Problemas de sono aumentaram 50% com pandemia. Histórias de exaustão de quem não consegue dormir

16 dez 2021, 07:00
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Quando a cama não é sinónimo de descanso: um em cada quatro portugueses sofre de problemas de sono

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Cansados, exaustos, com sono. É assim que muitas pessoas se estão a sentir, o que faz com que nos empregos só pensem no momento de regressar a casa e descansar.  Segundo dados avançados à CNN Portugal pela presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, Isabel Luzeiro, a pandemia levou a que um em cada quatro portugueses sofram hoje de problemas de sono, um cenário que resultou do impacto da covid-19, uma vez que antes dos confinamentos o número de pessoas com dificuldade em dormir era de um em cada seis, acrescenta Isabel Luzeiro, especialista do sono. Ou seja, com o Sars Cov-2, os problemas de sono aumentaram 50%,

Os dados constam de estudo novo, publicado em março deste ano, sobre o sono dos portugueses e a qualidade do tempo quando estão acordados durante a pandemia. No trabalho, em que participaram vários especialistas nacionais, e a que a CNN teve acesso, concluiu-se que os problemas são mais frequentes em mulheres e em pessoas com maior nível sociocultural. Os médicos e enfermeiros estão entre os mais atingidos.

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“As pessoas estão às horas habituais na cama mas custa-lhes muito a adormecer. Têm o sono fragmentado durante a noite e acordam muito cedo”, explica a neurologista, garantindo ainda que é entre os jovens que o problema se agravou. Segundo a médica, esta faixa etária sentiu mais obstáculos uma vez que as pessoas com idade superior a 65 anos já “faziam pouco exercício” e por não se encontrarem em plena atividade laboral, já estavam habituados a ficar em casa.

Por isso, a médica diz não ter dúvidas de que “o fator mais preditivo de dificuldades no sono” foi o confinamento, como é avançado no estudo “Sleep and Awakening Quality during COVID-19 Confinement: Complexity and Relevane for Health and Behavior”, publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health. No trabalho, foram analisados em Portugal continental e ilhas um total de 5479 doentes.

 “Não conseguir dormir à noite é um fenómeno anterior à pandemia, que os confinamentos vieram agravar”, sublinha Isabel Luzeiro explicando que estas perturbações do sono se devem a vários fatores, sejam eles hormonais, culturais ou de comorbilidade, nomeadamente distress.

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Neste último caso, o paciente não tem sono porque os neuromoduladores cerebrais estão alterados, não havendo suficiente melatonina e adenosina, os mágicos do sono, o que vai impedir que durma ou tenha muitos despertares, esclarece.

“As pessoas deitam-se a pensar em tudo o que aconteceu durante o dia e não conseguem dormir. O sistema imunitário fica deficiente e quem dorme mal não consegue recuperar completamente as memórias: recupera as memórias emocionais, mas não recupera as de sono lento, que têm a ver com outro tipo de aprendizagem. Estes fatores desenvolvem ainda mais stress, o que dificulta o sono.”, esclarece a especialista, explicando, no entanto, que atualmente as pessoas estão muito mais alerta para este tipo de problema: “Nota-se muito mais a procura de ajuda, nomeadamente por insónia”.

Segundo a neurologista é importante frisar que a privação do sono provoca alterações no cérebro e comportamentos “Provoca depressão e a depressão provoca privação de sono”, mas não se sabe qual surge primeiro, uma vez que frequentemente estão intimamente ligadas, acrescenta.

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E apesar de hoje em dia existir muita medicação disponível, a neurologista considera que a medicação não é a solução ideal para combater qualquer um destes problemas, podendo, contudo, fazer parte do processo de tratamento Entre não dormir nada ou dormir com medicação, mais vale a segunda. A privação do sono mata”, diz, explicando que é importante acompanhar o paciente no processo de descontinuação porque esse tipo de fármaco causa habituação e tem efeitos secundários.

 “Acordo muitas vezes durante a noite aos gritos ou vestido a pensar que tenho de ir trabalhar”

Luís Martins de Mello tem 28 anos e é chefe de cabine. Desde que terminou a universidade e começou a trabalhar que não dorme bem. Acredita que o facto de ganhar independência financeira e maior responsabilidade o conduziram a esta situação. “Sinto-me ansioso, tenho muito sono durante o dia, mas à noite não consigo dormir bem. Vejo muitas vezes o relógio, e fico muito ansioso: faço contas às horas que ainda posso dormir e acabo por ainda ficar pior”, conta.

