Depois de receber um presente que não combina consigo, sentir-se desapontado – e logo a seguir culpado – é uma reação natural. Ter uma conversa sobre essa situação pode ajudar, dizem os especialistas
Quando Abby Eckel viu um pequeno saco de presente, com a marca de uma joalharia, pensou que sabia exatamente o que havia lá dentro: um anel com uma pedra preciosa de margonita, que ela tinha pedido. Contudo, quando abriu o saco e se deparou com um colar, não conseguiu esconder a sua deceção.
“Foi uma espécie de turbulência interna. Falava comigo própria e pensava: devia dizer alguma coisa? Ou devia simplesmente ficar feliz com o que recebi”, recorda Abby Eckel.
Eckel sabia que não ia usar o colar, uma vez que tem critérios muito apertados sobre as joias que coloca. Contudo, como o marido lhe tinha dado algo que ela não tinha gostado, sentia-se culpada por ter ficado desapontada.
Para muitas pessoas, essa deceção – seguida de culpa – é natural depois de recebermos um presente que pura e simplesmente não combina connosco. Pode ser aquela camisola que os nossos pais nos dão todos os anos e que não é do nosso tamanho, uma t-shirt com o logotipo de uma banda que costumávamos adorar quando éramos adolescentes (mas que, entretanto, enjoámos), ou uma joia de prata quando só costumamos usar ouro.
Esse presente acaba por ficar guardado, ocupando espaço e acumulando pó, porque não temos coragem de nos livrarmos dele. E podemos acabar a sentir que as pessoas de quem mais gostamos, afinal, não prestam atenção à nossa lista de desejos.
O que fazer se receber um presente e não gostar dele
Quando Abby Eckel recebeu um colar como presente do marido, sentiu-se acima de tudo confusa. Porque é que ele lhe tinha dado aquele colar em vez do anel que ela queria? Ela já não se lembra por que motivo ele não lhe ofereceu o anel, mas lembra-se bem da conversa que decidiu ter com ele à custa do colar.
“Disse-lhe ‘Não quero parecer mimada ou ingrata. Mas também queria perceber o que esteve por detrás da tua escolha’. Conversámos sobre isso e senti-me melhor”, refere Abby Eckel. “Ele também se sentiu melhor por lhe ter contado. E disse-me ‘Não quero que fiques chateada com isso, mas não consigo explicar por que motivo escolhi o colar’”.
Foi então que Eckel se passou a sentir à vontade para devolver o colar e usar o dinheiro noutra coisa qualquer, explica.
Ter uma conversa como esta pode ser útil para aliviar os sentimentos de deceção e culpa, atesta Mielad Owraghi, terapeuta de relações e de casais no Loma Linda University Behavioral Medicine Center, dedicado à área da medicina comportamental, situado em Redlands, Califórnia.
“É importante apreciar e agradecer o presente em si”, diz Owraghi. “Ainda assim, se alguém sentir que não está a receber os presentes que deseja, então talvez precise de melhorar a comunicação com essa pessoa que lhe dá o presente, para que ela perceba melhor o que comprar”.
Fazer perguntas para perceber porque é que quem deu o presente escolheu aquele presente específico pode ajudar o pensamento por detrás da escolha, diz Suzanne Degges-White, professora e presidente do departamento de aconselhamento e ensino superior da Northern Illinois University em DeKalb, Illinois.
“Os presentes mostram-nos a forma como pensamos que as outras pessoas nos veem, como pensamos que as outras pessoas percecionam o nosso relacionamento”, diz. “Muitas vezes com parceiros românticos, especialmente nas fases iniciais da relação, queremos que o presente simbolize o quanto alguém se preocupa connosco”.
É importante termos conversas honestas com aqueles com que temos relacionamentos de longo prazo, para deixar claro que tipo de presentes gostamos ou não. E, sobretudo, para que o padrão não se repita na próxima época festiva, aponta Degges-White. Ainda assim, se a pessoa que dá o presente não é um parceiro romântico, bem como um amigo ou familiar próximo, talvez a melhor opção seja manter-se em silêncio e focar-se nas boas intenções de quem deu o presente, acrescenta a especialista.
“Se alguém escolhe para nós, com boa intenção, algo que simplesmente achamos horroroso, sentimo-nos mal, porque não queremos ferir os sentimentos dessa outra pessoa, sobretudo se gostarmos dela”, insiste. Às vezes, é mesmo preciso vestir aquela camisola que odiámos só para agradar a quem a ofereceu: “é como se também nós estivéssemos a dar-lhe um presente, ao encontrar prazer no presente que ela nos deu”.
É a intenção que conta
Em 2020, o programa “Saturday Night Live” da NBC apresentou uma rábula sobre a quantidade de mães que recebiam roupões como presente de Natal. Alguns dias depois, nesse Natal, como resposta a esse momento humorístico, houve mães em várias partes do mundo a publicar as suas fotografias com os novos roupões.
No que respeita à arte de dar presentes, as pessoas costumam dizer que é a intenção que conta. Mas uma intenção mais trabalhada pode ajudar e muito. “Normalmente, o melhor presente acontece quando alguém sabe aquilo de que gostamos e nos dá esse presente a achar que vamos gostar dele porque reparou nos sinais”, diz Degges-White.
“E quando as pessoas falham nessa combinação, dando-nos algo que não combina nada connosco, sentimos que não fomos vistos ou valorizados da forma como gostaríamos de o ser”.
Comunicar as nossas necessidades e desejos aos nossos entes queridos é importante para manter relacionamentos fortes, argumenta Owraghi. Por sua vez, também é boa ideia ouvir e anotar as dicas que os nossos entes queridos possam ir dando sobre possíveis presentes ao longo do ano. Isso pode ajudar-nos a sentirmo-nos mais preparados para quando chegar a época das compras de Natal, justifica.
Abby Eckel, que é criadora de conteúdos e dá conselhos aos seus seguires sobre relações, parentalidade e saúde mental, publicou um vídeo no TikTok no ano passado acerca da sua experiência com o presente que o marido lhe deu. No vídeo, explicava que, se a situação tivesse sido ao contrário, gostaria que o marido lhe tivesse contado que tinha recebido um presente de que não tinha gostado.
“Somos todos humanos, temos todos emoções. E há cenários que evocam determinadas emoções, que são normais”, diz. “Posso escolher falar com o meu companheiro sobre isso. Ou posso dizer ‘Sinto-me desapontada, sinto-me triste, e depois sigo em frente”.