Para muitos na Europa, Trump abriu buracos no escudo nuclear da NATO

CNN , Análise de Joseph Ataman
16 mar 2025, 16:44
O submarino nuclear “Suffren” em Cherbourg, no noroeste de França, fotografado a 12 de julho de 2019. Ludovic Marin/AFP/Getty Images
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Nas últimas semanas, uma série de líderes europeus sublinharam a ideia de querer reforçar a sua defesa comum sob ume espécie de 'guarda-chuva nuclear' britânico ou francês, à medida que a fiabilidade de Washington parece vacilar

É um novo dia na Europa.

Acabaram-se os anos dourados do compromisso americano inabalável com a defesa da Europa contra a Rússia.

O que veio para ficar – pelo menos enquanto Donald Trump estiver na Casa Branca – é algo mais transacional. E os riscos não podiam ser maiores.
A Europa tem de "dar um grande passo em frente para prover à sua própria defesa", disse o vice-presidente dos EUA, JD Vance, aos decisores em Munique, em fevereiro.

A resposta da Europa, até agora, tem sido prometer aumentar a despesa interna e para a Ucrânia, com o objetivo de comprar armamento de fabrico europeu. Mas também foi apresentada uma solução mais radical: um "guarda-chuva nuclear" europeu.

Se os Estados Unidos sempre foram o irmão mais velho da Europa, a França e o Reino Unido também são potências nucleares de longa data – e alguns líderes europeus estão a questionar se a derradeira dissuasão a Moscovo poderá vir de mais perto de casa.

Embora a maior parte das armas nucleares do mundo seja de propriedade dos EUA ou da Rússia, a França possui cerca de 290 ogivas nucleares e o Reino Unido 225 mísseis Trident de design americano.

As últimas semanas testemunharam uma série de comentários de líderes europeus que procuram reforçar a sua defesa comum sob ume espécie de 'guarda-chuva nuclear' britânico ou francês, à medida que a fiabilidade de Washington parece vacilar

Mísseis nucleares britânicos são transportados na frota de quatro submarinos de mísseis balísticos de propulsão nuclear da classe Vanguard. Jeff J Mitchell/Getty Images

O Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu, no início deste mês, "abrir o debate estratégico sobre a proteção, pela nossa dissuasão, dos nossos aliados no continente europeu".

Os seus comentários surgiram depois de o presumível próximo Chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, ter apelado a conversações com a França e o Reino Unido sobre o alargamento da sua proteção nuclear.

O Primeiro-Ministro polaco, Donald Tusk, afirmou que a proposta francesa "não era nova" e tinha surgido várias vezes em conversas, manifestando o seu apoio à ideia.

Outros líderes de países historicamente avessos às armas nucleares, como a Suécia e a Dinamarca, também saudaram as manifestações de abertura da França para com os aliados europeus.

Desde que o General Charles de Gaulle estabeleceu a força nuclear francesa no final da década de 1950, em parte para manter Paris no centro da tomada de decisões globais, o programa da França tem sido orgulhosamente soberano – "francês de ponta a ponta", como o descreveu Macron.

Mas durante décadas, durante a Guerra Fria, a França também procurou trazer os aliados europeus para a sua proteção nuclear, disse à CNN Yannick Pincé, historiador do Centro Interdisciplinar de Estudos Estratégicos (CIENS) de França.

O Reino Unido não fez qualquer oferta pública para partilhar ou alterar a sua proteção nuclear. Mas as suas ogivas continuam comprometidas com o comando da NATO dominado pelos EUA, oferecendo assim já uma proteção estratégica aos aliados europeus.

Alguns líderes ainda esperam um apoio reforçado dos EUA.

Na quinta-feira, o Presidente polaco, Andrzej Duda, apelou a Trump para que destacasse armas nucleares dos EUA na Polónia, comparando a medida à decisão da Rússia de basear alguns dos seus próprios mísseis nucleares na Bielorrússia em 2023.

"Penso que não só chegou o momento, como seria mais seguro se essas armas já estivessem aqui", disse Duda ao Financial Times.