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A falta de sono acaba por o deixar exausto: “O meu cansaço acontece porque durmo mal, porque acordo muitas vezes durante a noite. Aos gritos ou vestido a pensar que tenho de ir trabalhar”.

O comissário de bordo trabalha por turnos, o que não é visto com bons olhos pelos especialistas do sono. Aliás, nos dias em que tem de acordar de madrugada, admite que chega a dormir apenas três horas. Preocupado, Luís começou a ser acompanhado por um neurologista que o medicou, há cerca de ano e meio.“Tomo um comprimido que me deixa mais relaxado, para dormir”, explica.

 “Tenho medo de me tornar dependente” de medicamentos

Sheila Salgado tem 28 anos e é gestora de redes sociais. No seu caso acredita que os problemas Veem desde a adolescência que se agravam “em situações de grande stress”.

“Sinto-me exausta, deito-me e começo a pensar em tudo ao mesmo tempo. Não consigo adormecer”, começa por explicar. A nível pessoal, Sheila adianta que com o cansaço se torna mais irritável, mas ainda assim tem conseguido lidar por ser “muito contida”. Já no emprego, a gestoar de redes sociais afirma que se sente extremamente cansada e afetada quando não dorme na noite anterior.

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“Não consigo raciocinar da mesma maneira. Uma tarefa muito simples, sinto que demoro o triplo do tempo a fazê-la. Já cheguei mesmo a errar, a enganar-me”, diz. Apesar de não se sentir bem, a jovem nunca procurou um médico por dormir mal.

“Estive numa psicóloga, mas foi por questões relacionadas com ansiedade. Nem sempre sofri ansiedade, mas desenvolvi nos últimos anos. Estou a viver sozinha. Emigrei. Tenho de gerir o meu trabalho, o meu dinheiro, os meus horários. Sinto que tenho dez pensamentos em simultâneo”, conta, avançando que em momentos de maior desespero chega mesmo a dormir só uma hora por noite.

Apesar disso, só recorreu ao que chama um “calmante muito fraquinho” para a ajudar a relaxar. “Comprimidos para dormir nunca tomei especialmente porque tenho medo. Naquela noite posso tomar, durmo maravilhosamente, na noite seguinte vou querer tomar porque quero dormir bem e tenho medo. É uma coisa que não me quero mesmo habituar. Se fosse acompanhada por um médico, talvez pensasse de outra forma, mas automedicar-me nunca”, rematou.

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Para ela a estratégia que tem usado, e “ainda vai resultando” é ver um filme que gosta, até adormecer.

“Cheguei a tomar Valium em SOS, quando estava mesmo exausto

Pedro tem 32 anos, é engenheiro informático e durante oito meses viveu momentos de exaustão, devido à falta de descanso. 

“Dava por mim a fechar os olhos, a dormir uma hora e a acordar. Depois tentava um pouco de tudo: levantava-me, ia ler um bocado, cheguei a tomar Valium em SOS, quando estava mesmo exausto”, lembra, explicando que que o cansaço afetou a sua vida pessoal. Ficou, diz, com menos elasticidade mental, menos paciência, e todos os mais próximos reparavam. No trabalho “internamente, foi uma tortura”, garante, apesar de não ter chegado a prejudicar nenhum projeto.

Para o engenheiro, as crises de insónias terão começado num período de trabalho mais intenso. “Tive várias exigências que geraram um desgaste contínuo. Houve uma transição a nível profissional e também amorosa”, conta, lembrando que experimentou vários métodos para dormir

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Mas todos iam falhando, o cansaço ia acumulando e então decidiu procurar ajuda médica.

“Como não sabia o que se passava, fui a uma consulta de psiquiatria, neurologia e acabei numa clínica do sono. Dormi lá, fizeram-me uma análise para saber a minha atividade cerebral e verificou-se que era um sintoma de depressão. A incapacidade de dormir era o único sintoma que eu tinha, de resto estava bem-disposto dentro do possível para uma pessoa que dorme mal”, detalha.

Pedro começou então a ser medicado com um suplemento que o ajudou a dormir durante cerca de ano e meio e continuou a ser acompanhado no processo de desmame. Porém, tanto o jovem como os clínicos contaram à CNN Portugal que a medicação nunca será uma solução a longo prazo.

“Permitiu-me voltar a um estado normal de sono, mas também tive de ter muitos cuidados com os hábitos. Não toquei mais em café depois das 13:00, procuro caminhar pelo menos sete quilómetros por dia. A luminosidade no quarto é importante, o telemóvel é de evitar na mesinha de cabeceira. Devemos ser paranóicos com o sono”, aconselha, agora que vê a higiene do sono como uma prioridade para o seu bem-estar.

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