Rita Matias descobriu que tem um apelido árabe, outra deputada acabou a chorar: relato do debate da nacionalidade e imigração

4 jul 2025, 18:00

Ventura veio com uma lista de nomes. De crianças, menores, provavelmente de origem estrangeira, mas a estudar em Portugal. A revolta instalou-se no hemiciclo. A esquerda tentou depois pôr o Chega a provar do seu próprio veneno no que respeita a apelidos e nomes ditos portugueses

Debate tenso, ruidoso, divisor de águas no que respeita à imigração - e que levou Diogo Pacheco de Amorim, que liderava a mesa, a admitir várias vezes suspender os trabalhos. Um dos momentos marcantes surge quando Ventura revela nomes de alunos que frequentam escolas primárias do país. Não são nomes da tradição portuguesa.

Nas redes sociais, antes da declaração do líder do Chega, Rita Matias já tinha aparecido a ler uma “lista” de uma turma de “pré-escolar” em Lisboa, para dizer que os imigrantes estão “a passar à frente dos portugueses na admissão” nas escolas.

A exposição dos nomes dos menores deixa o plenário em polvorosa. “Sei que não querem ouvir, mas terão de ouvir. São zero portugueses e é culpa vossa que hoje as escolas sejam isto”, atirou.

Um "número replicável nas redes sociais"

A reação mais emocionada vem de Isabel Mendes Lopes, deputada do Livre, que não contém as lágrimas. Pede “humanismo”, lembra que os colegas daquelas crianças podem identificá-las pelos nomes.

O socialista Pedro Delgado Alves alerta que “este número é replicável nas redes sociais”. “Podem ser cidadãos portugueses de origem, podem ter nomes que podem parecer estranhos, mas estranheza aparente do seu nome não diz nada sobre origem”, argumenta, acusando o Chega de “instrumentalizar crianças”.

Ventura insiste que procurou usar nomes “não identificáveis”, não referindo escolas nem localidades – ao contrário do que tinha acontecido com Rita Matias na publicação feita no Instagram. O líder do Chega vinca que o fez para mostrar uma “mudança cultural e civilizacional” que é “culpa do PS”.

Uma questão de apelidos

A esquerda quis tentar servir ao Chega o seu próprio veneno naquilo que respeita à portugalidade dos nomes. Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, apontou para Marcus Vinícus, “com u”, o deputado brasileiro do Chega. “Usar nome de crianças para espalhar o ódio não é ser um bom português, é cuspir na Constituição e desrespeitar Portugal”, afirma.

A socialista Isabel Moreira segue a mesma estratégia – depois que lembrar que, no passado, Luís Montenegro defendia o reagrupamento familiar como um instrumento de “integração plena”. “O novo normal é acordarmos com propostas do Governo que são o ex-limite do Chega. Até o próximo limite do Chega ficar à disposição. E assim vai o regime”, diz.

Isabel de Lima Mayer Alves Moreira quer depois mostrar que “é perfeitamente possível ser português originário” mesmo tendo nomes que fogem à regra – como ela, com um apelido com origem judia. Ou como Rita Matias. Rita Maria Cid Matias. Cid, diz, “é um nome de origem muçulmana”.

Rita Matias enfurece-se, pede “respeito” pela sua família. “Cid é um nome português e não tem qualquer alusão à comunidade muçulmana”, responde. Basta procurar no Google para perceber que a origem deste apelido é árabe, uma etnia de esmagadora maioria muçulmana. Derivado de "seid" ou "sayyid", que significa "chefe" ou "senhor".

Atirar ao PS, aproximar ao Chega

No debate sobre as regras da nacionalidade e imigração, o Governo insiste no atirar de culpas às políticas socialistas. António Leitão Amaro, ministro da Presidência, diz que o objetivo é “corrigir os erros das esquerdas”.

Imigração “descontrolada”, controlos “afrouxados”, integração “esquecida”. “Ficámos todos pior com mudanças tão mal preparadas”, atira. Aos responsáveis, apela ao ‘mea culpa’, porque depois de terem andado a “brincar às cambalhotas”, convém agora que “não fiquem a brincar às escondidas”.

Ao longo do confronto, o Chega procurou proximidades. “Temos caminho”, admite André Ventura, que quer saber se o governo admite ir mais longe e acabar com o limite de 10 anos para os casos de perda de nacionalidade. Leitão Amaro admite que “há caminho para este Parlamento aprovar medidas”, mas rejeita a perda automática da nacionalidade. Ventura quer ainda saber se o Governo está disponível para travar a “invasão cultural” de imigrantes vindo de países islâmicos.

Do Livre, por Paulo Muacho, a proximidade à direita é vincada. Leitão Amaro, diz, parece o “génio da lâmpada da extrema-direita”, sempre disponível a ceder aos caprichos do Chega.

Governo fez baixar propostas à comissão para maior consenso (Lusa)

Ilustres para contrastar

Num debate tão cheio de nomes, também o PS vinha preparado com uma lista para contrariar as novas regras para a imigração apresentadas pelo Governo – que o partido diz levantar questões constitucionais. Neste caso, uma lista de notáveis, como Alexandre O’Neill e Pedro Pablo Pichardo, para mostrar como os imigrantes naturalizados também honram o país. Das bancadas à esquerda ouviram-se outros adjetivos duros para responder ao Governo: políticas “desumanas”, “cruéis”.

Na resposta, Leitão Amaro fez notar que existem hoje 512 mil pedidos pendentes de nacionalidade, “dos quais só 15% são de nacionalidade originária portuguesa, todos eles nascidos no estrangeiro”. Números que têm vindo a crescer nos últimos anos e que, se os critérios não fossem “apertados”, podiam tornar-se bem piores.

À procura de consenso

Muito antes de as propostas chegarem a votação, o Governo anuncia que vão propor que baixem à comissão, sem votação, para permitir que sejam discutidas pelos partidos, recebam contributos, se tornem mais consensuais. O objetivo, diz Leitão Amaro, é ter uma proposta que “una o país”. “Façamos uma lei para todos nós”, resume.

Para a comissão seguem as propostas do Governo e do Chega sobre nacionalidade, imigração e reagrupamento familiar. A recomendação do Chega para suspender todo o reagrupamento familiar acaba chumbada. E o Bloco de Esquerda não consegue, uma vez mais, acabar com os vistos “gold”.

Das propostas do executivo de Montenegro, a única que viu aprovação nesta sexta-feira foi a da criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras na PSP, ou seja, uma nova polícia de fronteiras, que permitirá fazer cumprir as ordens de expulsão de imigrantes. Será agora discutida na comissão de especialidade, juntamente com o projeto do Chega sobre o mesmo tema.

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