Novo museu judaico quer combater "estereótipos" sobre sefarditas e pode alterar conteúdo por causa da guerra

24 abr, 18:00
Tikva Museu Judaico de Lisboa

Esther Mucznik explica à CNN Portugal as mudanças que tiveram de ser feitas para levar o projeto de Alfama para Belém, em Lisboa, sublinhando que a vista para o Tejo lhe permitiu uma nova reflexão sobre a “história de luz e sombra que foi a história judaico-portuguesa”

O TIKVÁ Museu Judaico de Lisboa deve abrir portas em 2025 em Belém, uma garantia dada à CNN Portugal por Esther Mucznik, uma das responsáveis pelo projeto. E deixa uma novidade: admite a possibilidade de o conteúdo temático do museu, que pretende contar a história dos judeus portugueses, ser alterado pela invasão da Ucrânia.

Até ao momento, esclarece, “as justificações absurdas de Putin para invadir a Ucrânia e destruir a vida e a autodeterminação de um povo e de um país em nada alteram o percurso expositivo tal como está concebido atualmente”. No entanto, a forma como o museu está a ser concebido pode sofrer alterações se a história e os valores da União Europeia “forem atacados ou, na pior das hipóteses, arrasados”. Se isso acontecer, “é evidente que o museu não deixará de refletir essa realidade”.

O Museu Judaico de Lisboa está também a ser concebido num momento em que a lei da nacionalidade para os judeus sefarditas tem sido alvo de polémicas, especialmente depois da detenção de Daniel Litvak, responsável da comunidade israelita do Porto. Questionada sobre se sente que a controvérsia em torno desta lei pode prejudicar as ambições do projeto, Mucznik refere que o objetivo do museu é combater os "estereótipos" - que são "normalmente resultado da ignorância”. “Acredito sinceramente que, depois de percorrer o museu, o visitante terá uma consciência mais clara do valor que os judeus, sefarditas e asquenazes representam para o país.”

O Museu Judaico de Lisboa começou por ser idealizado em 2016 para o Largo de São Miguel, em Alfama, local de uma das judiarias medievais da capital. Mas um longo processo de contestação, protagonizado pela Associação do Património e População de Alfama - que acusava o museu de descaracterizar o largo e não respeitar as regras urbanísticas -, acabou por levar o projeto para Belém, mesmo em frente ao Rio Tejo. 

Mucznik admite que construir o espaço em Alfama tinha um “simbolismo especial”, mas acredita que um museu não vive apenas do simbolismo do seu espaço e argumenta que em Belém a mensagem que o TIKVÁ quer passar vai ser servida de outras valências de que o Largo de São Miguel não dispunha - nomeadamente “um espaço significativo para exposições temporárias, além da exposição de longa duração, um auditório com perto de 200 lugares, um centro de investigação Roberto Bachmann - nome de um dos nossos maiores doadores de obras e livros -, um importante serviço educativo e um restaurante”.

Esther Mucznik, que já teve uma reunião com o executivo de Carlos Moedas em fevereiro deste ano, explica que existe abertura da Câmara de Lisboa para que o projeto avance o mais rapidamente possível, mas a mudança de Alfama para Lisboa e a complexidade da transferência de um espaço pequeno para um local onde a capacidade é muito superior tem sido um dos motivos para o atraso do museu - que já teve dois anos previstos para inauguração, 2017 e 2024. “Nas reuniões que temos tido com os respetivos vereadores, o acolhimento do nosso projecto tem sido entusiasta. É total a disponibilidade para avançar o mais rapidamente possível, tal como o era na anterior liderança política”, esclarece Mucznik, adiantando que, por agora, não estão previstas mais reuniões com a Câmara mas que “é claro para todos que tudo será feito para fazer tudo avançar da forma mais rápida e eficaz possível”.

Terreno em Belém onde vai ser edificado o museu/ TIKVÁ Museu Judaico de Lisboa

A mudança de cenário trouxe também outro tipo de desafios. A museografia vai “mudar completamente”, principalmente porque a arquitetura é “radicalmente diferente” e o espaço é muito maior. Esta nova tela em branco, com uma paisagem banhada pelo rio, vai fazer com que o museu dê “um ênfase mais forte ao contributo judaico às Descobertas”, garante Mucznik, que realça que o museu TIKVÁ (que significa Esperança em hebraico) vai “inovar partes significativas do percurso expositivo, nomeadamente utilizando as novas tecnologias em maior escala do que estava previsto para Alfama”. Mas a história que o museu pretende contar é a mesma. “São os 2.000 anos da presença judaico-portuguesa no território que é hoje Portugal.” 

A vista para o Tejo, e em particular para a Torre de Belém, permitiu também a Esther Mucznik uma nova reflexão sobre a “história de luz e sombra que foi a história judaico-portuguesa”, que remonta até ao século XI mas que tem os seus momentos mais negros a partir do século XV, quando começam a surgir éditos que ameaçam de expulsão todos aqueles que não se convertem ao catolicismo.

Mas mesmo os que se converteram, que ganharam o nome "cristãos-novos", acabaram por ser perseguidos e mortos ao longo de vários anos em Portugal. Um dos episódios mais infames deu-se em abril de 1506 quando, em Lisboa e perante um ambiente de seca prolongada e de peste, um frade dominicano prometeu 100 dias de indulgências a quem matasse "os hereges". Durante três dias, multidões invadiram as ruas de Lisboa e violaram e mataram entre dois mil a quatro mil cristãos recém-convertidos - uma situação que só foi amparada quando o rei D. Manuel enviou as tropas reais à cidade e condenou o frade à morte. Esta perseguição foi também replicada durante a Inquisição, estimando-se a morte de cerca de duas mil pessoas queimadas na fogueira, a grande maioria judeus e muçulmanos que se converteram ao cristianismo.

No entanto, Esther Mucznik quer que o museu se debruce mais sobre os períodos em que a convivência entre judeus e católicos foi de algum modo possível, um contributo que considera estar a ser “ignorado pela população”. “Ora, a vista para o Tejo, e em particular para a Torre de Belém, permite-nos lembrar e enfatizar no museu esse contributo fundamental”, acrescenta, sublinhando que a beleza e a luz do rio influenciaram também o nome dado ao museu. “Não é por acaso que foi Daniel Libeskind, o arquiteto do nosso museu, que propôs acrescentar a palavra TIKVÁ, que significa 'esperança' em hebraico, ao nome do Museu Judaico. Uma esperança que sempre alimentou o povo judeu.”

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