Especialistas apontam falhas de segurança e investigam possível tráfico das joias
Sete minutos foi tempo suficiente para que quatro suspeitos entrassem no Museu do Louvre para um assalto rápido e cirúrgico que levou várias peças da coleção de joias de valor incalculável. O grupo, que entrou num dos museus mais vigiados do mundo utilizando um empilhador estacionado na margem do Sena, fazendo-o subir até à altura de uma janela do primeiro andar em plena luz do dia, levou oito joias "de inestimável valor patrimonial".
A sofisticação do roubo e as lacunas pontuais na segurança são demasiado evidentes e apontam para uma classe específica de assaltantes, na análise dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal.
Luís Fernandes, presidente do Observatório de Segurança Interna, descreve o episódio como “um assalto ousado” que mostra planeamento e conhecimento prévio das vulnerabilidades físico-operacionais do museu, lembrando que embora existam vitrinas blindadas e protocolos, com “tempo, dedicação e preparação” qualquer sistema pode ser contornado.
“O facto de o assalto ter acontecido em cerca de sete minutos também vem aqui confirmar as suspeitas de que serão de facto profissionais que em minutos conseguem aqui também ultrapassar muitas destas questões de segurança”, afirma, acrescentando que tem de haver perceção de que foram identificadas falhas "de tal forma vulneráveis que permitiram que alguém se abeirasse com um veículo, que fizesse subir um elevador e que permitissem que pessoas entrassem por uma janela de uma varanda". "Foi um assalto, podia ser um ataque terrorista", defende.
Luís Fernandes detalhou as perícias possíveis: pesquisa de impressões digitais, ADN e técnicas mais sensíveis (como o chamado touch ADN) que permitem detetar vestígios a partir de quantidades muito pequenas de material biológico. Reconhece, contudo, que os autores provavelmente usaram luvas e máscaras para reduzir vestígios.
"A pesquisa de impressões digitais, a pesquisa de ADN, a pesquisa de um tipo de ADN - chamado Touch ADN que é basicamente uma forma mais refinada de fazer a pesquisa de ADN - e daí haver a possibilidade de uma menor amostra nos permitir chegar a quem possa ter cometido o crime, tendo atenção, e eu presumo que isto não será muito mirabolante, que os assaltantes tenham usado luvas, tenham usado máscaras, tenham usado todas as proteções para deixarem o mínimo de vestígio possível para que possam ser identificados."
O responsável realça ainda que o momento do assalto foi escolhido de forma cirúrgica porque às 9:30, com as portas já abertas e visitantes no interior, o foco da segurança está no acesso principal, não nas janelas junto ao Sena.
"Às nove e meia da manhã local, significa que as portas já estão abertas e, portanto, já há turistas a entrarem no museu e isso faz com que a segurança esteja mais atenta a quem está a entrar e não às janelas em si. Ninguém esperaria que se entrasse pelas janelas, menos com este tipo de atuação. Por outro lado, também há que ter aqui uma outra perspetiva."
Luís Fernandes lembra que "nenhum forte é impenetrável" e que, "com tempo, dedicação, preparação, é possível fazer o bypass das seguranças que existem, sejam elas ativas ou passivas" e que os suspeitos são pessoas "habilmente treinadas" e que fizeram "uma preparação até a exaustão" antes do assalto.
"Consequências para o mundo inteiro"
Por sua vez, José António Falcão, museólogo e especialista em história de arte, admite duas hipóteses quanto ao destino provável das joias levadas do museu parisiense: ou se trata de um roubo encomendado para um colecionador particular, ou as peças serão desmontadas, com as gemas e metais separados e colocados no mercado de forma a escapar aos sistemas habituais de identificação.
"Estamos a falar de peças que, além do seu valor intrínseco, pelos metais preciosos, pelas gemas que as constituem, são sobretudo documentos históricos, documentos patrimoniais de primeiríssima ordem. E este furto tem consequências não apenas para a França, mas para o mundo inteiro. Estamos a falar de um património realmente de grande relevância", aponta o especialista, acrescentando que este é um "furto muito profissional".
Garantindo confiar "muito na atuação das autoridades francesas" e lembrando que "França possui uma das melhores polícias científicas do mundo e, por outro lado, a própria Interpol está situada em solo francês", José António Falcão diz ainda estar "certo de que vai existir uma solidariedade internacional no sentido deste património, que é também de algum modo património da humanidade, seja realmente identificado e seguido".
No entanto, espera que este assalto seja também um "ensinamento a tirar" e considera "que o próprio Louvre vai reforçar de uma maneira sistemática as suas possibilidades de defesa".
"Devia ter existido uma resposta muito rápida da parte do museu a partir do momento em que o monta-cargas é ali colocado num sítio interdito e, digamos, há um contacto direto com os acessos do museu. Há aqui um ensinamento a tirar e que me parece muito importante, que é este: é fundamental não descurar os tempos mortos ou aqueles momentos de menor atividade numa cidade quando se tem de gerir um grande museu ou um grande monumento. O momento foi escolhido de uma maneira absolutamente cirúrgica. Eram cerca das 9:30 da manhã de um domingo. Foi muito fácil depois a quem realizou o furto evadir-se e foi também, e isto é o que me surpreende mais, relativamente fácil estacionar antes a viatura que depois teve aqui um papel e até colocar lá equipamentos e outros materiais que foram necessários para que a operação se desenrolasse", descreve.
Já Hermano Sanches Ruivo, vereador da Câmara Municipal de Paris, vinca o simbolismo do ataque na capital francesa e aponta a possibilidade de cumplicidade interna como um dos eixos a investigar.
“Se há algo que está a acontecer no Louvre, também mexe automaticamente connosco todos e que deixa, certamente, os parisienses em alerta, dada a importância, não só pelo facto de Paris ser uma das cidades mais visitadas de todo o mundo. O Museu do Louvre é também um dos museus mais visitados, mais icónicos”, lembra.
Considerando que vai ser "muito difícil" recuperar as joias roubadas, Hermano Sanches Ruivo diz ainda que este assalto também tem impacto para os turistas, não só por ter acontecido a um domingo e no museu mais famoso da Europa, mas também porque o museu foi encerrado de imediato e continua fechado esta segunda-feira.
"Fico triste para os que, muitas vezes, só têm um dia para visitar o Museu do Louvre e que, claramente, vão falhar nesse caso, nessa possibilidade."
O vereador parisiense lembra ainda que "os roubos dentro do próprio museu é algo muito, muito, muito raro" e que lá "acontecem milhares de eventos privados por ano", o que "também pode deixar entender que alguém do interior também terá participado" no assalto.
"Há claramente uma questão sobre a segurança, também sobre as pessoas que trabalham nesses edifícios. O problema de saber de onde é que vem e quais são fidedignos para esse tipo de trabalho. É um conjunto e a ministra da Cultura, que também é conselheira vereadora de Paris, muito bem compreenderá porque é que há sempre essa insistência sobre não diminuir as despesas ligadas a estruturas como as da cultura", indica, acrescentando ainda que "o atual ministro do Interior há uma semana ainda era prefeito de Polícia de Paris e é quem diretamente estava ligado a essas questões [de segurança]. Portanto muito deve saber e conhecer sobre não só as capacidades, mas também o que terá acontecido nesses últimos anos, porque verificamos assaltos também noutros monumentos ou noutros museus ou estabelecimentos".