Crimes de guerra: como o exército russo mutilou Olena, Yurii, Olha, Veronika, Olena, Ilkham e matou Valerii, Oksana, Tetiana, Konstiantyn, Hanna e Andrii

Manuela Micael
14 jun, 18:00
Montagem - Pessoas que o exército russo mutilou

​​​​​​​Conversavam com vizinhos à porta de casa, brincavam com os filhos no parque infantil, passeavam em família ou faziam compras. Foram atingidos por bombas de fragmentação russas e perderam a vida ou ficaram com ela comprometida para sempre. As histórias foram recolhidas pela Amnistia Internacional, que garante ter provas destes crimes de guerra. A utilização de bombas de fragmentação é proibida

(aviso: este artigo contém imagens da Aministia Internacional que podem ferir a sensibilidade dos leitores)

Oksana quase perdeu a vida à frente da filha. Ilkham quase morreu à frente da mãe. Valerri morreu quando colocava flores frescas na campa do pai. Olha ficou sem as duas pernas, assim como Yurri. Todos vítimas dos ataques com bombas de fragmentação em Kharkiv, na Ucrânia, desde o início da guerra.

São nomes e rostos das histórias mais impressionantes contadas pelo mais recente relatório da Amnistia Internacional (AI), que denuncia o uso de bombas de fragmentação contra civis em Karkhiv, divulgado esta segunda-feira.

Valerii Zaborskyi morreu no ataque ao cemitério

O ataque russo de 28 de abril a Kotliary, nos arredores de Kharkiv, atingiu o cemitério da cidade. Havia muita gente a visitar as campas de familiares e amigos, um gesto comum nos dias que se seguem à Páscoa ortodoxa. Valerii Zaborskyi, de 53 anos, limpava a campa do pai quando foi atingido por estilhaços de uma bomba de fragmentação. Morreu no local.

Valerii Zaborskyi morreu quando limpava a campa do pai (Fonte: Amnistia Internacional)

A sobrinha de Valerrii, Kateryna, de 30 anos, estava com o tio. Diz que viu literalmente os mísseis a voar sobre as suas cabeças. Mas é um cenário tão comum em tempo de guerra que não foi valorizado. Só quando se ouviu a primeira explosão é que procuraram proteção. Demasiado tarde.

“Todos os fragmentos interiores e os destroços do míssil caíram em cima de nós, no cemitério. A minha irmã estava deitada no chão, ao meu lado. Quando as explosões terminaram comecei a chamar pelos meus familiares: Valerrii e Ania, a minha irmã. Ela respondeu mas o meu tio não e eu percebi que estava morto”, conta Kateryna no relatório da Amnistia.

Enquanto fugia dali com a irmã, as duas ainda foram atingidas por estilhaços. Kateryna sofreu queimaduras graves nas costas. Mais duas pessoas que estavam com ela também ficaram feridas.

Não foram caso único: o ataque fez múltiplas vítimas.

Oksana quase morreu à frente da filha - e depois morreu mesmo

Oksana Litvynyenko, de 41 anos, aproveitava o sol da tarde no parque infantil da rua Myru, em Kharliv, com o marido e uma filha de quatro anos quando o local foi alvo de uma das bombas lançadas pelos aviões russos, a 15 de abril. Lutou pela vida durante dois meses e acabou por morrer a 11 de junho.   

Oksana Litvynyenko passeava no parque com a filha e o marido quando foi atingida (Fonte: Amnistia Internacional)

Quando a filha de Oksana a viu “numa poça de sangue”, achou que a mãe já estava morta.

"Eram quatro da tarde e havia muitas famílias no parque. Também lá estavam muitos funcionários municipais a tratar das plantas e a limpar. De repente vi um flash, como aqueles que se soltam quando soldamos metais. Peguei na minha filha e encostei-a a uma árvore e protegi-a com o meu corpo. Quando o fumo das explosões abrandou, vi a minha mulher no chão. Quando a minha filha viu a mãe numa poça de sangue disse ´vamos para casa, a mãe está morta e as pessoas estão mortas´. Ela estava em choque e eu também”, conta Ivan, marido de Oksana.

Durante dois meses, Ivan sabia que tinha a vida virada ao contrário, mas só perdeu a esperança com o último suspiro da mulher. Oksana não resistiu aos ferimentos provocados pelos estilhaços que lhe atravessaram o tórax, as costas e o abdómen.

Tetiana morreu à porta de casa

Tetiana, a vizinha Olena e outro casal estavam sentadas à porta do prédio, no bairro de Saltivka, fortemente devastado pela guerra quando se deu a primeira explosão do outro lado da rua, a 26 de abril. Tentaram refugiar-se dentro de casa mas outra bomba explodiu-lhes mesmo à porta do prédio. 

Tetiana foi encontrada pela vizinha Liudmyla, de bruços, nas escadas do prédio. Estava morta. 

Olena perdeu as pernas

Olena Sorokina, de 57 anos, sobreviveu a um cancro mas perdeu as duas pernas no mesmo ataque que lhe matou a amiga e vizinha Tetiana.

