Nadia Comaneci, de humana a heroína. O primeiro 10 perfeito da ginástica olímpica foi há 46 anos

CNN , Artigo originalmente publicado em 2012
18 jul, 10:00

A 18 de julho de 1976, nos Jogos Olímpicos de Montreal, a ginasta romena conquistou um lugar na história do desporto

Nadia Comaneci será para sempre recordada como a primeira ginasta a alcançar a pontuação perfeita de 10 em competições olímpicas, tendo conquistado três medalhas de ouro nos Jogos de Montreal de 1976.

Comaneci, que tinha apenas 14 anos, entrou nos Jogos Olímpicos com "expectativas muito, muito baixas" -- mas no espaço de poucos dias tornou-se uma das atletas mais reconhecidas do planeta.

A competir pela Roménia, foi premiada com sete notas 10 no decurso da competição, ao conquistar medalha de ouro nas paralelas assimétricas, trave e geral, apoiada por uma medalha de prata na prova de equipas e bronze no solo.

"É difícil acreditar que já passaram tantos anos desde que o fiz, não parece muito tempo, mas é. Lembro-me de tudo, de todas as séries das provas", disse, numa entrevista para a série De Humano a Herói da CNN, em 2012.

Treinada pela famosa dupla Bela e Marta Karolyi, que treinou muitos campeões de ginástica, Comaneci conquistou mais duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo e conquistou medalhas de ouro em dois campeonatos mundiais e nove a nível europeu.

Retirou-se da competição em 1981 e tentou ser treinadora, mas em 1989, pouco antes da revolução que derrubou o Presidente romeno Nicolae Ceaucescu, Comaneci desertou para os Estados Unidos.

Em 1994 ficou noiva do ginasta americano Bart Conner, que a viu pela primeira vez em 1976. Casaram-se em 1996, em Bucareste, quando regressou ao seu país natal pela primeira vez desde que desertou.

Comaneci tornou-se cidadã americana em 2001 e, em 2012, ainda estava envolvida na ginástica através de uma academia que dirige com Conner, enquanto detém uma série de cargos honorários com as federações romena e internacionais.

Primeiros anos

Descoberta pelas Karolyis aos seis anos de idade, Comaneci começou a treinar no ginásio delas na sua cidade natal, Onesti.

"Não sabia que queria ser ginasta, tinha acabado de ser apresentada ao ginásio", disse. "Adorei o sítio porque parecia um parque de diversões de alta tecnologia com tapetes e muitas coisas nas quais me podia pendurar.

"Mas eu gosto da competição. E provavelmente se eu não praticasse ginástica teria praticado um desporto diferente esperando ter sido suficientemente boa."

Essa vantagem competitiva ajudou-a a entrar no panorama internacional com quatro medalhas de ouro nos Campeonatos Europeus na Noruega em 1975, e no ano seguinte chegou a imortalidade olímpica.

Inspirações

Numa era dourada para a ginástica feminina, os Jogos Olímpicos de Munique de 1972 contaram com dois concorrentes que foram uma grande influência para Comaneci quando os viu em casa, na Roménia.

Admirava a graciosa Ludmilla Tourischeva, que ganhou medalha de ouro na geral, mas foi outra participante da União Soviética, a diminuta Olga Korbut, que captou a imaginação dela e a do público internacional, ao ganhar três medalhas de ouro.

"Olga Korbut era a famosa ginasta da época, mas eu estava a observá-la na ginástica e disse a mim própria: 'Espero um dia ser como ela'", disse Comaneci.

Quatro anos depois competiram entre si em Montreal, com Korbut a ganhar a medalha de ouro como parte de uma equipa russa que relegou a Roménia para a prata.

Perfeição

Apesar Comaneci ter perdido a medalha de ouro da equipa, foram as suas atuações nas disciplinas individuais e gerais que catapultaram a adolescente para a fama.

Competindo na final de paralelas assimétricas, Comaneci alcançou pela primeira vez a perfeição, a nota 10 dos juízes.

Mas houve um elemento curioso enquanto aguardava a sua pontuação. "Em primeiro lugar, não era 10, era um ponto zero porque os computadores não aguentavam!", recordou.

"Não estavam preparados para o 10, por isso não programaram um espaço a mais depois da decimal para poderem acomodar o 10. Disseram que era um ponto zero ou cem, o que não significava nada na ginástica, ou um é… um é um resultado muito mau.”

Depois da falha técnica ter sido resolvida, Comaneci pôde celebrar com os seus colegas de equipa, mas em contraste com a emocionada Korbut, raramente revelava emoção durante a competição e foi alvo de algumas críticas pelo seu comportamento.

"Sempre disse que era o tipo de pessoa que não sorria a toda a hora, mas eu sorria no fim da prova", disse Comaneci.

"Acho que quando estamos numa trave de 10 centímetros, não pensamos rir, sorrir ou acenar para a multidão porque caímos logo a seguir."

Olhando para trás para o seu feito, o equivalente à ginástica aos primeiros quatro minutos nos 1500 metros no atletismo, Comaneci quase menospreza o seu feito.

"As pessoas perguntam-me qual é a definição de perfeição, eu disse que não é nenhuma, não há definição de perfeição. Numa altura específica quando tinha 14 anos, fiz algo que as pessoas não esperavam", disse.

"É uma escada que se sobe na vida, e eu cheguei lá primeiro."

Filosofia

Comaneci sabe que, tal como Korbut antes dela, inspirou uma geração de ginastas, mas acredita que devem carimbar a sua própria marca nas suas carreiras.

"Acho que não se deve replicar o que fiz, todos têm de ser únicos e fazer as suas coisas", disse Comaneci.

"Acho que as crianças deviam ter exemplos, mas acho que não se deve imitar ninguém. Devemos criar a nossa própria forma de estar."

Comaneci passou muitas horas a treinar desde tenra idade para ganhar as suas medalhas de ouro, e diz que essa ainda é a receita para o sucesso.

"É preciso ter muita paixão pelo que se faz, poder trabalhar muito e ter muita motivação porque assim podemos alcançar metas inacreditáveis."

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