Estados Unidos e Europa concordam numa coisa: "o velho mundo acabou"

CNN , Lauren Kent
13 fev, 17:46
Friedrich Merz (RONALD WITTEK/EPA via Lusa)

Os líderes europeus prepararam-se para uma combativa Conferência de Segurança de Munique esta sexta-feira, com o alemão Friedrich Merz a observar de forma contundente que a ordem mundial internacional "já não existe" – um dos poucos pontos de concordância entre os aliados conflituosos da aliança transatlântica.

O discurso de Merz na conferência no sul da Alemanha, que reúne responsáveis de todo o mundo para discutir a segurança internacional e realizar conversações diplomáticas, destacou a crescente divisão entre os Estados Unidos e a Europa.

O líder alemão, do partido de centro-direita União Democrata Cristã, alertou que a liberdade da Europa "já não é um dado adquirido" numa era em que as grandes potências ignoram as regras internacionais. Condenou a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, apelando à Europa para que invista no reforço da sua própria dissuasão. E criticou abertamente a administração do presidente dos EUA, Donald Trump, pelas suas políticas em matéria de tarifas, alterações climáticas e guerras culturais — comentários que podem causar alguma irritação em Washington.

Mas no que diz respeito ao fim da ordem mundial anterior, a administração dos EUA parece estar em sintonia.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse esta quinta-feira à noite, ao partir para Munique, que "o velho mundo acabou, francamente" e "vivemos numa nova era na geopolítica".

"Isso vai exigir que todos nós reexaminemos como será essa relação e qual será o nosso papel", acrescentou Rubio, observando também que a Europa é importante para os EUA. "Acho que eles querem honestidade. Querem saber para onde estamos a ir, para onde gostaríamos de ir, para onde gostaríamos de ir com eles."

No dia seguinte, Merz foi realmente honesto na sua avaliação da relação transatlântica.

"Abriu-se uma divisão entre a Europa e os Estados Unidos", disse Merz, lamentando o fim de uma ordem mundial internacional baseada em direitos e regras.

"A reivindicação de liderança dos Estados Unidos foi contestada e, possivelmente, perdida", afirmou.

O chanceler alemão continuou, numa espécie de refutação ao discurso combativo feito pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, na conferência do ano passado. As observações de Vance em 2025 criticaram os políticos europeus, alegando que eles estavam a suprimir a liberdade de expressão, a perder o controlo da imigração e a recusar-se a trabalhar com partidos de extrema-direita no governo.

Um ano depois, Merz respondeu, dizendo: “A batalha das culturas do MAGA nos EUA não é nossa. A liberdade de expressão, aqui (na Alemanha), termina quando as palavras proferidas são dirigidas contra a dignidade humana e a nossa lei fundamental.”

"Não acreditamos em tarifas e protecionismo, mas sim no comércio livre", acrescentou Merz, uma frase que foi recebida com aplausos estrondosos.

"Mantemos os acordos climáticos e a Organização Mundial da Saúde, porque estamos convencidos de que os desafios globais só podem ser resolvidos em conjunto", acrescentou, sob mais aplausos.

Estas palavras surgiram depois de a administração Trump ter aumentado as tarifas sobre a União Europeia e o Reino Unido em 2025, bem como de se ter retirado do acordo climático de Paris e da OMS.

O chanceler alemão passou então para o inglês, com uma advertência severa dirigida à liderança dos EUA, mas também um apelo para reparar as relações transatlânticas.

“Na era da rivalidade entre grandes potências, nem mesmo os Estados Unidos serão poderosos o suficiente para agir sozinhos”, alertou Merz. “Caros amigos, fazer parte da NATO não é apenas uma vantagem competitiva para a Europa, é também uma vantagem competitiva para os Estados Unidos.”

Merz deverá realizar reuniões bilaterais com Rubio, bem como com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, na conferência deste ano.

O fórum ocorre poucas semanas após outra reunião tensa de líderes mundiais em Davos, na Suíça, na qual Trump fez um discurso a criticar os líderes europeus por sua política de migração e reclamar que os EUA haviam sido explorados pelos aliados europeus.

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