Embora o Natal seja muitas vezes uma época repleta de alegria, sentimentos, amor e laços familiares, também pode ser uma recordação dolorosa do que já foi ou do que muitas outras pessoas têm mas nós não.
“É-nos apresentada esta versão ideal do Natal, com pessoas casadas, com filhos, pessoas com famílias, com pijamas a condizer e fotografias lindíssimas”, observa Shani Silver, escritora, apresentadora e autora da newsletter Substack Cheaper Than Therapy, de Nova Orleães.
Mas essa noção exclui um grande número de pessoas que não terão “o Natal aconchegante de Norman Rockwell”, acrescenta, incluindo aqueles que são recém-solteiros ou afastados da família, ou que perderam um parceiro ou outro membro da família.
Se se inclui neste grupo, saiba que não há problema em aceitar os seus sentimentos e manter as celebrações discretas ou ficar de fora desta época festiva. Mas não tem de se recusar a festejar esta época festiva por não ter um parceiro ou família com quem celebrar.
Esta pode ser a altura em que se sente com forças para criar novas experiências significativas com amigos ou com o VIP da sua vida, que está sempre lá para si - você mesmo.
Eis como descobrir o que é melhor para si nesta época festiva.
É altura de mudar o seu mindset
Não ter um parceiro ou uma família próxima com quem passar o Natal pode estar associado a sentimentos de culpa e de vergonha, observa Ayanna Abrams, psicóloga clínica de Atlanta. Sente que não esta a viver as experiências que “supostamente” deveria ter durante esta época, “e tudo isso exacerba os seus sentimentos de solidão e tristeza”, acrescenta.
Pode ainda estar cheio de mágoa, especialmente caso tenha passado por uma separação, afastamento ou morte recentemente. “De repente, tudo é diferente este ano" e pode sentir saudades das tradições que tinha com a pessoa que perdeu, admite a psicóloga,
Nesta nova fase, o Natal não precisa de ser como sempre foi, sugere Adam Brown, psicólogo clínico e professor de psicologia na New School for Social Research, em Nova Iorque.
Assim como não há nada de errado em não ter essas coisas, também não há nada de mau em querer e sentir falta delas. Mas chega a um ponto em que ficar triste ou envergonhado o impede de se motivar para traçar o seu próprio caminho e de reconhecer as pessoas que ainda restam na sua vida.
Shani Silver encoraja os solteiros a “deixarem de ver a época festiva como um prémio de consolação”.
A vossa época festiva não é insignificante, diz Shani Silver, que é solteira há 17 anos. Não há razão para não celebrar tanto como qualquer outra pessoa, e “uma casa com uma pessoa lá dentro continua cheia”, sublinha. “Cada ser humano na Terra é uma pessoa válida.”
Criar um novo plano
Quando estiver a pensar em formas alternativas de celebrar as festas, pense no que lhe traz mais alegria, recomenda Shani Silver.
“Temos este tempo único à nossa disposição para definir o que queremos fazer como indivíduos, e muitas pessoas nunca terão essa possibilidade”, relativa. “Não encarar isso como um fardo, mas como um benefício é uma das formas de começar a desfrutar realmente desta época.”
Se sempre foi a mercados de Natal com o seu ex, pode desfrutar dessas atividades sozinho ou com amigos, sugere Shani Silver. O seu ex odiava patinagem no gelo enquanto você sempre quis experimentar? Agora é a altura certa.
Experimente fazer bolos para o Natal, ver um filme em casa ou ir ao cinema, fazer uma prova de vinhos ou experimentar uma receita que tem andado sempre a adiar.
Ainda vai a tempo de montar uma árvore e enviar cartões de Natal pelo correio, acrescenta Ayanna Abrams. Tal como passear por bairros iluminados e decorados ou viajar para visitar um amigo.
Se tiver amigos ou conhecidos que estejam a passar pela mesma situação, combine um jantar em conjunto, como fez Shani Silver no ano passado, ou marque outros planos.
É natural que sinta que não quer ser um fardo, admite Adam Brown. Mas nunca se sabe o que pode acontecer se dissermos a um ente querido que estamos a sentir necessidade de nos relacionarmos e queremos saber o que é que ele vai fazer no Natal.
