia está a iniciar "conversas difíceis" que se tornaram "inescapáveis", incluindo sobre o nuclear, numa altura em que "os tratados de desarmamento desapareceram" e "a Rússia está a investir de forma maciça nas suas armas nucleares". Em entrevista à CNN, à margem de uma conferência em Lisboa sobre "o choque trumpiano no mundo e na Europa", Camille Grand, ex-oficial da NATO, afasta a ideia de que "vamos substituir os americanos facilmente" e destaca: "Não vai haver regresso à normalidade e, portanto, temos de pensar coletivamente nos termos deste novo normal"

Relativamente à questão do “guarda-chuva nuclear” de França, disse que a postura de Emmanuel Macron marca, no fundo, o arranque de uma conversa difícil que já deveria ter sido tida há mais tempo.

Sim, estamos a começar a ter esta conversa muito importante sobre o papel que as armas nucleares desempenham na segurança europeia, uma conversa que não tivemos nos últimos 30 anos porque não era um assunto prioritário. Só que agora é inescapável. Os tratados de desarmamento desapareceram. A Rússia está a investir de forma maciça nas suas armas nucleares. E existe um debate quanto à robustez da garantia nuclear dos Estados Unidos da América (EUA) para a Europa. Tudo isto cria um momento em que precisamos de ter uma conversa muito mais honesta e aberta sobre o assunto.

E qual é, ou deve ser, o teor dessa conversa?

Não vai ser sobre a União Europeia (UE) ter uma bomba nuclear ou toda a UE pagar para França ter bombas nucleares. Passa, sim, por entender várias coisas: onde estão os americanos nisto? O que é que eles vão continuar a fazer? E o que é que eles não estão dispostos a continuar a fazer? Ou o que é que eles podem fazer mais?

Tem respostas para essas perguntas?

Não, mas é algo que precisamos de entender com maior clareza. E, nesse contexto, temos de entender onde é que os franceses e os britânicos estão, o que é que França e o Reino Unido trazem para a mesa. Os britânicos fazem parte do planeamento da NATO, os franceses não. Como é que isso funciona? Temos o conjunto correto de forças? Precisamos de mais para podermos proteger todos os outros? Como é que protegemos os outros? E como é que podemos ser credíveis para proteger a Polónia ou Portugal quando somos Estados com armas nucleares mais pequenas em comparação com os EUA? Como é que convencemos os americanos de que isto é crível? E como é que convencemos os russos de que devem estar preocupados e de que não vamos deixar da mão outro país europeu? Tudo isto é aquilo a que o Presidente Macron chamou 'a dimensão europeia do interesse vital francês'.

Tudo perguntas a que esta conversa pretende dar respostas…

Sim, e poderá haver declarações similares no contexto britânico, normalmente relacionadas com a NATO. Mas o que é importante é refletir sobre tudo isto. E, finalmente, os países não nucleares têm um papel importante a desempenhar, dizendo: 'Muito bem, o que é que podemos fazer para ajudar? Podemos participar na formação? Podemos apoiar as vossas forças? Existem capacidades convencionais que sejam úteis para a dissuasão [nuclear] que possamos adquirir?'

Atualmente analista distinto de política no European Council on Foreign Relations, responsável pela investigação do instituto em matéria de defesa e tecnologias disruptivas na segurança europeia, ​​​Camille Grand foi secretário-geral adjunto para o Investimento em Defesa na NATO, entre 2016 e 2022 foto: ECFR

Tudo isto é uma conversa muito importante que só agora está a começar e que, na minha opinião, só pode começar quando todos têm uma palavra a dizer, ou seja, não é apenas uma conversa para ser tida pelos grandes com armas nucleares. É uma conversa entre todos, em que alguns podem dizer ‘quero investir mais do que isso em defesa de mísseis’, que é um bocadinho o que a Alemanha está a fazer neste momento. Outros poderão dizer ‘OK, estou pronto para desempenhar um papel maior na missão nuclear’. Itália, a Alemanha, os Países Baixos e a Bélgica, por exemplo, têm dito que podem contribuir com mais aviões para isso, ou que podem investir mais em infraestruturas ou o que seja.

Isso poderá levar ao fim da dependência europeia dos EUA?

