As festas de fim de ano não são totalmente alegres para todos
A mesa está posta, amigos e familiares aproximam-se, e você já sabe que comentários ou perguntas vão surgir.
Talvez as observações sejam sobre comida, peso, dinheiro, relacionamentos, carreira ou filhos - seja qual for o tema, a posição em que se encontra não é incomum.
Para muitas pessoas, as festas nem sempre são o momento mais alegre - muitas vezes porque antecipamos conflitos ou questionamentos inadequados, afirmou Roseann Capanna-Hodge, psicóloga em Connecticut.
Mas, em vez de se irritar silenciosamente ou reagir de forma explosiva, recomenda definir limites.
Estabelecer limites pode parecer o início de uma discussão, mas é apenas uma forma de comunicar quais são as suas necessidades e o que está disposto a aceitar, explicou Kami Orange, coach de limites, do sul de Utah.
No entanto, definir limites é difícil e requer alguma preparação para saber como responder em vez de reagir apenas para proteger os seus sentimentos, acrescentou Orange. Eis como começar nesta época festiva.
Planeie com antecedência os encontros
O primeiro passo é fazer um plano, explica terapeuta Jennifer Rollin, fundadora do The Eating Disorder Center, em Rockville, Maryland.
Antes do encontro, pense nas suas necessidades e no que um amigo ou familiar poderia dizer que o poderia desencadear.
“Decida com antecedência, estes são os comentários que me provocam, e estas são algumas coisas que eu responderia”, refere Rollin.
Também pode ser útil identificar os seus objetivos para a noite, afirma Capanna-Hodge. Talvez não consiga fazer com que todos se entendam, mas pode ter sucesso ao passar tempo com a tia que não vê frequentemente ou ao brincar com o seu sobrinho, acrescentou.
“Não vai resolver 30 anos de problemas familiares à mesa do Dia de Ação de Graças ou de Natal”, lembrou Capanna-Hodge.
Mas ainda pode reduzir conflitos criando, previamente, uma lista de tópicos seguros para redirecionar a conversa quando surgir um tema potencialmente problemático, referiu. Uma conversa pré-festas sobre o que vai ou não falar também pode ser útil.
Procure ser gentil, usando declarações em primeira pessoa, como: “Não consigo falar sobre este assunto quando nos juntamos porque fico desconfortável” - assim a sua resposta soa menos acusatória, acrescentou.
E não tenha medo de se divertir um pouco com isso. Pode, por exemplo, criar um frasco em que as pessoas têm de colocar dinheiro cada vez que surgem temas tabu, ou fazer um bingo com o seu parceiro ou irmãos que pode assinalar com uma risada quando alguém disser algo inadequado, sugeriu Capanna-Hodge.
Pode descarregar um quadro de bingo (em inglês) e preencher os espaços com os comentários que antecipa. Ou pode tirar um screenshot e marcar no telemóvel.
"Deves repetir?"
Quer sejam críticas ou bem-intencionadas, observações sobre peso ou sobre o que tem no prato podem ser provocadoras, referiu Rollin.
“É importante reformular isso para si próprio e reconhecer que os comentários sobre comida e peso dizem muito mais sobre quem comenta do que sobre si”, explicou. “Muitas vezes, quem se foca no seu próprio corpo e padrões alimentares é quem mais comenta sobre os outros.”
Pode ser direto dizendo algo como: “Percebo que está entusiasmado com a sua dieta, mas estou a trabalhar na minha relação com a comida, por isso prefiro que não falemos sobre isso”, afirmou Rollin.
Ou pode ser mais bem-humorado com perguntas sobre perda de peso: “Estou apenas grato por o meu corpo fazer tanto por mim todos os dias” ou “Não sei. Não me foco no meu peso.”
Se os comentários sobre o corpo continuarem ou não se sentir confortável a responder, sinta-se à vontade para se afastar da conversa, disse Rollin.
"Porque é que ainda estás solteiro?"
No caso de comentários sobre a sua vida amorosa - ou a falta dela - Orange diz que gosta de dar duas oportunidades à pessoa que está a perguntar. Na primeira vez, sugere redirecionar a conversa para algo de que a pessoa goste de falar.
Na segunda vez, pode usar uma resposta como: “Quando eu descobrir, aviso”, para indicar, de forma indireta e gentil, que não quer continuar a conversa, referiu Orange.
Se estiver a falar com alguém a sós (não tente fazer isto em frente a um grupo), pode tentar refrear futuras conversas sobre o assunto abordando-o diretamente, explicou.
Orange sugere que se estabeleça um limite com uma frase do tipo: “Sei que a tua intenção era (X) mas, infelizmente, o impacto de (Y) fez-me sentir muito desconfortável, por isso, no futuro, podes, por favor, não fazer isso.”
Para ganhar pontos extra, redirecione a pessoa para algo útil que possa fazer em alternativa, acrescentou Orange.
"Quando é que vais (casar/ter filhos)?"
Comentários sobre casamento ou aumentar a família podem aumentar a pressão, mas muitas vezes vêm de um lugar de amor e entusiasmo,.
Comece por redirecionar com um comentário simpático e mudar de assunto: “Adoro ver como gosta do amor e quer que todos sejam tão felizes em casal quanto você. Lembre-me, como conheceu o tio Gary?” explicou Orange.
Mas, por vezes, mesmo com boas intenções, o impacto toca num ponto sensível - por exemplo, se alguém pergunta a uma pessoa com problemas de fertilidade sobre ter filhos.
Se estiver a tentar engravidar, comece por falar com o parceiro sobre quão aberto quer ser e com quem, explicou Rachel Gurevich, enfermeira e autora sobre fertilidade.
Depois, pode interromper a conversa com uma afirmação direta como: “Na verdade, não quero falar sobre isso” ou usar humor, como: “Bem, tenho a certeza de que não quer saber de algo tão pessoal.”
Ou, se confiar nas pessoas que perguntam, pode abrir-se e pedir o apoio que precisa, acrescentou Gurevich.
"Dá para acreditar nestas eleições?"
Algumas pessoas conseguem falar diplomaticamente sobre política, religião e outros temas sensíveis - outras não. Mas como cortar uma conversa que está a ir longe demais?
Por vezes, as pessoas procuram uma discussão, mas isso não significa que tenha de entrar nela, explicou Orange. Quando possível, ignore os comentários ou redirecione a conversa, sugeriu Capanna-Hodge.
Se precisar de abordar uma opinião mais radical, pode fazê-lo diretamente com algo como: “Não estamos em sintonia e tenho a certeza de que nenhum de nós vai mudar de ideias esta noite, por isso, porque não falamos de outra coisa?” Ou então, seja breve: “Eu vejo isso de forma diferente”.
Quando for hora de ir embora
E se já tentou todas estas estratégias e ainda assim não está a divertir-se?
“Às vezes, afastar-se fisicamente da situação é o melhor limite”, referiu Orange.
Não precisa de haver uma discussão - pode até decidir antecipadamente criar uma desculpa que lhe permita sair assim que a situação deixar de ser divertida, acrescentou.
“As festas são sobre conexão, e se essa conexão se tornar desagradável, não precisa acontecer”, disse Capanna-Hodge.
Nota: este texto foi publicado originalmente em dezembro de 2023 e foi entretanto atualizado
