Quase 30 passageiros deixaram o navio antes de se saber de todo o problema. Agora, onde eles andam e com quem andaram pode ser um problema
Foram de Estados Unidos, Reino Unido, Países Baixos, Alemanha e muitos outros países até Ushuaia, na Argentina, todos com o mesmo propósito: uma viagem idílica de várias semanas a visitar as maravilhas da natureza no oceano.
Três semanas depois, aquilo que era o realizar de um sonho caro - os bilhetes para embarcar no MV Hondius começam perto dos sete mil euros - tornou-se num autêntico pesadelo que ameaça ter repercussão bem para lá dos 150 passageiros e tripulantes que embarcaram na Argentina e estão agora a caminho das ilhas Canárias.
Um dos grandes problemas é que muitas dessas pessoas já não estão a bordo. Para começar, três delas morreram entretanto, a primeira ainda a bordo. Trata-se de um homem cuja morte foi confirmada a 24 de abril, abrindo a primeira dúvida sobre a existência de um surto de hantavírus, doença que é propagada a partir de roedores, mas que neste caso assumiu a estirpe andina, o que a torna transmissível também entre humanos, elevando ainda mais o nível de alerta.
O cadáver ficou em Santa Helena, território ultramarino do Reino Unido, e a mulher ficou a acompanhar o corpo do marido. Foi precisamente ela a segunda vítima, já em casa, naquele que é o primeiro fator potencialmente multiplicador de problemas.
Esta mulher embarcou para os Países Baixos e já só em casa se percebeu que também ela podia ter sido infetada pelo mesmo vírus. Ato contínuo, as autoridades de saúde tiveram de começar a rastrear todos os contactos da segunda vítima, a começar pelas dezenas de pessoas com quem partilhou o voo, muitas elas ainda em paradeiro desconhecido.
Agora, sabe-se que pelo menos 29 passageiros de 12 nacionalidades diferentes deixaram o MV Hondius nesse dia 24 de abril, abrindo uma multiplicidade de hipóteses para onde o vírus se pode estar a espalhar.
Encontrar estas pessoas, perceber como estão e que contactos tiveram virou tarefa de emergência para as autoridades de saúde mundiais, nomeadamente para a Organização Mundial de Saúde (OMS), que está presente até no navio, à procura de garantir que o surto não se propaga para lá da embarcação.
Até ao momento há cinco casos confirmados ligados ao navio, anunciou a OMS, havendo outros três suspeitos, admitindo aquela agência que o número de infeções possa aumentar, nomeadamente pelo contacto dos tais pacientes que deixaram o navio.
“Dado o período de incubação do vírus andino, que pode ir até seis semanas, é possível que sejam registados mais casos”, assumiu o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreysus, numa conferência de imprensa dada esta quinta-feira.
“Embora seja um incidente sério, a OMS avalia o risco público como baixo”, acrescentou o responsável, afastando, para já, medidas de saúde pública mais alargadas.
E se no navio o surto está contido, o problema está a montante. O Ministério da Saúde dos Países Baixos já confirmou que uma mulher que não esteve no navio está a ser testada para o hantavírus, encontrando-se em isolamento no hospital, até porque apresenta sintomas condizentes com a doença, que pode provocar falhas respiratórias graves e, em último caso, a morte.
Caso o teste venha positivo, será confirmado o primeiro caso fora do navio, o que dará razão às preocupações das autoridades em rastrear rapidamente todos os que lá estiveram. É que o mais provável é que, estando infetada, esta mulher tenha estado em contacto com um passageiro que foi de Santa Helena para Amesterdão, numa ligação da KLM que ainda passou por Joanesburgo, na África do Sul.
De acordo com a Oceanwide Expeditions, a empresa neerlandesa que opera o navio, 29 pessoas desembarcaram em Santa Helena a 24 de abril, além do corpo da primeira vítima mortal. Passados vários dias, só a 4 de maio foi confirmado o primeiro caso, sendo que a companhia acredita que quase todos estes passageiros, senão mesmo todos, estão de regresso a casa.
“Os australianos estão de regresso à Austrália, um de Taiwan a Taiwan, os americanos aos cantos do norte da América. Os inglês a Inglaterra, o neerlandês a sua casa”, indicou um passageiro espanhol que ainda está a bordo do navio em declarações ao El País.
Em paralelo, um homem que chegou à Suíça está a ser tratado num hospital de Zurique, tendo já testado positivo para o vírus. As autoridades locais garantem que não há risco de saúde pública, mas é necessário perceber todos os passos deste doente. Do outro lado do Atlântico, e segundo o The New York Times, passageiros que chegaram à Geórgia, Califórnia e Arizona estão a ser vigiados, não havendo, para já, sinais de doença. Já no Reino Unido, dois passageiros continuam sem sintomas em casa, enquanto dois nacionais de Singapura estão na mesma situação no seu país e um dinamarquês está em isolamento sem sintomas.
Negado o desembarque em Cabo Verde, o navio segue agora para Tenerife. A partir de lá cada país vai lidar com os seus nacionais, sabendo-se já que os 14 espanhóis vão ser transferidos para um hospital em Madrid e colocados em quarentena.
Tudo começou a 1 de abril, quando o navio saiu de Ushuaia, antes de parar na Antártida. Cinco dias depois um homem neerlandês de 70 anos começou a mostrar sintomas, tendo morrido a 11 de abril. Sem razões para suspeitarem de algo mais grave, os membros da tripulação declararam morte por causas naturais, mas a morte da mulher desta primeira vítima tornou o caso demasiado estranho para ignorar.
