Cerca de 150 passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius permanecem isolados ao largo de Cabo Verde após um surto de hantavírus que já causou três mortes e várias infeções
Há apenas um mês, estavam a embarcar numa viagem de aventura rumo a algumas das ilhas mais remotas do mundo. Esperavam-nos encontros com baleias, golfinhos e pinguins; paisagens de extensões geladas, falésias imponentes e colinas verdes ondulantes.
Agora estão isolados nas suas cabines, presos a bordo de um navio ancorado no Atlântico, tomando as medidas possíveis para se protegerem de um surto de um vírus mortal.
Para os cerca de 150 passageiros a bordo do MV Hondius, os próximos dias são marcados pela incerteza.
Na sequência de um surto de hantavírus — que provoca fadiga, febre e pode mesmo levar à falência de órgãos e à morte — três passageiros morreram. Outros três vão ser transferidos para os Países Baixos.
Todos os restantes terão de esperar, pelo menos por agora. Até conseguirem desembarcar, o barco permanecerá ancorado ao largo da costa da Praia, em Cabo Verde, enquanto os que estão a bordo fazem o possível para não adoecer.
Entretanto, muitos têm tentado lidar da melhor forma com a incerteza, alguns partilhando vislumbres das suas vidas através das redes sociais.
Kasem Hato, um vlogger de viagens, publicou vídeos a partir do convés do navio com vista para uma massa terrestre ao longe.
“O que conseguem ver à nossa frente ali é o país de Cabo Verde, mas não nos é permitido desembarcar lá”, diz em árabe enquanto aponta para a costa do país da África Ocidental — que deveria ser a última paragem do navio.
Os passageiros foram instruídos a isolar-se e estão em vigor medidas rigorosas de higiene. Ainda assim, apesar das circunstâncias, a operadora turística Oceanwide Expeditions afirma que os passageiros se mantêm calmos.
“A maioria das pessoas no navio está a lidar com a situação de forma muito calma”, diz Hato, num dos vídeos que publicou a partir do convés com vista para o mar e do interior da sua cabine.
O vlogger também desvaloriza quaisquer receios de agravamento do surto.
“Este vírus não é novo no mundo. Se fosse para se tornar uma epidemia, já teria acontecido há muito tempo”, refere.
Embora se suspeite que tenha ocorrido transmissão entre humanos a bordo do navio, Maria Van Kerkhove, diretora interina de gestão de epidemias e pandemias da Organização Mundial da Saúde (OMS), acredita que isso terá acontecido apenas entre contactos muito próximos, como casais e pessoas que prestam cuidados médicos. O risco para o público em geral é muito baixo, afirma.
Dois dos passageiros que morreram eram um casal. Entre os que estão doentes e deverão ser retirados em breve está uma pessoa “associada” ao terceiro morto, segundo as autoridades, e outro é um médico.
Embora os passageiros estejam a levar a situação a sério, não estão em pânico, revelou Hato à CNN.
“Sentimo-nos todos muito tristes por aqueles que morreram, pois partilhámos com eles uma viagem maravilhosa, e enviamos as nossas condolências às suas famílias”, afirmou.
Outro passageiro que falou com a CNN, Jake Rosmarin, afirmou que, com exceção daqueles que adoeceram, “todos os outros a bordo estão bem e mantêm o bom humor”. Destacou os esforços da tripulação para garantir a segurança, a informação e o conforto dos passageiros.
A fotógrafa de vida selvagem Alejandra Rendon também elogiou a tripulação por “gerir uma situação tão improvável e infeliz”.
A tripulação está a ocupar-se dos passageiros e a desinfetar o navio, segundo a operadora turística e a OMS.
Os passageiros também estão a fazer a sua parte.
Hato disse à CNN que o capitão do navio e a administração estão a manter os passageiros atualizados com novas informações à medida que vão surgindo.
“Estamos a tentar seguir as recomendações que recebemos, como reduzir o contacto direto com outros passageiros e desinfetar as mãos o mais possível”, referiu Hato.
“Os nossos dias estão a decorrer quase normalmente”, acrescentou, referindo que a moral a bordo continua elevada. “Estamos a tentar manter-nos ocupados a ler, ver filmes, beber bebidas quentes e assim por diante.”
Rosmarin afirmou que foram levados para bordo recursos médicos e suprimentos adicionais e que os passageiros estão a tomar precauções como usar máscaras e praticar distanciamento social.
Os passageiros podem ter as refeições entregues nas suas cabines e podem fazer caminhadas solitárias nos conveses para apanhar ar fresco, mas não se podem reunir em áreas comuns, acrescentou.
Rosmarin também tem publicado imagens da vista de Cabo Verde a partir do navio e aguarda o dia em que finalmente possa desembarcar.
“Estou a sentir-me bem, a apanhar algum ar fresco e a continuar a ser bem alimentado e cuidado pela tripulação a bordo”, publicou Rosmarin no Instagram, juntamente com uma selfie sua no convés.
“A tentar apenas focar-me no lado positivo, pensar nas coisas boas e manter um sorriso no rosto.”
Eyad Kourdi, Issy Ronald, Duarte Mendonça e Ally Barnard da CNN contribuíram para esta reportagem.