Vai passar o Natal com a sogra que está sempre a criticar, o tio que só goza e o cunhado mal-humorado? Dicas para evitar conflitos (e a reação que deve ter sempre pronta)

23 dez 2022, 07:00
Jantar de Natal (Pexels)

As reuniões familiares nem sempre são fáceis, sobretudo quando há quezílias antigas ou membros da família que não fazem o mínimo esforço para causar bom ambiente (e estão sempre com uma crítica na ponta da língua). A solução está em antecipar e agir - sem sarcasmo. Duas psicólogas dizem como passar o Natal sem conflitos

O Natal é para muitos o momento mais aguardado do ano: família reunida, mesa cheia, bom vinho e muita conversa. Já para outros, a quadra natalícia acaba por ser dos maiores momentos de stress e ansiedade, sobretudo quando à mesa vão estar familiares com quem não se tem uma boa relação ou que simplesmente gostam de ser o centro das atenções, mas em mau, com comentários, críticas, mau humor e indiretas a toda a hora.

Antecipar é o primeiro passo para evitar conflitos. Segundo a psicóloga Ana Carina Valente, trazer o assunto à baila antes da quadra pode ser uma mais-valia, sobretudo se ajudar a pessoa a perceber o quão confortável ou desconfortável vai estar com determinado elemento da família ou se for usado como forma de estabelecer limites e revelar esse mesmo desconforto. 

Podemos trazer o assunto à discussão antes da Consoada, mas no sentido de pensarmos antecipadamente. Muitas vezes temos de nos antecipar para nos preparamos para a situação que nos pode ser desconfortável”, explica.

Chamar a pessoa em questão para uma conversa e deixar claro que determinados comentários, piadas ou tentativas constantes de trazer temas fraturantes para mesa não são bem-vindas é uma forma aberta de tentar evitar o conflito, mas a psicóloga Débora Bento Correia diz que este trabalho pode ser também internamente, sem expor à outra pessoa o seu desagrado. 

“É muito importante as pessoas monitorizarem o que faz mais sentido e perceberem como querem viver esta quadra, perceber o grau de importância de determinados assuntos e o impacto de os manter guardados ou de os trazer à tona. Às vezes, sentimos que é um assunto que nos magoa, mas abordá-lo tão próximo da data pode abalar ainda mais o nosso estado de espírito e a dinâmica que se vai viver no dia”, reforça a psicóloga da Academia Transformar, em Lisboa.

Responder com perguntas, mas sem sarcasmo

Na impossibilidade de evitar que determinado familiar vá ao jantar e almoço de Natal ou que adote um comportamento menos tóxico, há estratégias a ter em conta para evitar o desconforto e evitar discussões ou ambientes menos calorosos. As duas psicólogas concordam na importância de a pessoa ter consciência de que aquele familiar não faz a festa, por muitas que sejam as críticas ou indiretas à comida, à sua forma física, à casa, a tudo, na verdade. 

“Temos de perceber que não estamos isolados com essa pessoa, que temos alternativas, e as alternativas podem ser tão simples como estar um pouco mais afastado dessa pessoa ou quando ela tece um comentário mais desagradável responder com uma pergunta ou ainda dizer de forma educada que isso magoa. Ou, se sentirmos que é mais proveitoso, ignorar, mas sempre medindo o impacto”, esclarece Débora Bento Correia.

A reação de responder a críticas e comentários com perguntas é também mencionada por Ana Carina Valente, que diz que é a estratégia mais eficaz para “desconstruir a outra pessoa” e a reação que se deve ter sempre pronta. E seguem exemplos: “O peru podia estar melhor se o tivesses tirado mais cedo do forno”, diz o familiar que está sempre a criticar. Como reagir a isto? Questionado: “Então quanto tempo aconselhas a que fique no forno?”. “Estás mais gordinho”, comenta o familiar. A questão: “No que tu reparas. E tu, como estás, o que tens feito?”.

Ana Carina Valente considera ainda que “fazer perguntas” é uma forma de dar a volta à situação e de muitas vezes ditar o fim àquele tema, embora defenda que a questão deve ser feita “sem ser sarcástico”, mas sim num tom confiante e “assertivo”. E quando a outra pessoa critica ou fala “logo de uma forma agressiva”, quem ouve deve “procurar distanciamento emocional”, podendo até o silêncio ser uma opção, como explicam especialistas ao The Guardian.

“O silêncio em resposta a uma visão diferente pode parecer cúmplice, mas torna as coisas mais fáceis. Porque a) o Natal não é, de facto, o momento para essas discussões; b) a pessoa não vai mudar de ideias ao longo do dia; e c) um parente que não entende isso e defende uma agenda política/ideológica está apenas a pedir atenção”, lê-se na publicação.

Mas “quando o conflito é emergente, temos de ter alguma agilidade emocional, podemos encarar o problema”, continua, embora defenda que é importante a família (e sobretudo as pessoas que não se dão bem) terem consciência que não é no Natal que se vai mudar quem quer que seja, chegar a um consenso ou resolver qualquer tipo de assunto. 

“Não mudamos ninguém na noite de Natal”, frisa.

Como não ficar abalado com os comentários dos outros

Quando uma conversa prévia não resulta ou a estratégia de responder a críticas com questões não é suficiente, as duas psicólogas deixam claro que é preciso algum jogo de cintura e, sobretudo, perceber que tais críticas dizem mais sobre a pessoa que critica do que quem é criticado.

Muitas vezes, o comentário tem mais a ver com a pessoa e não connosco, são pessoas mais críticas e negativas, só conseguem ver o lado menos bom. As pessoas, às vezes, podem eventualmente sentir-se mais reforçadas porque ao tecer um comentário negativo têm mais atenção da outra pessoa, isso pode ser um reforço para estas pessoas”, afirma Débora Bento Correia.

Neste tipo de casos, o conselho de Ana Carina Valente é “não tomar em mim o problema do outro, o conflito que o outro está a gerar”. Mas mais: a psicóloga diz que a pessoa afetada deve “explicar que não é o momento [para determinada conversa], que podem concordar em discordar, respeitar a individualidade de cada um”. E quando nem isso resulta, há que seguir caminho, que pode simplesmente ir para outra parte da sala ou dar início a uma atividade, “procurar outra coisa para fazer, mostrar uma lista de música para a ceia de Natal ou começar um jogo com as crianças”, exemplifica, frisando que este ‘escape’ pode também ser preparado por antecipação. 

“A pessoa pode preparar antecipadamente os momentos de diversão, a música, o jogo, uma partilha positiva. Assim, acaba por tirar o foco do conflito para uma dinâmica familiar mais positiva”, aconselha.

Ana Carina Valente dá uma dica final para evitar conflitos na Consoada: “ter muita atenção ao consumo de álcool, pois não ajuda a fazer uma boa relação emocional”.

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