Uma "força extra" ou uma "exigência asfixiante": como se lida com o luto num jogo do Mundial? Diogo Jota morreu há um ano

2 jul, 16:00
Diogo Jota
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A seleção deixou claro que quer vencer esta madrugada pelo antigo número 21. O desafio será conseguir transformar a emoção em força coletiva, sem deixar que o peso da homenagem seja maior do que o próprio jogo

Portugal entra esta madrugada em campo para defrontar a Croácia, nos 16 avos de final do Mundial. Mas este dificilmente será apenas mais um jogo. A seleção nacional volta a competir precisamente um ano depois da morte de Diogo Jota e fá-lo praticamente à mesma hora a que ocorreu o acidente que vitimou o internacional português e o irmão.

A memória do número 21 tem acompanhado a equipa desde o arranque da competição. Os jogadores usam, desde o primeiro dia, uma pulseira com o nome do antigo avançado oferecida pelo primeiro-ministro e, nos últimos dias, tanto o selecionador como os jogadores assumiram que querem transformar essa memória numa motivação extra. 

Na antevisão do encontro, Vitinha foi claro: "Não falta motivação para ganhar este jogo. Ainda para mais há esse fator [Diogo Jota]. Temos todas as motivações para ganhar. Vamos dar tudo para ganhar à Croácia. Por nós, pelo país, pelas nossas famílias, pelo Diogo Jota."

Dias antes, Roberto Martínez também não escondeu que o antigo internacional continua muito presente no grupo. 

"O Diogo Jota está sempre na minha cabeça. O jogo será como uma celebração, temos de vencer por ele. Pode ser uma motivação extra para nós, para ganharmos o troféu por ele", afirmou o selecionador nacional.

A seleção acredita que a memória de Diogo Jota pode servir de motivação. Mas, do ponto de vista psicológico, que impacto pode ter a recordação de um companheiro precisamente no dia em que se assinala um ano da sua morte? E onde termina a motivação e começa o peso emocional?

Para António Rosado, psicólogo do desporto, a coincidência da data e até da hora do jogo torna este momento particularmente sensível. Para quem viveu de perto a perda, o acaso pode fazer regressar emoções que pareciam já ultrapassadas. 

"As datas funcionam como âncoras na memória. Coincidir o momento competitivo com o aniversário do trauma pode reativar respostas emocionais subconscientes", explica à CNN Portugal.

Segundo o especialista, essa resposta dificilmente será igual para todos os jogadores. "Pode gerar hiperatividade emocional, como ansiedade ou impulsividade, ou hipoatividade, como apatia ou falta de foco, dependendo da forma como as pessoas lidam com a perda."

E o facto de a partida começar praticamente à mesma hora do acidente "pode intensificar significativamente a resposta emocional dos jogadores", o que contribui para a "vulnerabilidade psicológica".

A pulseira dedicada a Diogo Jota e André Silva. (Karen Warren/AP)

Apesar de já ter passado um ano, António Rosado considera "absolutamente natural e expectável" que a equipa volte a reviver o luto. "Existe a expectativa social de que o luto diminui de forma linear e constante ao longo do tempo, mas a psicologia do trauma demonstra que o luto se move em ondas".

"O primeiro aniversário costuma provocar um pico de dor abrupto, que quebra a aparente estabilidade que o grupo já tinha alcançado nos meses anteriores. Não se trata de um retrocesso na recuperação, mas sim de uma etapa natural do processamento do luto", continua.

A homenagem pode transformar-se em vantagem - ou em pressão

Num contexto competitivo como um Mundial, a emoção não é necessariamente um obstáculo. Mas também não garante melhores exibições.

"O luto, tal como as emoções em geral, funciona como uma fonte de energia que tanto pode ser canalizada para uma motivação competitiva extraordinária como pode transformar-se num obstáculo para o rendimento", explica. 

Quando esse processo é vivido de forma saudável, acrescenta, a equipa consegue dar um novo significado à perda. "O atleta ou a equipa reinterpreta o sofrimento, transformando-o na missão de honrar quem partiu através do seu sucesso. A competição passa a ser vista como um refúgio e uma homenagem prática", o que pode aumentar "a tolerância à dor física, à fadiga e à frustração durante o jogo".

