Roma, final de novembro. Lembro-me como se fosse hoje. O fim de tarde tem uma luz dourada que parece abraçar cada esquina. Na Via Condotti, as lojas da Gucci, Prada e LV mostram as sofisticadas decorações de Natal. O frio traz consigo um perfume de castanhas que se mistura com os cappuccinos fumegantes.
Neste cenário, passeava pelo centro do Vaticano. Na praça de São Pedro observei os preparativos da montagem do presépio em madeira. Os trabalhadores moviam cuidadosamente as figuras: Maria e José olham ternamente para o Menino Jesus, o burro e a vaca repousam atrás deles, pastores e reis magos aproximam-se de lados opostos. Apesar da modernidade, a cena era profundamente realista.
Ao meu lado, surgiu uma família: pai, mãe e dois filhos, todos em trotinetas: a mãe com o mais novo, o pai com o mais velho. O pequeno Alessandro, de oito anos, vestia um gorro vermelho vivo da Ferrari. Ao aproximar-se do presépio, a sua expressão mudou. As luzes ainda estavam apagadas, a montagem não tinha terminado. E então, com a inocência própria das crianças, perguntou à mãe:
"Mamma, Gesù ha paura del buio?"
"Mamã, Jesus tem medo do escuro?"
A mãe ficou sem palavras, olhou para o marido, e nenhum dos dois soube responder. Quando eu tinha a idade do Alessandro, também tinha medo do escuro: nas ruas, em casa, no meu quarto.
A poucas semanas do Natal, muitas cidades em Portugal exibem, com orgulho, luzes e árvores. A escuridão resolve-se com eletricidade, cor e brilho. Mas há 2000 anos o primeiro presépio foi às escuras. A única luz que iluminava a gruta eram os corações de José e Maria, como focos de carinho e atenção que davam vida à cena.
Dar luz é bom mas também difícil. Na verdade talvez nós não tenhamos luz própria mas tenhamos que refletir a luz: a luz que recebemos de Deus. Quando era criança colecionava cromos fluorescentes que vinham nos Bollycaos, autocolantes que absorviam a luz e brilhavam no escuro. Durante o dia, guardavam energia; à noite, refletiam-na. Receber a luz de Jesus quando parece que estamos às escuras, que estamos perdidos, que nada faz sentido. Que bonito se aproveitamos este tempo antes do Natal para voltar a ir à Missa para ver como era e ganhar a força de pedir desculpa a Jesus na confissão porque temos cá dentro o desejo de sermos melhores.
Que importante é montar um presépio e uma árvore de Natal em casa com os filhos ou no escritório com os colegas. Podem ser grandes, pequenos, comprados nas lojas dos chineses ou de porcelana requintada, exuberantes ou sóbrios, iluminados ou às escuras. Um presépio que nos lembre que devemos ser luz e que devemos reflectir a luz.
A pergunta de Alessandro deixa-nos um trabalho de casa:
- Dar luz a quem vive sozinho: Em Portugal, mais de um milhão de pessoas vivem sozinhas. Um telefonema, uma visita, um gesto de companhia pode iluminar um Natal que de outro modo seria sombrio. Como nos lembra o Papa Leão no recente documento Dilexit te, o nosso tempo é sempre a melhor prenda contra a solidão.
- Dar luz às amizades perdidas: Pedir desculpa, fazer aquele telefonema que andamos a adiar há meses, oferecer um abraço sincero que vale mais do que uns chocolates ou uma garrafa de vinho que apanhamos no supermercado mais próximo.
- Dar luz em casa: Entre marido e mulher. Entre pais e filhos. Pequenos gestos de paciência, carinho e compreensão. Até quando um filho não gosta daquilo que com tanto entusiasmo comprámos. Até para fazer as compras de Natal ou negociar com as famílias dos pais de cada um onde será o Natal e passagem de ano. Como dizia São Josemaria: "Que a tua vida não seja uma vida estéril. - Sê útil. - Deixa rasto. - Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor.
No fundo, a pergunta do Alessandro recorda-nos algo essencial: Jesus enfrentou a escuridão. E, como nós, precisava de luz, de carinho, de presença. Que este Natal nos inspire a levar a luz de Jesus a muitas pessoas.