Começa tudo na cabeça e é provável que acabe no clitóris: o percurso pelo prazer sexual feminino

16 jul, 22:00

Marta Crawford leva-nos numa visita guiada pelo Museu Pedagógico do Sexo, uma exposição com obras de artistas como Paula Rego, Louise Bourgeois, Lourdes Castro e muitos outros e que é também uma viagem pelo corpo e pela sexualidade das mulheres. Para visitar até ao final do ano, em Algés

O artista britânico Jamie McCartney apercebeu-se que muitas das suas amigas estavam a recorrer à cirurgia estética porque achavam a sua genitália feia e queriam torná-la mais bonita. O artista não entendeu por que o faziam. Para ele, todas as vulvas eram bonitas. Foi isso que o levou a um trabalho de pesquisa, que durou mais de cinco anos, sobre os órgãos sexuais femininos e masculinos. Um dos trabalhos que produziu foi o "Grande Mural da Vagina", exposto pela primeira vez em 2008: aqui estão representadas 400 vulvas de mulheres com idades entre os 18 e os 76 anos, de várias partes do mundo, mulheres cis, transexuais, intersexo, mães e filhas, irmãs, mulheres mutiladas, mulheres que tinham feito cirurgia reconstrutiva, mulheres com vulvas de todos os tamanhos e feitios. A ideia era que o painel fosse o mais inclusivo possível.

"É uma ode à diversidade. Não há uma só vulva, todas as vulvas são diferentes mas todas são bonitas, na sua maneira única", explica a sexóloga Marta Crawford, que escolheu esta obra para integrar a primeira exposição do Museu Pedagógico do Sexo, patente desde 25 de junho e até ao final do ano no Palácio Anjos, em Algés.

A exposição chama-se "Amor Veneris - Viagem ao Prazer Sexual Feminino" e é precisamente por aí que devemos começar: a expressão "Amor Veneris" foi usada pelo anatomista Matteo Realdo Colombo, o "descobridor do clitóris", em 1579 para descrever este órgão feminino, o único órgão humano que tem como única função possibilitar o prazer. "Portanto, nesta altura, já se sabia que existia este órgão sublime do prazer feminino, mas ele continuou a ser deliberadamente esquecido, apagado, mutilado, associado à doença e à histeria", explica a mentora e cocuradora da exposição, Marta Crawford, numa visita guiada para a CNN Portugal.

"Ao longo da história o prazer sexual feminino foi sempre menosprezado." Esta exposição procura trazê-lo para o centro da conversa. "Já não podemos aceitar que não se fale sobre a sexualidade feminina. Sabemos que há muitas mulheres infelizes sexualmente e que, por isso, são infelizes na sua vida. O prazer é fundamental para todas as pessoas." O objetivo é, portanto, combater todas as formas de preconceito, discriminação e ignorância sobre a sexualidade.

Entrar no Palácio Anjos é, metaforicamente, entrar num corpo feminino. Os Espacialistas, grupo de arquitetos e artistas, fizeram uma intervenção profunda no espaço, de tal forma que quando entramos na exposição quase nos esquecemos que estamos num palácio. Não há janelas nem qualquer contacto com o exterior. Foram criadas paredes, salas e até escadas - tudo para nos fazer entrar neste corpo de mulher e para nos guiarem nesta viagem até ao cúmulo do prazer.

À entrada, é preciso tomar uma decisão importante: prosseguimos com ou sem consentimento?

Sexo sem consentimento é crime

"Quem entra sem consentimento vai ter a um espaço com obras que remetem para a violência sexual contra as mulheres. O não consentimento é violentar, é abuso, é crime", explica Marta Crawford. As obras de arte que aqui estão falam de violação, de mutilação genital feminina, de abuso de menores, de mulheres que são segregadas por terem o período ou punidas por fazerem um aborto.