Não, isto seria com armas americanas. É um grande debate que está a começar e é um dos debates que está em curso, certo? Não é o único, mas é um debate muito importante e acredito que há respostas para isto. Ninguém deve dizer que vamos substituir facilmente os americanos. Mas penso que é justo ter uma conversa muito honesta entre nós, em que dizemos: 'Muito bem, o que podemos fazer para reforçar o empenho dos EUA? E o que podemos fazer para o cenário não impossível em que os EUA já não estão dispostos a correr riscos pela Europa? Como é que isso funciona?' Penso que estas duas conversas podem ter lugar – estão a ter lugar.

Destacou o facto de Macron ter aproveitado uma visita recente a Lisboa para lançar esta conversa…

Acho interessante que o presidente Macron o tenha feito quando visitou Portugal há uns meses, que tenha dedicado cinco minutos da sua grande entrevista aos assuntos nucleares – algo que nunca teria acontecido há cinco anos ou até mesmo há três anos.

Dois meses depois dessa visita a Portugal, o líder francês foi à Polónia, onde anunciou um acordo de defesa “histórico”, como Paris e Varsóvia o definiram. Sendo a Polónia o maior país do flanco oriental da NATO, qual é a importância deste acordo?

É muito importante porque França tem vindo a desenvolver e a reforçar as relações bilaterais com uma série de países, com a Alemanha, com o Reino Unido, com Itália, com Espanha e, nesse contexto, a Polónia era um elemento em falta entre os grandes países europeus. Porque estão preocupados com os EUA, os países estão interessados em ter relações bilaterais mais fortes, aquilo a que chamo relações mini-laterais com outros países.

Pode ser Portugal e o Reino Unido aprofundarem as suas relações no plano marítimo, pode ser França e Bélgica aprofundarem a relação em termos de forças terrestres. Mas também pode ser na forma de tratados mais formais, como este entre França e a Polónia, o Tratado de Nancy, que penso que envia uma mensagem interessante e bastante poderosa de que a Polónia não está a ser posta de parte, que França quer mesmo trabalhar com os polacos e que vai continuar a fazê-lo, que a Polónia importa tanto quanto grandes vizinhos, como a Alemanha.

Quando o novo chanceler alemão, Friedrich Merz, anunciou o acordo de coligação com o SPD, disse que a NATO pode em breve estar morta e que, portanto, os europeus precisam de encontrar uma aliança de segurança alternativa. Isto é exequível? Ou foi mais retórico, uma espécie de chamada de atenção ao resto da UE?

Ele queria que o público alemão compreendesse que a situação atual não vai durar muito, mas também que é ingénuo acreditar que vamos voltar à normalidade, ao que era antes. Não vamos voltar à normalidade. E isto é um pouco o que estivemos a debater, que não há regresso à normalidade. Temos de pensar coletivamente nos termos do novo normal.

"O que realmente importa é que a Europa e os europeus – e incluo o Reino Unido nesta conversa, não é só a UE – precisam de descobrir coletivamente o que fazer para proteger a Ucrânia a longo prazo" foto: Leon Neal/Pool via AP

Como será uma NATO muito mais europeia? Como será uma UE muito mais capaz? O que é que nós, europeus e Estados individuais, precisamos de fazer? Como é que Portugal pode contribuir para a segurança dos Estados bálticos? Parece rebuscado, mas, por outro lado, é o que está a acontecer já hoje, já há aviões portugueses nos céus.

Cada país da Europa tem de repensar aquilo com que pode contribuir, em vez de sermos consumidores de segurança, deixarmos que sejam os americanos a fazer as coisas difíceis ou que sejam os grandes países a tomar as rédeas. Todos têm de dar um passo em frente e fazer o que pode ser feito, e definir o que não pode ser feito, claro, perceber se posso enviar tropas para uma região da Europa que está em risco ou se posso enviar aviões – e isto aplica-se tanto à Alemanha quanto à Eslovénia.

Como é que o Livro Branco para a Defesa apresentado pela Comissão Europeia entra em jogo aqui?

