Há uma "ameaça muito séria" e Portugal é a "retaguarda" num conflito com a Rússia. Por isso a NATO veio a Lisboa fazer pressão

27 jan, 22:00
Mark Rutte e Luís Montenegro (MIGUEL A. LOPES/LUSA)

Luís Montenegro prometeu chegar aos 2% até... 2029. Há quem diga que "não vai ser suficiente". É que a ameaça russa "pode parecer longíqua", mas "não é"

1,55% do PIB: isto é o que gasta Portugal em Defesa. 3%: é o que o secretário-geral da NATO quer que o país gaste. 5%: foi o número que Donald Trump avançou como objetivo na NATO. Mas o primeiro-ministro, Luís Montenegro, fica-se pelos 2% até 2029, altura em que esse número já não deverá ser o mínimo exigido. Mas que diferença pode fazer Portugal chegar aos 2% de Defesa?

“Pode fazer uma grande diferença, porque Portugal no contexto da NATO tem uma importância muito relevante”, garante o major-general Isidro de Morais Pereira. Embora esteja “mais longe do inimigo”, o país é, diz, "muito importante no contexto do combate”.

O especialista militar e comentador da CNN Portugal avisa que existe “uma ameaça muito séria” à segurança mundial e que a localização geográfica de Portugal pode levar o país a desempenhar um papel essencial num possível conflito. “Portugal tem uma posição estratégica privilegiada, porque é a fachada europeia imediatamente em frente à fachada norte-americana. Portanto, os reforços norte-americanos vindos do outro lado do Atlântico entram na Europa através de Portugal, que é o caminho mais curto”, começa por explicar, sublinhando também o interesse russo na costa portuguesa.

E continua: “Portugal funciona como uma zona de comunicações de um teatro de operações. Se houver uma ameaça séria da Federação Russa, nós não temos um inimigo que é só Federação Russa - passa a ser a Federação Russa mais 800 mil homens endurecidos pelo combate, se conquistar a Ucrânia e depois temos os aliados, como a China e a Coreia do Norte”. E, alerta, “podemos ter já amanhã algo que pode ser muito sério, pode ser uma ameaça muito séria à nossa segurança”.

Num cenário desses, Portugal seria a “retarguarda”, que é crucial para um conflito. “A guerra não se faz só nas frentes, ganha-se muitas vezes protegendo a retaguarda e atacando a retaguarda do inimigo e nós somos a retaguarda, somos o ponto que recebe os reforços vindos do outro lado do Atlântico”, garante.

Por outro lado, José Azeredo Lopes garante que Portugal chegar aos 2% do PIB em Defesa não faria uma especial diferença. “A pressão já existe há muito tempo para se atingir os 2%, que de facto não representam nada do ponto de vista das capacidades. Ninguém me convence que se todos os Estados estiverem a 2% a Europa está defendida”, aponta José Azeredo Lopes. 

No ano passado, 23 países-membros da Aliança Atlântica comprometeram-se a chegar aos 2% do PIB em Defesa. “Se antes era um compromisso político, transformou-se numa obrigação assumida pelos Estados”, diz, explicando que tal “não quer dizer que sejam responsabilizados por não assumir os 2%". " Estamos a falar de uma consequência mais política do que jurídica hoje em dia”, diz. Olhando para trás, Portugal é um dos oito de 32 membros que ainda não cumprem o mínimo.

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro (Miguel A. Lopes/Lusa)

Em conjunto, os Estados-membros da União Europeia já investem 2% do seu produto na Defesa, conforme confirmou esta segunda-feira o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, numa visita a Portugal. Ainda assim, “ninguém se atreveria a dizer que já estão capazes de dizer que estamos devidamente defendidos”, garante Azeredo Lopes

Para o comentador da CNN Portugal, “o problema é que estamos sistematicamente a falar de gasto financeiro”. E “muito mais do que gastar muito dinheiro, as questões da mobilidade militar e de adaptar infraestruturas são fundamentais”. É preciso, garante Azeredo Lopes, “investir o suficiente para estarmos defendidos contra um agressor mas sobretudo para que esse potencial agressor hesite”.

Para Azeredo Lopes, é “evidente que Rutte tem de fazer pela vida como representante máximo da NATO”, que “tem de dar um sinal o mais evidente possível de que os Estados europeus querem mesmo investir em Defesa”. Mas “o problema é que não estamos integrados nas nossas capacidades, porque Portugal pode comprar uma arma no país A, a França pode fazê la”.