Citada pelo relatório da Amnistia Internacional, Olena conta que estavam à espera da chegada da ajuda humanitária quando começaram a ouvir o sibilar das bombas que caíam do céu. Tentaram refugiar-se dentro do prédi, mas de nada lhes valeu.

Só se lembra, a seguir, de já estar dentro de uma ambulância e de perceber que não tinha uma perna. Foi transportada para o hospital, onde lhe amputaram a outra.

De acordo com o relatório da AI, Olena aguarda agora ser transferida para um hospital de qualquer outro país europeu, onde espera fazer reabilitação. “Depois da batalha contra o cancro, enfrento agora outra: aprender a funcionar sem as minhas pernas.”

Yurii foi atingido na sala de casa

Yurii Chekhonin, de 61 anos, também perdeu parte de ambos os membros inferiores. Estava sentado na sala de casa quando uma bomba atingiu o apartamento por cima do seu, na madrugada de 30 de abril. O tecto caiu-lhe literalmente em cima.

Yurii Chekhonin estava sentado na sala de casa quando foi atingido (Fonte: Amnistia Internacional)

O míssil incendiou-lhe a casa e amputou-lhe ambos os pés. Foi a mulher quem, heroicamente, o arrastou para fora das chamas e lhe salvou a vida.

Olha atingida à porta da mercearia

Olha Maltseva, 63 anos, foi atingida pelo fragmento de uma bomba quando estava à porta de uma mercearia perto de casa na rua Klochkivska, a noroeste do centro de Kharkiv.  Foi logo no início da guerra, a 28 de fevereiro.

Olha Maltseva ficou ferida à porta de uma mercearia (Fonte: Amnistia Internacional)

Olha conta à Amnistia que estava, como muitas outras pessoas, à espera para entrar na loja quando a bomba atingiu precisamente a porta do estabelecimento.

“Estavam três filas de pessoas à porta das lojas. Era muita gente. Quando o míssil se aproximava, as pessoas fugiram. Mas eu fiquei paralisada pelo medo. Não fui capaz. Se calhar fiquei em choque. Só percebi que não me conseguia mexer. A minha perna esquerda foi cortada no local pela bomba e a minha perna direita ficou seriamente ferida e vou precisar de meses de tratamentos”, conta.

Konstiantyn e Hanna queriam fugir de Kharkiv

Konstiantyn Lymar, de 40 anos, a mulher Hanna Lakhno, de 33, e o amigo Andrii Ihasimov foram os três mortos à porta do prédio onde o casal residia. Foi a 3 de março.

(Fonte: Amnistia Internacional)

“Konstiantyn e Hanna planeavam fugir da Ucrânia. Konstiantyn queria enviar Hanna para casa do pai, na região de Odessa, onde era mais seguro”, conta o amigo Yefim, que tinha estado com eles uma hora antes do ataque.

Os seus corpos ficaram na rua vários dias, cobertos pela neve. O míssil rasgou o corpo de Konstiantyn e provocou ferimentos drásticos em Hanna. Os ferimentos foram tão devastadores que foi difícil identificá-los.

Veronika perdeu a perna no parque infantil

Veronika Cherevychko, de 30 anos e mãe de um menino de nove, perdeu a perna direita na sequência do ataque que atingiu o parque infantil perto de casa, no bairro de Saltivka, na tarde de 12 de março. Veronika viu vários vizinhos morrerem na explosão.

Veronika Cherevychko perdeu a perna direita no ataque que atingiu o parque infantil perto de casa (Fonte: Amnistia Internacional)

“Lembro-me de ouvir o som sibilante antes da explosão. Depois só me lembro de acordar no hospital sem a minha perna. A minha perna direita tinha-se ido embora. Agora a minha vida está dividida em duas partes: antes de 12 de março e depois de 12 de março. Hei de habituar-me a isto. Ainda não me habituei”, diz Veronika.

“Nem sei o que pensar das pessoas que fizeram isto. Nunca as hei de entender. Sei que morreram outras pessoas no ataque, mas não sei quem foi. Estava inconsciente.”

Olena ficou com ferimentos por todo o corpo

Olena, de 44 anos, ficou gravemente ferida na sequência da explosão de uma bomba de fragmentação a 11 de abril no parque infantil perto de casa, no bairro de Saltivka. Sofreu várias fraturas e múltiplas lacerações nas pernas, braços e costas.

Olena sofreu ferimentos um pouco por todo o corpo (Fonte: Amnistia Internacional)

“No hospital tiraram imensos fragmentos do meu corpo. As minhas pernas ficaram partidas e parte do meu couro cabeludo desapareceu. Tenho vários cortes e lacerações e preciso de fazer enxertos de pele. Os meus amigos ficaram gravemente feridos. (…) Só tenho a dizer que estou grata por estar viva”, conta Olena, citada pelo relatório da Amnistia.

Ilkham foi ferido à frente da mãe

O filho de Tetiana Ahayeva, Ilkham, de apenas 18 anos, sofreu ferimentos graves no abdómen na sequência do ataque ao parque da rua Myru. Os médicos que o trataram no hospital mostraram à Amnistia Internacional os fragmentos da arma devastadora que quase levaram a vida do filho de Tetiana.

Ilkham Ahayev foi ferido à frente da mãe (Fonte: Amnistia Internacional)

 

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