Como se fazem os brinquedos? Duas histórias de magia fabricada em Portugal

24 dez 2021, 08:00

Em Alfena, a mais antiga fábrica de brinquedos do país, resiste-se para que o passado seja cada vez mais futuro. Já a partir de Loures, há uma fórmula científica que tem conquistado o mundo. Em comum, a capacidade para construir memórias felizes. A miúdos e graúdos

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 “Um brinquedo nunca sai igual ao outro. Pode fazer 20 carros, os 20 não são iguais, porque a mão não é certa”. As mãos de Júlio Penela sabem bem os contornos de cada brinquedo da Pe-pe Jato. Nasceu entre eles, como um irmão mais novo. O primeiro brinquedo, tal como o primeiro amor, não se esquece: um carro vermelho, que ainda guarda no escritório da fábrica em Alfena, Valongo. “O meu pai dizia-me: 'Atenção, não é para estragar!' Havia que os conservar para brincar com eles. Em minha casa passava-se isso. E nós tínhamos uma fábrica de brinquedos”.

Esta é a fábrica de brinquedos mais antiga do país. Há cem anos, o bisavô de Júlio Penela pôs o engenho a funcionar. Desse tempo, restam as memórias de um “mundo fantástico”. E uma fotografia a preto e branco do avô, ladeado pelos filhos. A cada geração, a marca foi ganhando mais escala. E, na década de 1980, rara seria a família em Portugal que não tinha (ou conhecia) um brinquedo da Pe-Pe Jato. Um pão de forma, um carocha, um fogão ou uma máquina de costura.

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“Agora é considerado um brinquedo artesanal. Não é consumido pela criança, é mais pelo adulto, pelo colecionismo e revivalismo. Ainda vão havendo algumas lojas, “vintage”, que vão vendendo”, conta o empresário. No pavilhão, onde o silêncio só é interrompido pelo movimento das máquinas, chegaram a trabalhar mais de 100 pessoas. Hoje são apenas quatro.

Pão de forma da Volkswagen é o modelo de maior sucesso na Pe-pe Jato

A missão inesperada

No período mais calmo, a Science4you emprega cerca de 150 trabalhadores. Para os picos de produção, como a preparação do natal, há sempre reforços. As linhas de produção não param. A sirene marca as trocas de turno. E as caixas sucedem-se, uma atrás da outra, quase sem pedir licença. O horizonte deste armazém em Loures são sorrisos de criança, à espera, empilhados em caixotes com largos metros de altura.

“Confesso que ter uma fábrica de brinquedos não passava pelas minhas prioridades”, conta Miguel Pina Martins, o fundador. A oportunidade surgiu no final do curso em Gestão, com o desafio de criar kits de Física para crianças. Daí aos brinquedos científicos foi “muito bater com a cabeça”.

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A tentação de produzir a Oriente – como acontece com as principais marcas de brinquedos – existiu. “Com as dificuldades todas da China, os preços dos contentores e dos transportes a subirem tanto, era impossível ter esta fábrica como um entreposto da China”, revela o empresário. Hoje, mais de 90% da produção é feita dentro de portas.

Produção na Science4you é automatizada

Passo a passo, com vagar

Há regras que o tempo interiorizou em Alfena: os olhos das bonecas são sempre verdes, as flores das máquinas de costura são pintadas com duas formas distintas, o teto da carrinha pão de forma é colado ao resto da estrutura. “É um trabalho muito minucioso. Para fazer um carro temos 14 ferramentas, 14 moldes, por exemplo”, conta Júlio Penela. Cada brinquedo tem o seu ritmo, os seus truques, as suas histórias.

Os moldes, que cortam a chapa ou se enchem de plástico, são os mesmos do tempo do avô deste empresário. Não criou nenhum brinquedo novo, por muito que conheça as manhas daqueles que produz. “Se eu lançasse agora um brinquedo novo já não ia ter aquele impacto, como este tem”, justifica. Mas a verdade é que um molde novo poderia custar o equivalente a um ano de trabalho. E as vendas já não dão as certezas de outrora.

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Pelo contrário, na Science4you, há novidades a cada ano. Com o carimbo da marca existem mais de duas mil referências. “Lançámos este ano, por exemplo, o primeiro brinquedo do mundo que permite às crianças serem ‘tiktokers’ ou ‘youtubers’, as profissões que mais querem ter”, revela Miguel Pina Martins. Para ter sucesso, é preciso estar onde os clientes querem estar. Neste caso, as crianças.

