Quando falamos em narcolanchas, falamos de grupos altamente complexos e organizados, com estruturas logísticas multidisciplinares, cuja investigação é exigente e tem de ser centralizada. Os projetos de combate as lanchas de narcotráfico carecem, antes de mais, de compreender que tipo de tecnologia pode, e deve, ser utilizada. O combate às narcolanchas não se faz com soluções improvisadas, experimentais ou meramente mediáticas. Não se faz com “brinquedos” e inventores. Faz-se com meios sérios, tecnologia de vigilância adequada, enquadramento legal sólido e, sobretudo, com profissionais devidamente preparados.
Nos últimos anos, o combate ao narcotráfico marítimo transformou-se quase numa “moda” e numa luta de poder para organizações públicas e privadas. Surgem projetos-piloto, demonstrações tecnológicas e anúncios de soluções supostamente revolucionárias com recurso a financiamento europeu, criando na opinião pública a perceção de que já existem ferramentas capazes de neutralizar redes de narcotráfico e capturar lanchas de alta velocidade com relativa facilidade. Fala-se de drones, de inteligência artificial e de bodycams integradas em sistemas aéreos ou marítimos, como se a simples adoção destas tecnologias fosse, por si só, uma resposta eficaz a um fenómeno altamente organizado, violento e tecnicamente sofisticado.
Contudo, quando analisamos os factos de forma fria e técnica, a realidade é bem diferente. Até à data, nenhuma narcolancha foi capturada com recurso a drones ou a sistemas de inteligência artificial. Pelo contrário, o número de narcolanchas avistadas aumentou substancialmente no último ano. Um sinal claro dessa realidade é o facto de o rio Tejo se ter tornado, na prática, uma verdadeira autoestrada logística para estas embarcações, como ficou amplamente documentado na reportagem da CNN Portugal, emitida a 11 de julho do ano passado, sobre a operação da GNR na zona de Santarém. Este dado, por si só, desmonta a narrativa de que as soluções tecnológicas atualmente promovidas estão a produzir resultados concretos no terreno.
O combate às narcolanchas não se faz com gadgets, experiências de laboratório ou tecnologias apresentadas como milagrosas. Faz-se com o reforço de legislação adequada às investigações da Polícia Judiciária, em especial o Decreto-Lei n.º 81/95, que determina a competência da prevenção e investigação nas matérias relacionadas com o tráfico de estupefacientes, mas cujo reforço tem de ser regulado de forma mais efetiva. Faz-se também com forças policiais devidamente equipadas para o assalto, coordenadas e experientes, com a aquisição de meios navais policiais adequados e que são inexistentes, com informação articulada entre a PJ, a UCCF/GNR, a Polícia Marítima e o MAOC, com capacidade real de interceção marítima e com agentes equipados com EPIRBs (Equipamentos de Salvamento Individual), preparados para operar em ambientes de elevado risco.
Chegou o momento de abandonar a ilusão dos “brinquedos tecnológicos” e enfrentar o problema com seriedade. O narcotráfico marítimo é um fenómeno complexo, adaptável e altamente profissional. Combatê-lo exige respostas à mesma altura, operacionais, legais e humanas, e não soluções cosméticas pensadas para apresentações ou manchetes promocionais.
Está na hora de se acabar com a duplicação de funções e, pensar com seriedade em uma Guarda Costeira Portuguesa.