O Ocidente planeia enviar armamento mais potente para a Ucrânia. A resposta da Rússia é imprevisível, mas pode precipitar uma nova fase da guerra

29 abr, 07:30
Ucranianos recolhem mísseis russos em Berezivka (Efrem Lukatsky/AP)

Palavras de um ministro britânico e envio de armamento cada vez mais potente à Ucrânia podem fazer escalar o conflito

O ministro da Defesa do Reino Unido afirmou que seria “inteiramente legítimo” a Ucrânia utilizar armas britânicas para atacar alvos militares em solo russo. "Há muitos países no mundo que operam equipamento que importaram de outros países. Quando esse equipamento é utilizado, não culpamos [o país] quem o fabricou, mas o país que disparou", disse James Heappey. Mas será que a Rússia vê a questão da mesma forma?

Moscovo respondeu esta quinta-feira às palavras do ministro britânico, voltando a lançar ameaças ao Ocidente: “Estão a pedir abertamente a Kiev que ataque a Rússia, com armas que receberam de países da NATO”, afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova. Já o ministro russo da Defesa, Sergei Shoigu, considerou as palavras do lado britânico uma “provocação”.

Para o major-general Carlos Branco, a “legitimidade” da situação não é o principal ponto, mas antes o tom do discurso de James Heappey, que vem na sequência de outras ações ocidentais: “É evidente que a Ucrânia tem legitimidade para utilizar todo o seu arsenal bélico, tanta legitimidade como tem a Rússia”, afirma à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI), vincando que tendo sido atacada no seu território, é natural que a Ucrânia responda na mesma moeda.

“O que está aqui em causa não é isso. O que está em causa nas declarações do ministro britânico é o apoio que Ocidente está a proporcionar e a entrega de equipamento à Ucrânia”, refere, lembrando a reunião na passada terça-feira de Ramstein, na Alemanha, em que 40 países se comprometeram com a entrega de equipamento, grande parte dele pesado, ao exército ucraniano.

Envio de material militar dos EUA para a Ucrânia (Efrem Lukatsky/AP)

Sónia Sénica, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais, também vê a reunião que decorreu na Alemanha como um momento-chave: "Declarações do ministro da Defesa do Reino Unido vão no sentido de verbalizar aquilo que vai ser uma ajuda em armamento pesado à Ucrânia".

"São riscos a serem considerados, e foi dessa forma que foi verbalizado pelo Kremlin: como uma ameaça", acrescenta a especialista, lembrando que a Rússia já considerou como um alvo legítimo as infraestruturas de armamento em solo ucraniano.

Para o militar Carlos Branco, esta situação não pode ser dissociada do mais recente aviso diplomático feito pela Rússia, que enviou uma carta a cerca de 20 países, incluindo os Estados Unidos, na qual avisou para “consequências imprevisíveis” caso o Ocidente continue a ajudar a Ucrânia com equipamento.

“Essa carta ocorre no dia a seguir ao afundamento do Moskva [um dos maiores navios da frota russa]. Temos de ler estas coisas em conjunto, porque existem fortes desconfianças de uma intervenção estrangeira na orientação do míssil”, sublinha, recordando que, neste caso, a ajuda internacional poderia ser entendida de uma outra forma por parte da Rússia.

“Parece que o ministro britânico não quis ouvir o que os russos disseram [na carta]”, acrescentou Carlos Branco, que admite que as palavras de James Heappey possam ser entendidas como uma provocação: “Essas declarações eram dispensáveis e são entendidas pelos russos como uma provocação”.

Sónia Sénica não entende que a Rússia sinta, em primeira instância, as palavras e movimentações ocidentais como uma provocação, mas sim como uma ameaça, não apenas da parte ocidental, mas também do lado ucraniano, que fica "mais capacitado" para a luta no terreno.

Sobre a narrativa do ministro britânico, a especialista diz que "não vai ser bem interpretada do lado da Federação Russa", mas que vem no decorrer de palavras como as de Joe Biden, que chamou "criminoso de guerra" a Vladimir Putin.

O coronel Mendes Dias, especialista militar e comentador da CNN Portugal, refere que a legitimidade para utilizar o equipamento não está em causa, até porque estamos em pleno contexto de guerra: "Não é uma questão militar, mas de tática", e, sobretudo, relacionada com a forma como a Ucrânia vai empregar estas armas.

No fundo, explica o militar, a legitimidade só é perdida, e isto vale para ambos os lados, caso sejam utilizados materiais que são proibidos, como armas químicas ou nucleares, por exemplo.

"Tudo isto é normal, o que não é normal é ministros da Defesa acicatarem a questão, [dando conselhos] para utilizarem de determinada forma", sublinha.

A (imprevisível) fase seguinte da guerra

Sobre as consequências da ajuda militar, que se efetiva com meios cada vez mais potentes, Carlos Branco diz que é impossível prever como vai ser a reação russa: “Os russos nesta altura começam a perder espaço de manobra para fazer avisos. Vamos entrar numa fase seguinte, que não sabemos qual é”.

“Eles vão naturalmente reagir, não podem ficar quietos, não podem dar parte fraca”, indica o major-general, falando num “aumento da tensão” quando o necessário era precisamente o contrário.

Sónia Sénica concorda e fala numa "fase bastante diferenciadora do conflito", nomeadamente depois do acordo alcançado em Ramstein, e que prevê o fornecimento de armamento pesado, algo que o parlamento alemão, por exemplo, aprovou esta quinta-feira.

Em causa, diz, pode estar a ideia russa de que a NATO estará a utilizar a Ucrânia como forma de fazer uma guerra por procuração, na qual uma parte (a NATO) utiliza um país terceiro (a Ucrânia) para uma guerra com outra parte (a Rússia).

"Isto já começa a adotar contornos bastante substanciais", afirma Sónia Sénica, que aponta uma "maior capacitação militar da Ucrânia" que pode "ser sentida do lado da Federação Russa como uma ameaça bastante significativa, até para o seu próprio território".

O coronel Mendes Dias discorda desta visão, e não prevê que estas palavras do ministro britânico possam vir a aumentar o conflito, até porque "na intervenção violenta isto acontece com muita abundância", ou seja, é normal vermos este tipo de discurso em contexto de guerra.

Para o especialista militar, as declarações de James Heappey foram desnecessárias, sendo que, em último caso, vêm "em desfavor" do Ocidente, onde "criam um medo desnecessário".

Recorde-se que a Ucrânia terá, segundo a Rússia, atacado alvos militares nas regiões russas de Belgorod, Kursk e Bryansk, que fazem fronteira com Kharkiv, Sumy e Chernihiv, respetivamente. Num dos últimos episódios foi atacado um reservatório de petróleo em Bryansk. Sobre estes casos, a Ucrânia fala em "guerrilha".

Fogo na petrolífera Transneft, Bryansk (AP)

Através da porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, a Rússia avisou que, caso estes ataques continuem, será obrigada a alvejar locais decisivos na Ucrânia.

Do lado ucraniano não houve quaisquer confirmações destes ataques, mas o conselheiro presidencial Mykhailo Podolyak descreveu estes incidentes como resultado do “karma”.

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