Moldes da fábrica em Alfena têm décadas

Brinquedos com preocupação ecológica

Se as crianças são o futuro, há que pensar em que mundo elas viverão. E daí uma preocupação que tem ganho escala em todo o setor dos brinquedos – e a que estas duas fábricas portuguesas não são alheias: a sustentabilidade.

Na Pe-pe Jato, poupar é palavra de ordem há largas décadas. Para aproveitar a tinta, as peças são pintadas em tabuleiros sobrepostos. Os pequenos pedaços de plástico, que restam da produção de uma peça, vão sendo reaproveitados para fazer novas. “Já a chapa e a folha de flandres vão-se arranjando nas conserveiras e nas estamparias que fazem latas para as conserveiras. São restos que vou buscar. Se não fosse assim, não se conseguia chegar lá, com o preço das matérias-primas”, explica Júlio Penela.

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Também a Science4you está a procurar “reduzir bastante o chamado plástico de uso único”. Neste ano, a empresa lançou uma linha ecológica, sem qualquer plástico. “Nos outros brinquedos, temos feito um caminho muito grande nesse sentido”, assegura Miguel Pina Martins.

Aparas de folha de flandres são aproveitadas ao máximo

Da “catástrofe” da pandemia à esperança do Natal

Trabalhadores alinhados. Cada um coloca as respetivas peças dentro da caixa. A um ritmo apressado, até porque o Natal está aí à porta. Esta época festiva chega a representar metade das vendas da empresa criada em 2008. E é agora um balão de oxigénio após uma pandemia que obrigou a ser (ainda mais) criativo. “Com a pandemia, as festas de aniversário diminuíram substancialmente. Houve uma parte do consumo de brinquedos que acabou por diminuir”, justifica Miguel Pina Martins.

“A pandemia foi uma catástrofe. Não se vendia nada, zero. E apoios nenhuns. É a tal resiliência que vamos tendo [que nos permitiu aguentar]”, descreve Júlio Penela. Na Pe-pe Jato, o Natal não tem o impacto direto que se esperaria numa fábrica de brinquedos. São as parcerias com lojas e empresas, para criar cabazes festivos, que acabam por desbravar caminho e negócio. Por aqui, só se produz por encomenda. Caso contrário, o risco seria sempre demasiado grande.

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Processo é automatizado na fábrica da Science4you

Gerações de património

As portas da Pe-pe Jato chegaram a fechar-se em 2011. A crise e a falta de clientes falaram mais alto. Mas Júlio Penela sempre acreditou que o trabalho das gerações anteriores não teria um ponto final. O filho foi então o argumento que faltava: “Ele disse-me para não abandonar o brinquedo, para conciliar com as peças técnicas [de plástico]”.

Os brinquedos pesam hoje 20% das vendas desta empresa histórica. São cerca de 100 mil euros gerados pelos três a cinco mil brinquedos que daqui saem todos os anos. Apesar dos curiosos em Espanha e França, Portugal e o chamado “mercado da saudade” são quem faz mover o negócio.

“[Produzimos] para não deixar acabar uma história fantástica e a nostalgia de quem ainda tem esta memória dos brinquedos antigos. Se Deus quiser e me der força, eu vou continuando. Espero que o meu filho um dia continue”, confessa Júlio Penela.

Em qualquer cenário, o património construído (e reunido) por esta família ao longo do último século vai fazer parte da Oficina do Brinquedo: um projeto de quatro milhões de euros, apoiado por fundos comunitários, que está a ser levado a cabo pela Junta de Freguesia de Alfena. A expectativa é que esteja pronta em 2022.

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Cada peça do brinquedo é unida manualmente na fábrica mais antiga de Portugal

As "eleições" dos brinquedos

Quando se passa do negócio tradicional para a empresa inspirada nos princípios mais atuais do empreendedorismo, o que mais impressiona é a escala. Com vendas anuais de 10 milhões de euros, a Science4you é um dos contributos decisivos para um mercado dos brinquedos que, juntando a produção e a venda, representa mais de 200 milhões de euros em Portugal, segundo dados da GfK.

Do armazém em Loures saem, todos os anos, dois a três milhões de brinquedos. A maioria com caixas escritas em outras línguas que não o português, uma vez que as exportações pesam 75% do total. Por aqui, por muito que os números sejam animadores, já se pensa na próxima época festiva.

“Costumamos dizer que é como as eleições. O Natal começa a ser preparado no dia a seguir às eleições, neste caso, no dia a seguir ao Natal. Mas falamos do Natal de 2023, porque para o de 2022 as novidades já estão pensadas”, conta Miguel Pina Martins.

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A magia e os sonhos dão muito trabalho. Mas eles, à sua maneira, arranjam sempre forma de se renovar.

Mercados externos já representam a maior fatia da Science4you

 

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