Há poucos dias, numa aula a crianças de 7 anos da minha escola, fiz uma pergunta simples: quem gostariam de ser no presépio? As respostas eram previsíveis: os pastores, a vaca, S. José, o Menino Jesus. Até que um deles, de óculos, disse com convicção: «Eu gostava de ser um dos reis magros».
Reis magos?, perguntei eu.
«Magros», respondeu ele. «Vêm de muito longe, caminham muito, fazem muito exercício».
As crianças pensam sem filtros. Os Reis Magos não ficaram parados a olhar para o presépio à distância. Reis que caminham. Reis que procuram.
Leiamos juntos, com paciência, a sua história na Bíblia (Mt 2, 1-12) e vejamos depois 5 lições deste texto.
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está — perguntaram eles — o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam:
«Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém, dizendo:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.
Pensei em 5 lições que nos ensinam estes personagens.
1. Sair
Os Magos seguem a estrela apesar do incómodo, da distância e do risco. Porque é que os sábios de Herodes e o mesmo Herodes não se juntaram aos reis? Não teriam, pelo menos, curiosidade? Eles não se movem. Preferem a segurança do poder instalado, uma tentação sempre actual: saber muito sobre Deus sem O procurar de verdade.
Os Magos não se contentam com respostas fáceis nem com a tranquilidade do já sabido. Não temem sair do politicamente correto, não sentem o FOMO, fear of missing out. A coragem de sair de nós. Sair para visitar um familiar, ou um doente, um amigo. Faz-nos bem sair a pé para ir a Fátima ou a Santiago. Sair de nós. Sair para ir à Missa quando estava a dar aquele filme ou série que queria tanto ver.
2. Oferecer
“Eu nunca recebi ouro, incenso ou mirra no Natal”, disse-me um aluno. Não são presentes úteis. São prendas desconcertantes, mas representam o essencial. Segundo a mentalidade da época, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um acto de submissão.
Os Magos recordam-nos que os presentes que trocamos devem ser dom verdadeiro não só um objecto, mas a pessoa que se dá. Dar algo, muda-nos, submete-nos. Em cada presente deveria estar sempre um pouco de nós. Dar é comprometer-se.
3. Pedir ajuda
Os Magos eram sábios, mas souberam perguntar. Procuravam o essencial: o sentido da vida (de onde vimos? Para onde vamos?), a verdade sobre Deus. Quando a estrela desaparece, não desistem; procuram ajuda. A fé começa quando reconhecemos que não nos bastamos a nós mesmos e ousamos pedir ajuda. Quando temos dúvidas sobre a vida ou sobre Deus, peço ajuda ou conformo-me com as minhas certezas ou com as aulas de catecismo de quando estava no primeiro ano? Desisto de procurar?
4. Mudar
Depois de adorarem o Menino, os Magos regressam «por outro caminho». Não é um pormenor narrativo. Quem encontra Cristo não pode continuar como antes. Leão XIV, citando Santo Agostinho, diz que adorar Cristo é também «seguir por um caminho diferente daquele por onde viemos» (Sermo 202).
O Natal, o encontro com Jesus, deveria mudar alguma coisa em nós: gestos, palavras, a maneira de olhar para aqueles com quem partilhamos a Ceia, a forma como ajudamos na cozinha, até a forma como comemos doces ou ingerimos álcool, a forma de vermos juntos televisão e nos distanciamos dos nossos telefones.
5. Olhar para o céu
Estive em Barcelona recentemente. Revisitei a Basílica da Sagrada Família. Na fachada da natividade há esculturas de todo o Zodíaco, representando os meses e os ciclos da vida, e no Natal, especificamente, destacam-se o Sol (Jesus) e o todas as estrelas.
São esses os sinais que os Magos lêem. São os sinais da criação, da ciência. Fé e razão levam-nos ao presépio, a Deus. E os santos são as estrelas que indicam o caminho (Bento XVI, Homilia da Epifania, 2012). Olhemos para S. António e S. Isabel, para S. Francisco e S. Jacinta, S. Carlo Acutis e S. Josemaria como quem olha para o céu e se deixa guiar numa noite escura.
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No fim da aula, fiquei a pensar: ser um dos reis magros. Não reis poderosos, mas humildes; não estáticos, mas peregrinos; não pessoas de certezas, mas homens de perguntas.
No presépio continuam discretos, muitas vezes esquecidos. Talvez sejam eles quem melhor nos representam. Se calhar, até ficamos mais “magros”, mais leves, porque nós, como eles, sabemos que podemos dividir com Jesus que nasce o peso das nossas dúvidas, problemas e vulnerabilidades.
Que não nos cansemos de olhar para o presépio. Neste Natal, tenhamos a ousadia de ser um dos Magros do Oriente.
Feliz Natal!