NATO Secretary-General Mark Rutte holds a press conference with US President Donald Trump at the White House on March 13. Andrew Harnik/Getty Images

 

Mano-a-mano

Embora a maior parte das armas nucleares do mundo seja de propriedade dos EUA ou da Rússia, a França possui cerca de 290 ogivas nucleares e o Reino Unido 225 mísseis Trident de design americano.
As últimas semanas testemunharam uma série de comentários de líderes europeus que procuram reforçar a sua defesa comum sob um guarda-chuva nuclear britânico ou francês, à medida que a fiabilidade de Washington parece vacilar.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu, no início deste mês, "abrir o debate estratégico sobre a proteção, pela nossa dissuasão, dos nossos aliados no continente europeu".

Os seus comentários surgiram depois de o presumível próximo Chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, ter apelado a conversações com a França e o Reino Unido sobre o alargamento da sua proteção nuclear.

O Primeiro-Ministro polaco, Donald Tusk, afirmou que a proposta francesa "não era nova" e tinha surgido várias vezes em conversas, manifestando o seu apoio à ideia.

Outros líderes de países historicamente avessos às armas nucleares, como a Suécia e a Dinamarca, também saudaram as manifestações de abertura da França para com os aliados europeus.

Desde que o General Charles de Gaulle estabeleceu a força nuclear francesa no final da década de 1950, em parte para manter Paris no centro da tomada de decisões globais, o programa da França tem sido orgulhosamente soberano – "francês de ponta a ponta", como o descreveu Macron.

Mas durante décadas, durante a Guerra Fria, a França também procurou trazer os aliados europeus para a sua proteção nuclear, disse à CNN Yannick Pincé, historiador do Centro Interdisciplinar de Estudos Estratégicos (CIENS) de França.

O Reino Unido não fez qualquer oferta pública para partilhar ou alterar a sua proteção nuclear. Mas as suas ogivas continuam comprometidas com o comando da NATO dominado pelos EUA, oferecendo assim já uma proteção estratégica aos aliados europeus.

Alguns líderes ainda esperam um apoio reforçado dos EUA.

Na quinta-feira, o Presidente polaco, Andrzej Duda, apelou a Trump para que destacasse armas nucleares dos EUA na Polónia, comparando a medida à decisão da Rússia de basear alguns dos seus próprios mísseis nucleares na Bielorrússia em 2023.

"Penso que não só chegou o momento, como seria mais seguro se essas armas já estivessem aqui", disse Duda ao Financial Times.

Sem um arsenal da escala do da Rússia, a França só "conseguiu ameaçar uma retaliação estratégica, ou seja, atingir o adversário com muita força para atuar como dissuasor", disse à CNN o historiador nuclear Yannick Pincé.

A dimensão relativamente diminuta do arsenal nuclear francês, em comparação com o dos EUA, facilitou a sua rejeição, mesmo entre os principais generais do Ocidente, disse à CNN o General reformado Michel Yakovleff, antigo vice-comandante das forças da NATO na Europa.

Para além do seu enorme poder, a dimensão e a diversidade do arsenal americano conferem-lhe outra vantagem fundamental na guerra nuclear: o potencial para minimizar qualquer troca termonuclear. Os EUA "podem usar o que chamamos de resposta graduada", disse Pincé, para talvez até realizar um único ataque, em vez de libertar todo o seu arsenal.

Em contraste, o arsenal nuclear francês – com submarinos carregados de mísseis e bombardeiros com armas nucleares – foi historicamente concebido como um último recurso se as forças russas da Guerra Fria ameaçassem o território francês, libertando provavelmente uma barragem sobre locais-chave nos territórios da esfera soviética para forçar uma retirada inimiga.

São diferenças como estas que representam um desafio fundamental para qualquer guarda-chuva nuclear centrado na Europa.

"Uma coisa que os europeus não têm é cultura nuclear. Eles não a entendem porque sempre presumiram que os americanos o fariam", disse Yakovleff. "Suspeito que Macron esteja a pensar em, se me permitem, educar quem o desejar, sobre o diálogo nuclear."