Ao jogar por uma causa maior, diz ainda o psicólogo, "o medo do fracasso individual e coletivo pode diminuir, permitindo ao atleta arriscar mais e jogar de forma mais fluida".

Mas existe também um risco. Um que "representa um dos maiores desafios psicológicos na gestão de equipas". Segundo o psicólogo, tudo muda quando a vontade de homenagear um colega se transforma numa obrigação de vencer.

"A intenção inicial de homenagear - 'queremos jogar por ele' - assenta no orgulho e na união. Contudo, à medida que o jogo se aproxima, essa narrativa pode transformar-se numa exigência asfixiante: 'não podemos falhar, senão vamos desiludir a memória dele'."

Quando isso acontece, explica, a pressão deixa de ajudar.

"Se se criar a falsa equivalência de que 'se perdermos, falhámos com o nosso colega', isso retira a paz de espírito necessária para competir bem. O foco do jogador sai do 'como jogar' e fixa-se no 'e se falharmos?'."

O que seria hoje a seleção com Diogo Jota?

É impossível responder à pergunta do ponto de vista desportivo. Mas, para António Rosado, a ausência do antigo avançado continua a influenciar a seleção numa dimensão menos visível. 

"Quando um elemento importante desaparece abruptamente, a estrutura de um grupo sofre uma transformação profunda. Para lá das táticas e do rendimento desportivo, a equipa perde um pouco da sua identidade coletiva", justifica.

Essa perda, porém, não significa que a influência desapareça. 

"O elemento que desapareceu não deixa de existir na dinâmica do grupo; passa a existir de outra forma. A sua memória transforma-se numa referência cultural e comportamental para o grupo", explica.

É por isso que o psicólogo considera "legítimo" afirmar que Diogo Jota continua, de certa forma, presente na seleção. 

"Na psicologia dos grupos e do trauma, esta permanência não é uma ilusão, mas um fenómeno real de continuidade de laços. A memória do antigo membro não fica guardada no passado, é integrada na rotina diária da equipa."

Os últimos 14 minutos da carreira do futebolista Diogo Jota aconteceram na Allianz Arena, em Munique, ao serviço da seleção portuguesa e acabaram em festa com a conquista da Liga das Nações. (Getty Images)

O legado que fica

Para António Rosado, algumas pessoas deixam uma marca que vai muito além daquilo que faziam dentro das quatro linhas porque "não ocupavam apenas um espaço tático em campo", mas sim "uma função psicológica central na arquitetura invisível do grupo".

São essas pessoas, explica, que continuam a ser recordadas muito depois da sua ausência. "São aquelas que se mostravam autênticas, apoiavam os outros nos momentos de menor fulgor e partilhavam as suas próprias dúvidas e sacrifícios", afirma. "Esta generosidade emocional cria laços de lealdade e afeto que o tempo ou a ausência não conseguem facilmente apagar".

Quando o luto é bem processado, acrescenta, a perda pode até fortalecer a equipa. 

"Equipas que superam a morte de um colega desenvolvem uma perspetiva partilhada mais forte sobre a adversidade. O grupo ganha maior tolerância ao stress competitivo e mantém a calma sob pressão porque já enfrentou o pior cenário emocional possível", afirma António Rosado.

Ao mesmo tempo, "a motivação deixa de ser puramente extrínseca e passa a ser intrínseca e com propósito. O futebol ganha um significado maior: honrar a memória do colega através da excelência, da alegria e da entrega em campo".

As homenagens e os rituais coletivos têm, por isso, explica, uma importância muito mais profunda do que o simbolismo.

"Têm uma importância estruturante e terapêutica na transmutação da dor em memória", esclarece António Rosado. "O ritual é um marcador psicológico que ajuda o grupo a fazer a transição da dor - o choque do acidente - para a memória estruturada, o exemplo de vida."

É esse momento, acrescenta, que permite que um grupo continue a avançar sem esquecer quem perdeu. 

"Através da homenagem, o grupo deixa de chorar apenas a forma como a pessoa partiu e passa a celebrar a forma como a pessoa viveu. É o momento em que o foco muda da ausência física para a presença através dos valores que o homenageado partilhava com o grupo".

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