Aqui temos, claro, obras de Paula Rego, mas também de Ana Mandieta, Maria Geirinhas, Sara Maia e outros artistas. E uma obra videográfica, inédita, feita propositamente pela realizadora Ana Rocha de Sousa, que, ao longo de dez minutos, junta imagens, sons e testemunhos reais e outros ficcionados. "É um pontapé no estômago, é mesmo para que as pessoas percebam que o não consentimento é sempre uma violência", explica a curadora.

Desde o início, para Marta Crawford era claro que este museu não seria nada como os outros museus do sexo que já existem noutros países e que são, na maior parte das vezes, museus da pornografia, muito centrados no pénis e numa visão masculina do prazer. Aqui, o ponto de vista é feminino e o que temos para ver são obras de arte, não são brinquedos sexuais. "Algumas obras foram concebidas especificamente para esta exposição, mas a maioria não. São obras de artistas que nós, eu e a Fabrícia Valente, que faz a curadoria comigo, fomos buscar porque achámos que se integravam bem na nossa narrativa, usamo-las para contar a história que queremos contar", diz Marta Crawford. Depois, estas são obras com múltiplas interpretações, que trazem as suas próprias histórias para esta exposição, que colocam perguntas, que acrescentam camadas de interpretação, que levantam dúvidas.

"O desejo começa na cabeça mas é no corpo que ganha vida"

Ao entrar com consentimento iremos fazer "uma viagem ao prazer sexual feminino". Apenas 20% das mulheres chegam ao orgasmo através da penetração, indicam os estudos. A grande maioria precisa de estimulação do clitóris. Todas precisam de muito mais do que isso. Por isso, a exposição é dividida em três grandes partes - cérebro (o principal órgão do prazer feminino), pele (o maior órgao do prazer) e clitóris (o único órgão que tem como função o prazer).

No cérebro é "onde estão as nossas memórias, as fantasias, as histórias, os sentidos, portanto, aqui todas as obras estão em núcleos, separados com cortinas, e é como se estivéssemos dentro do cérebro de uma mulher, onde há muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo, muitos estímulos, demasiadas coisas em que pensar. O cérebro é responsável por todas as escolhas que fazemos", sublinha Crawford. Neste núcleo temos obras para ver, para tocar, para sentir, para cheirar.

É aqui que encontramos, por exemplo, o "peep show" que convida ao nosso voyeurismo: temos de espreitar para ver as obras da realizadora porno Erika Lust. Mas também os vídeos de Lori Malépart-Traversy e Laure Prouvoust, as ilustrações de Fátima Mendonça, os perfumes de Cláudia Camacho ou os batons de chocolate de Janine Antoni.

Do cérebro passamos para a pele, através de um longo corredor que desagua numa sala muito alta. "O desejo começa na cabeça mas é no corpo que ganha vida. A pele é o mais extenso órgão sexual, são mais de dois metros quadrados", sublinha a curadora. A pele como fronteira entre o interior e o exterior, a pele como máscara e proteção, as várias peles que vamos tendo ao longo da vida. "O percurso começa com uma abordagem à dimensão do corpo total, uma mulher não é só mamas e genitais. Todo o corpo é fonte de prazer", explicita Marca Crawford.

Neste núcleo temos uma obra de Louise Bourgeois, um pequeno corpo de formas arredondadas, suspenso, mesmo em frente das gravuras da menos conhecida artista portuguesa Maria Beatriz, que mostram corpos com cicatrizes, mutilados, andróginos, não esteorotipados. Na mesma sala encontramos Inês Norton, Teresa Crawford Cabral, Noé Sendas, Lourdes Castro e os corpos de látex criados por Polly Nor, ao lado da sala que alberga Fernanda Fragateiro e da outra com Julião Sarmento.

Depois subimos a escada. "Ficamos ofegantes, ouvimos o coração a bater mais acelerado. A excitação sexual aumenta." Percorremos o corpo para nos centrarmos em algumas das suas partes. As tais 400 vulvas de Jamie McCartney. Clara Menéres, Ernesto de Sousa, Isabel Barahona (uma obra para folhear e para ouvir). E deparamo-nos com a fotografia dos Espacialistas: uma fenda na relva, um dedo. Um dedo no clitóris?.