“Estamos a investir em paralelo mas temos muitos poucos vasos comunicantes – a interoperabilidade é muito baixa. Não é culpa da NATO. Tinha de haver uma decisão política fundamental que juntasse alguns dos principais países a desenvolver indústria da defesa sozinha, de desenvolver capacidade. Bate sempre num muro. Os Estados europeus não estão preparados”, garante Azeredo Lopes.

Enquanto isto Donald Trump fala em atingir os 5%, um valor não alcançado por ninguém, nem mesmo pela Polónia, o Estado que mais investe, com 4,12% do orlamento anual. Entre o valor que tem gerado várias críticas e os 2%, os EUA pressionam para que seja possível “negociar a 3,5%”, diz Azeredo Lopes. E, acrescenta, a União Europeia "não sabe bem o que fazer”. “Podemos estar a discutir até ao fim dos tempos 2%, 3%, 4%, 5%, 10% do PIB que o resultado vai ser sempre o mesmo”, admite.

O secretário-geral da NATO esteve em Portugal esta segunda-feira, onde se encontrou com o Presidente da República e o primeiro-ministro. Mark Rutte defende que canalizar 2% do PIB de cada Estado-membro já não é suficiente para a Defesa da Europa, em linha com o que já afirmou o presidente dos EUA.

“Temos de continuar a adaptar-nos, temos de aumentar os nossos esforços e as nossas despesas. O objetivo de 2% [do Produto Interno Bruto] não vai ser suficiente”, garantiu, avisando que a ameaça russa “pode parecer longínqua”. Mas acrescentou: “Asseguro-vos que não é”.

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (EPA/António Pedro Santos)

 

Portugal "investe loucuras" mas é "incompreendido"

“Gosta-se muito de insinuar a ideia que o país do sul é preguiçoso”, constata Azeredo Lopes, comparando os gastos dos países do Norte com os do Sul em Defesa. Por exemplo, no Sul, França gasta 2.06% do PIB em Defesa, Itália dedica 1,49% e Espanha contribui com 1,28%. Por outro lado, mais a Norte, a Estónia dedica 3,43% do PIB à Defesa, a Letónia gasta 3,15% e a Lituânia contribui com 2,85%.

O que explica os valores díspares é, para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, a proximidade com a “grande ameaça” que é a Rússia, sendo que quanto mais a Norte mais um país gasta em Defesa. “Imagine-se que a Rússia era a Espanha. Não gastávamos 3% ou 4%? Claro que gastávamos”, garante Azeredo Lopes.

“O que nos leva a não estar tão preocupados com a questão da Defesa é estarmos mais longe. Sentimo-nos mais protegidos e gastamos menos”, concorda o major-general Isidro de Morais Pereira.

O especialista militar acredita que hoje em dia “as pessoas olham para o investimento na Defesa como um gasto”. “Preferem que se aplique dinheiro nos hospitais, nas pensões, no sistema de apoio social. Mas a verdade é que os grandes objetivos dos Estados-nação são a segurança e depois o progresso e o bem-estar. Não há progresso e bem-estar se não houver segurança”, diz.

O major-general Isidro de Morais Pereira denuncia ainda o “erro” das figuras políticas. “Esta palavra de gastar na Defesa tem de ser retirada do discurso dos políticos. Enquanto os nossos políticos continuarem a referir-se à Defesa como um gasto, a população não vai aderir. A população tem de perceber que temos de investir na Defesa porque os tempos assim o exigem. E Portugal tem de cumprir com a sua parte”, reforça.

Por sua vez, o comentador Azeredo Lopes fala, contudo, numa “incompreensão” para com os países que gastam menos. “Os países do sul, como França, Espanha, Itália e até Portugal - tem sempre fama de ser pouco gastadores, mas dão um contributo maior muito do que outros Estados nas missões da NATO, mas ninguém liga a isso”, sublinha.

É o caso de Portugal, que “investe loucuras na República Centro-Africana”. “A pressão sobre países do Sul transmite uma ideia muito injusta de que países do Sul não contribuem com nada. É esta incompreensão recíproca que leva a esta acrimónia. ‘Vocês não pagam, vocês têm de pagar mais’. É injusto para países do Sul, mas também não ajuda a querer fazer coisas no futuro”, avisa Azeredo Lopes.

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