É muito interessante, porque é a primeira vez que a União Europeia está a tentar refletir sobre o seu papel no que toca à defesa. É um processo difícil, porque é novo. A defesa não está no ADN da UE. Mas penso que estamos a tentar perceber tudo, perceber o que podemos fazer que é útil, o que podemos fazer que é significativo. Sim, precisamos de dinheiro, certo, mas para lá de o ter, onde é que esse dinheiro deve ser investido? Como pode a Europa facilitar a cooperação entre os seus Estados-membros? Como é que se deve lidar com a relação com Londres? Todas estas questões são muito importantes, não apenas questões práticas, mas também questões políticas. 

Devemos então encarar o Livro Branco também como o arranque desse outro processo?

O Livro Branco começa a lançar, digamos, os primeiros tijolos, a base, para isso. Acho muito interessante o facto de incluir as relações com a Ucrânia, as relações com o Reino Unido, mas também o nível de ambição da UE. Está tudo a avançar mais rapidamente do que a maioria dos observadores, eu incluído, teria pensado há dois ou três anos. 

Em março publicou um artigo de opinião em que dizia que “as garantias de segurança estão a revelar-se provavelmente a única coisa que os europeus podem trazer para a mesa das negociações” por forma a acabar com a guerra na Ucrânia. No contexto desta segunda ronda negocial entre ucranianos e russos em Istambul, mantém essa opinião?

O que realmente importa é que a Europa e os europeus – e incluo o Reino Unido nesta conversa, não é só a UE – precisam de descobrir coletivamente o que fazer para proteger a Ucrânia a longo prazo. 

E o que é preciso que os europeus façam?

São essencialmente três coisas. A primeira é perceber como continuamos a dar assistência à Ucrânia. E isso consegue-se continuando a fornecer armas e a estabelecer parcerias com as indústrias ucranianas para manter o apoio financeiro. Trata-se de uma fração do PIB da Europa, mas é realmente do nosso interesse, mesmo depois de um cessar-fogo, porque uma Ucrânia estável e forte é algo que é bom para a segurança europeia.

O envio de tropas europeias para a Ucrânia, reconhece Grand, "é extraordinariamente complicado, não temos de sugerir que se trata de uma tarefa fácil, mas penso que é exequível – desde que, claro, as outras duas coisas aconteçam, ou seja, que exista um exército ucraniano sólido e que o fluxo de assistência e parceria continue" foto: Mstyslav Chernov/AP

A segunda coisa que temos de fazer é refletir sobre o tipo de parceria que temos com a Ucrânia, que passa pela forma de nos prepararmos para o alargamento, de trabalharmos com os ucranianos a longo prazo. E, por último, há a questão das garantias de segurança e da chamada força de tranquilização, ou seja, quando houver um cessar-fogo.

Ninguém está a falar de entrar na Ucrânia para combater a Rússia, mas quando houver um cessar-fogo, se quisermos que esse cessar-fogo seja estável, pode fazer sentido ter alguns milhares de tropas – não sei quantas ao certo, mas entre 15 e 20 mil parece ser um bom número – baseadas na Ucrânia, para basicamente dizer aos russos ‘não retomem a luta, porque podem estar a lutar contra forças europeias e isso torna o vosso cálculo muito mais difícil’. E também dizer aos americanos ‘estamos a falar a sério quando dizemos que isto é realmente importante’, e dizer aos ucranianos ‘podem assinar este cessar-fogo e este acordo, porque nós estaremos lá para vocês’.

Tudo isto é extraordinariamente complicado, não temos de sugerir que se trata de uma tarefa fácil, mas penso que é exequível – desde que, claro, as outras duas coisas aconteçam, ou seja, que exista um exército ucraniano sólido e que o fluxo de assistência e parceria continue.

Mas é muito improvável que a Rússia aceite um acordo desta natureza.

Sim, não espero que a Rússia subscreva isto. Não devemos negociar os termos desta presença com os russos. O que devemos fazer, claro, é manter a Rússia ciente de que estes são os nossos planos, talvez dizendo que não serão mais do que alguns milhares, 10 ou 15 mil soldados, para que a Rússia não possa fingir que o objetivo é invadir o seu território.

Os russos devem compreender que se trata de uma questão de boa-fé – e que, se estão a negociar de boa-fé o fim desta guerra, não devem opor-se a algo que impeça o recomeço da guerra. É esse o plano.

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