"Vamos ter um orgasmo?"

Um túnel conduz-nos até à obra "site specific" de Ana Pérez-Quiroga. Uma sala que é uma antecâmara do prazer. A alcatifa faz-nos abrandar, o sofá convida a relaxar, os letreiros em néon provocam faíscas no cérebro, os sons são excitantes. "Estamos em plena excitação sexual. Este é um sítio para estar, não é preciso ter pressa", avisa Marta Crawford. "A ideia é que a excitação sexual é tão ou mais importante que o orgasmo. Muitas vezes concentramo-nos tanto no objetivo de alcançar um orgasmo que nos esquecemos de aproveitar o caminho, e o caminho é importante. O orgasmo até pode ser só fruto de uma coisa mecânica e a cabeça não estar lá. Este é o momento em que lembramos as mulheres que o seu prazer é importante e que devem reivindicá-lo."

Por isso, antes de chegar ao orgasmo, é preciso ainda passar pela "Cliteracia" de Sophia Wallace - letreiros e palavras de ordem para todos e todas aprenderem a literacia do clitóris. E pelo próprio clitóris: uma obra de três metros criada pela francesa Julia Pietri - Gang du Clito, bem grande e bem vermelha para que seja bem visível, para que ninguém possa dizer que não reparou ou que não sabe onde está. "Tem este tamanho para dizer: eu existo."

Mesmo ao lado, uma placa recorda-nos de algo essencial: vamos continuar com consentimento. "Porque ter consentimento no início não quer dizer que tenhamos consentimento agora, o consentimento tem de ser constantemente renovado, e dado livremente, de forma clara e inequívoca e sem coação."

Apesar da escolha feita à entrada, o percurso é circular, para que todos possam ver os dois lados do sexo - com e sem consentimento. A maioria das pessoas prefere começar pelo consentimento, mas há quem se arrependa. Como aquele casal de namorados, muito jovem, que decidiu voltar tudo para trás: "A última sala era muito pesada, queremos acabar em bom, queremos sair felizes", explicam. Marta Crawaford sorri. Ao longo destas últimas semanas, tem passado muitas horas no Palácio Anjos, gosta de ver as reações dos visitantes e de ser interpelada por eles. "Tenho tido reações muito boas. Esta é uma exposição para todos, para mulheres e para homens, para novos e para mais velhos, para vir sozinho, com amigos, com os filhos, com o companheiro."  Dois casais de meia-idade fazem-lhe perguntas sobre as gravuras de Maria Beatriz. Uma professora reformada dá-lhe os parabéns: "Quem me dera ter uma exposição destas quando dava aulas, nos anos 80." Um grupo de raparigas interrompe para dar os parabéns à sexóloga: "Está espetacular, é mesmo importante falar disto."

"Já tiveram o orgasmo?", pergunta-lhes Marta Crawford. "Vamos ter um orgasmo?" O enorme clitóris - aquele órgão que Helen O'Connell descreveu com precisão em 2005, mostrando ao mundo toda a sua dimensão escondida, muito para lá da "ponta do icebergue" que se julgava ser, que tem na verdade mais de 8 mil terminações nervosas - é, literalmente, uma porta para o prazer. A última obra, criada pelos Error-43, procura reproduzir a sensação de um orgasmo, com a batida intensa do coração e o afluxo sanguíneo. "Tudo isto é baseado na ciência, nos estudos de Masters & Johnson, mas o ritmo é ampliado - aumentado 20 vezes - para poder ser perceptível", explica.

A exposição pode ser visitada até 30 de dezembro. A programação paralela do Museu Pedagógico do Sexo inclui performances, oficinas artísticas e pedagógicas, conversas e debates, visitas guiadas. Tudo para que no final, com ou sem orgasmos, tenhamos todos mais informação - e possamos ser mais felizes.

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