Macron propôs que os aliados participem nos exercícios nucleares secretos do país, para verem em primeira mão as capacidades e a tomada de decisões da França.

Mas também deixou claro que não está a ceder o seu "botão nuclear" aos aliados ou mesmo a Bruxelas. A decisão de lançar um ataque nuclear "sempre permaneceu e permanecerá" nas suas mãos, disse ele à França num discurso nacional.

Os militares do Reino Unido têm sido "muito ativos no sentido de aumentar o que se chama o QI de dissuasão nuclear na NATO", disse Lukasz Kulesa, diretor do programa de proliferação e política nuclear do think tank RUSI, sediado no Reino Unido, "garantindo assim que todos os aliados estão conscientes e compreendem a gramática da dissuasão nuclear".

Isto significa que, se a proposta de Macron se tornasse realidade, "a França não estaria a entrar num campo totalmente desconhecido. Estes são países que, durante décadas, foram cobertos pela dissuasão nuclear alargada", disse à CNN Heather Williams, diretora do Projeto sobre Questões Nucleares do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

No entanto, é fundamental salientar que os EUA não disseram que vão retirar o seu compromisso de proteger os aliados da NATO, sublinhou ela.

Esta semana, um bombardeiro americano com capacidade nuclear sobrevoou o centro de Estocolmo para assinalar o primeiro aniversário da adesão da Suécia à NATO – uma escolha altamente simbólica.

Entretanto, um relatório de fevereiro da Federação de Cientistas Americanos apontou para "provas crescentes de três anos de recolha de documentação e observações" que indicam que os EUA estão a preparar-se para redistribuir ogivas nucleares para a sua principal base aérea no Reino Unido pela primeira vez em mais de 15 anos. A CNN contactou o Departamento de Defesa dos EUA para obter comentários.

Tal medida pode sinalizar a seriedade com que Washington encara o aumento da tensão na Europa.

Afastar Moscovo

Um conjunto de mísseis nucleares russo é apresentado durante uma parada militar na Praça Vermelha, a 5 de maio de 2024 /Getty Images

Megaton por megaton, o arsenal da Europa não se compara ao de Moscovo.

Reforçar o arsenal nuclear da Europa seria uma "questão de anos, senão décadas", de investimento e desenvolvimento, segundo Kulesa da RUSI.

Mas a dissuasão não é apenas uma questão do número de mísseis; demonstrar a credibilidade operacional das forças nucleares da Europa também é essencial.

Uma cooperação mais coesa com os aliados em torno das forças nucleares seria um forte impulso à dissuasão, disse Kulesa. Isso poderia implicar o reabastecimento ar-ar de aliados em apoio aos bombardeiros franceses ou capacidades de guerra antissubmarina para proteger as manobras de submarinos nucleares britânicos ou franceses.

Dado o encolhimento do investimento nos militares britânicos ao longo de décadas, foram levantadas questões sobre a dissuasão que as armas convencionais e nucleares da Grã-Bretanha oferecem, particularmente dada a sua dependência de uma cadeia de abastecimento dos EUA.

Nos últimos oito anos, o Reino Unido reconheceu publicamente dois testes falhados de mísseis nucleares, um deles nas águas da Florida, quando mísseis simulados não dispararam como previsto.

O Primeiro-Ministro britânico, Keir Starmer, prometeu no mês passado o que o governo descreveu como "o maior investimento em despesas de defesa desde a Guerra Fria" num mundo cada vez mais perigoso.

Outros aliados europeus não nucleares estão a aumentar os seus gastos em armas convencionais – e isto também conta, dizem os analistas.

Fundamentalmente, "as armas nucleares não são um instrumento mágico", disse Kulesa.

Qualquer dissuasão verdadeira à Rússia necessitará de forças convencionais e nucleares, disse ele, e sob Trump, "a questão é se se pode contar com o compromisso e o envolvimento americanos".

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