Myanmar: Ataques aéreos matam cerca de 80 pessoas da minoria étnica kachin

Agência Lusa , DCT
25 out, 06:27
Myanmar

A representação das Nações Unidas em Myanmar disse em comunicado que estava "profundamente preocupada e entristecida" com os relatos dos ataques aéreos

Ataques aéreos dos militares de Myanmar mataram cerca de 80 pessoas que participavam na celebração do aniversário da principal organização política da minoria étnica kachin, segundo várias fontes, citadas na segunda-feira pelos 'media'.

O ataque surge três dias antes de os ministros dos negócios estrangeiros do sudeste asiático realizarem uma reunião especial na Indonésia para discutir o aumento da violência em Myanmar (antiga Birmânia).

O número de baixas na celebração de domingo à noite, promovida pela Organização para a Independência de Kachin, no estado de Kachin, no norte do país, parece ser o maior num único ataque aéreo desde que os militares tomaram o poder, em fevereiro de 2021, através de um golpe de Estado que derrubou o Governo eleito de Aung San Suu Kyi.

Os relatórios iniciais colocaram o número de mortos em cerca de 60, mas mais tarde um novo balanço elevou-o para perto de 80, além de cerca de 100 feridos.

Um porta-voz da Associação de Artistas de Kachin disse à agência de notícias Associated Press que aviões militares lançaram quatro bombas sobre a celebração, onde estavam presentes entre 300 e 500 pessoas.

O coronel Naw Bu, porta-voz do Exército da Independência de Kachin, disse por telefone que soldados, músicos, proprietários de empresas mineiras de jade e civis estavam entre os mortos.

Foi impossível confirmar independentemente as informações, embora os 'media' associados aos kachin tivessem publicado vídeos mostrando o que diziam ser o rescaldo do ataque.

O gabinete de informação do Governo militar confirmou, em comunicado, no final da segunda-feira, que houve um ataque ao que descreveu como o quartel-general da 9.ª Brigada do Exército da Independência de Kachin, chamando-lhe uma "operação necessária", em resposta a atos "terroristas" levados a cabo pelo grupo étnico.

o Governo classificou de "rumores" as informações sobre o elevado número de mortos, e negou que os militares tivessem bombardeado um concerto e que músicos e membros da audiência estivessem entre os mortos.

A representação das Nações Unidas em Myanmar disse em comunicado que estava "profundamente preocupada e entristecida" com os relatos dos ataques aéreos.

"O que parece ser o uso excessivo e desproporcionado da força pelas forças de segurança contra civis desarmados é inaceitável e os responsáveis devem ser responsabilizados", afirmou.

Os enviados que representam as embaixadas ocidentais em Myanmar, incluindo os Estados Unidos, emitiram uma declaração conjunta afirmando que o ataque sublinha o "desrespeito do regime militar pela sua obrigação de proteger civis e respeitar os princípios e regras do direito humanitário internacional".

Há décadas que Myanmar enfrenta rebeliões de minorias étnicas em busca de autonomia, mas a resistência antigovernamental aumentou acentuadamente a nível nacional com a formação de um movimento armado pró-democracia que se opôs à tomada do poder pelos militares, no ano passado.

Os kachin são um dos grupos étnicos rebeldes mais fortes do país, capazes de fabricar parte do seu próprio armamento. O grupo possui também uma aliança com as milícias armadas das forças pró-democracia formadas em 2021 para combater o domínio do exército.

A celebração de domingo do 62.º aniversário da fundação da organização, que incluiu um concerto, foi realizada numa base também utilizada para treino militar pela sua ala armada.

Hpakant, no estado de Kachin, é o centro da maior e mais lucrativa indústria mineira de jade do mundo, da qual tanto o Governo como os rebeldes obtêm receitas.

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