O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
O narcisismo é um conceito que atravessa séculos, oriundo da mitologia grega: Narciso, um jovem de extrema beleza que se apaixona pela sua imagem espelhada na água de uma fonte. Incapaz de se afastar da sua própria imagem, acabou por definhar até à morte.
Os primeiros espelhos conhecidos foram feitos por volta de 6000 a.C., no que é hoje a Anatólia (Turquia). Eram espelhos metálicos que reflectiam mal e exigiam polimento constante. Exemplares análogos foram também encontrados no Egipto antigo, na Mesopotâmia, na Grécia e na China antiga.
A grande revolução do espelho de vidro surge na Roma Antiga (século I d.c.) ainda com pouca qualidade de reflexo. No séc. XVI, os artesãos de Murano, ilha próxima de Veneza, aperfeiçoaram a técnica e criaram espelhos de vidro com camadas de mercúrio e estanho, altamente reflexivos, liderando a produção mundial de espelhos de luxo.
Com a invenção do daguerreótipo, o primeiro processo fotográfico comercialmente viável (Louis Daguerre,1839), o “espelho” ganhou permanência e entrámos na era moderna do som e da imagem em todas as suas derivações. Pela 1ª vez na história da Humanidade, qualquer pessoa pôde tornar-se editora de si-própria, criar a sua persona e registá-la para a posteridade!
Hoje, em plena era digital, esse “espelho” foi substituído pelos ecrãs dos smartphones, pelas redes sociais que oferecem um palco permanente para a exibição do self/eu. Mas até que ponto essa exposição contínua ultrapassa os limites do narcisismo saudável?
O narcisismo exprime-se num espectro entre o saudável e o patológico. São atributos do primeiro, uma autoestima estável, confiança, ambição equilibrada. Na sua versão patológica, pontilham a grandiosidade, a fragilidade interna, a falta de empatia, a convicção de se ser especial, a ausência de autocrítica, a que poderão associar-se atributos antissociais.
Na actualidade, as redes sociais tornaram-se um “espelho” fértil para a manifestação — e, frequentemente, a amplificação dos atributos (e traços) narcisistas. A lógica de funcionamento destas plataformas estimula a promoção permanente do self: construir uma imagem idealizada, buscar aprovação externa sob a forma de likes e seguidores, e competir por visibilidade. Trata-se de um ambiente que recompensa a exposição, a comparação social e a validação superficial, elementos que alimentam o narcisismo para além da sua dimensão saudável.
A obsessão com a autoimagem e a dependência da aprovação digital podem gerar efeitos adversos. Utilizadores com exposição prolongada às redes sociais apresentam níveis mais elevados de narcisismo grandioso e vulnerável, além de maiores taxas de ansiedade, insegurança, sintomatologia depressiva e sentimento de vazio. A comparação constante com vidas idealizadas e a busca incessante por atenção e aplauso corroem a autoestima real e substituem relações significativas “de carne osso” por interacções superficiais e desmaterializadas.
Por outro lado, nem todo o uso das redes sociais conduz ao narcisismo patológico. Quando utilizadas de forma criativa e ponderada, as redes podem fortalecer conexões e ampliar conhecimentos. O veneno está sempre na dose! A chave está no equilíbrio da sua utilização, devendo-se privilegiar as relações sociais presenciais. Olhar o outro nos olhos, sentir a sua presença e características vocais, expor-se ao debate e ao contraditório, aprender a escutar para compreender (em vez de ouvir para retorquir), aprender a ceder para construir acordos e consensos são atributos basilares de uma cidadania efectiva e responsável! E criam condições favoráveis à manutenção sob controlo da húbris, essa ilusão de grandeza e de superioridade sob todos os outros que muitas vezes leva à ruína própria e alheia!
Sugestões:
Para os pais e educadores: mantenham os vossos filhos e jovens a cargo, longe de écrans e da internet pelo máximo tempo possível. A infância e a adolescência são períodos de eleição para a descoberta do mundo físico e social, para aprender a interagir com pessoas reais, com a natureza, lidar com os riscos de correr, subir às árvores, esfolar joelhos e prosseguir viagem. A exposição online precoce e excessiva cria indivíduos desconectados de si-próprios, com atrofias no desenvolvimento psicomotor e carências nas competências sociais.
Para os utilizadores da internet e das redes sociais: As tecnologias de informação e comunicação são ferramentas poderosas imersivas e com potencial viciante. São suportadas por algoritmos que evitam a exposição do utilizador ao contraditório, dando-lhe “mais do mesmo” quanto às suas preferências! Recomenda-se assim, uma utilização moderada e que não retire primazia às actividades no mundo físico, de pessoas reais. O veneno está sempre na dose!
Para os utilizadores excessivos das redes sociais e dos jogos online: Se a utilização destas plataformas tiver adquirido a primazia no v/ dia-a-dia, ao ponto de estarem a descurar as v/ relações sociais em modo presencial, a v/ alimentação, sono, higiene pessoal e rotinas profissionais, solicitem ajuda psicológica e médica. É provável que tenham desenvolvido uma dependência que carece de tratamento.