Talvez esteja triste por não ter ninguém a deixar-lhe presentes debaixo da árvore, mas pode fazer compras de Natal para coisas que realmente queria ou organizar uma troca de presentes entre amigos.
Para manter o elemento surpresa, Shani Silver costumava encomendar caixas de presentes misteriosos temáticos ou calendários do advento que esperava até ao dia de Natal para abrir. Para quem compra pessoalmente, algumas livrarias embrulham livros em papel e escrevem uma descrição no exterior para que não se saiba o que se está a receber.
Shani Silver também oferece a si própria coisas imateriais, como terminar projetos de trabalho mais cedo para ter mais tempo livre.
Como lidar com a tristeza
Trabalhar com um terapeuta é uma das melhores formas de lidar com as dificuldades que pode ter durante esta época natalícia ou noutras alturas do ano, garante Ayanna Abrams, que recomenda que marque consultas agora, se necessário, para antecipar o encerramento dos escritórios. Isto é especialmente necessário se estiver a notar algum isolamento, sono excessivo, dificuldade em sair da cama, uso indevido de substâncias ou perda de apetite.
Por vezes, as distrações são necessárias, afirmam os especialistas. Nem sempre é possível evitar a dor ou eliminá-la, mas é possível aprender a tolerá-la e a dar-lhe espaço.
O autocuidado pode ajudá-lo a lidar com a situação e a sentir mais alegria este ano, sugere Brown. Faça o que o ajuda a sentir-se bem e a processar os seus sentimentos, incluindo praticar exercício físico, escrever num diário, desabafar sobre as coisas numa gravação de voz, nutrir o seu corpo e recorrer ao seu sistema de apoio.
Ao considerar a possibilidade de participar nas festividades, muitas pessoas tendem a pensar em padrões de tudo ou nada: ou se vai a todas as festas ou não se vai a nenhuma. Ou se enfeita todos os corredores da casa ou se deixa tudo a descoberto.
“Geralmente desperdiçamos muitas oportunidades de ter algo que queremos experimentar”, assume Abrams.
Considerar o meio-termo pode ajudar - talvez não vá a um jantar mas envia um presente secreto. Ou planeia ir, mas fica apenas uma hora ou assim. Tente decorar a casa, mas talvez apenas uma divisão.
Se a dor atacar, ir para outra divisão ou para o exterior para chorar, por exemplo, é melhor do que tentar reprimir as emoções, afirma Ayanna Abrams.
Quer seja externa ou auto-imposta, a pressão para se animar pode fazer com que as pessoas se sintam muito pior. (O ar frio, embora desconfortável no início, também pode ser bom para o seu humor, diz a psicóloga).
“Está a sentir-se assim porque é humano”, sublinha Ayanna Abrams.
Estabelecer limites e expectativas
Se vir todas as publicações de festas felizes e românticas for demasiado difícil, fazer uma pausa nas redes sociais ou silenciar certas contas pode ajudar, sugere Ayanna Abrams.
Por outro lado, mudar a sua mentalidade e a forma como se compara com outra pessoa pode ser útil, diz Silver. “Ter ciúmes é apenas uma lente que você pode escolher. Também pode optar por ver as coisas como: 'Se lhes aconteceu a eles, pode acontecer-me a mim'.”
E, se durante um jantar, alguém fizer perguntas intrometidas sobre o estado da sua relação, não lhe deve uma resposta, afirma Shani Silver. É tão digno de dignidade, respeito e privacidade como alguém que está numa relação.
Preparar guiões soltos de respostas com base nos seus limites e dinâmica social pode ser útil, sugere Abrams, especialmente se sentir pressão para responder apesar dos seus sentimentos. Pode dizer que não quer falar sobre isso, que nesta época festiva as coisas são diferentes ou que só quer concentrar-se no seu novo ‘eu’. Pode até avisar previamente os seus entes queridos através de uma mensagem de texto ou de uma chamada telefónica, o que pode poupar a todos um momento embaraçoso.
Independentemente do que fizer, Shani Silver espera que tenha uma época festiva tão feliz como qualquer outra pessoa - e aconselha-o a escolher os planos para esta altura com os quais tem capacidade emocional para lidar.
“Qualquer forma de passar esta época de forma autêntica é correta”, sublinha.
Nota: este texto foi originalmente publicado a 24 de dezembro de 2024