Que pistola é esta que vários jogadores levaram para o relvado no Qatar?

17 dez 2022, 09:19
Theragun (Getty Images)

Chama-se Theragun e foi criada por empresa de que Cristiano Ronaldo é embaixador. O Manchester City entregou uma a todos os jogadores do clube que estiveram no Mundial 2022, por exemplo, e há até atletas que não abdicam dela nem durante os intervalos. Mas será que veio para ficar ou é só uma moda?

Jordan Henderson deu nas vistas no Qatar ao surgir no relvado, antes dos jogos, com um aparelho em forma de arma. Mais tarde veio a saber-se que aquela máquina que o jogador do Liverpool encostava aos músculos não era exclusiva dele: vários outros atletas a utilizam.

James Baldwin, fisioterapeuta do Manchester City, diz que o aparelho foi fundamental na recuperação de Kyle Walker: o lateral foi operado em outubro e voltou a tempo do Mundial. Por isso todos os jogadores do City levaram um exemplar para o Qatar para se exercitarem.

O suíço Granit Xhaka, o australiano Bailey Wright e o inglês Trent Alexander-Arnold também foram vistos com aquela máquina em momentos fora da competição no Mundial 2022.

Mas afinal o que é aquilo?

Chamada de Theragun, é conhecida como a arma dos músculos e foi desenvolvida por Jason Wersland: um quiroprático norte-americano, que teve um grave acidente de mota e que trabalhou muito para voltar a adquirir mobilidade total nos membros superiores.

Nesta altura vale a pena dizer que a quiropraxia é uma medicina alternativa que melhora a relação existente entre o sistema nervoso e a mobilidade da coluna vertebral.

Ora a partir dos conhecimentos que tinha, Jason Wersland foi desenvolvendo uma espécie de broca elétrica para tratar diretamente as áreas em que sentia dor. O primeiro protótipo foi terminado em 2009, hoje em dia há vários modelos e já se espalhou por todo o mundo.

«A Theragun surgiu em 2016, nesse ano é que foi lançada no mercado, e sobretudo a partir de 2018 ganhou uma visibilidade muito maior», conta a fisioterapeuta Sara Mateus.

«É um dispositivo massajador que trabalha através de percussão e vibração, é um equipamento muito simples e que por ser de fácil manuseamento acabou por se tornar muito popular.»

Atletas referem que utilização aumenta bem-estar e reduz rigidez muscular

João Coito, fisioterapeuta que trabalha com vários internacionais portugueses, diz que a Theragun também já está muito divulgada em Portugal.

«Da experiência que tenho com atletas, sobretudo para aqueles que jogam no estrangeiro, há muitos jogadores portugueses que já a utilizam», diz ao Maisfutebol.

Os preços variam entre os 130 e os 600 euros, dependendo do exemplar. A Theragun é, de resto, comercializada pela Therabody, uma empresa fundada por Jason Wersland, que tem Kevin de Bruyne como investidor e Cristiano Ronaldo como um dos embaixadores.

«Este método combina elementos tipicamente existentes na mensagem convencional com terapia de vibração, sendo utilizada com vários objetivos, entre os quais aumentar a flexibilidade dos tecidos, aumentar o desempenho ou acelerar a recuperação. Até ao momento, porém, não há evidência científica que comprove tais efeitos», sublinha João Coito.

«Mas há outro aspeto que tem de ser levado em consideração, que é o feedback que os atletas nos dão. E nesse sentido geralmente os atletas referem que a utilização deste dispositivo contribuiu para a melhoria do bem-estar e da rigidez muscular a curto prazo.»

Curiosamente é essa capacidade de recuperar da rigidez muscular que muitos clubes apresentam como justificação para a utilização da Theragun.

James Baldwin, o fisioterapeuta do Manchester City, explicou numa entrevista que o Mundial tem um peso físico semelhante a alguns períodos dos maiores clubes europeus, quando os atletas são obrigados a jogar de três em três ou de quatro em quatro dias.

Sobretudo esta temporada, em que as competições foram comprimidas em menos tempo, os clubes tiveram de desenvolver hábitos para acelerar a recuperação física.

«Os jogadores estão habituados ao processo de 'jogar, recuperar, jogar, recuperar'. Por isso o que fizemos foi incentivar os jogadores a continuar esse processo durante o Mundial. Os melhores profissionais sabem o que funciona melhor com eles e a chave para nós é que eles apenas mantenham isso. A Theragun e a JetBoot passaram a fazer parte dessa rotina para eles.»

Jordan Henderson não abdica da arma nem durante as palestras do treinador

No entanto, alguns jogadores consideram que também os ajudar a ativar os músculos.

Jordan Henderson, por exemplo, revela que utiliza a Theragun até durante o intervalo, enquanto ouve a palestra do treinador, de forma a «manter o sangue fluído e os músculos ativados», o que garantir corresponder a um aumento de energia.

«Essencialmente o que a Theragun faz é aumentar o aporte sanguíneo à zona onde a pistola está a ser utilizada, o que permite diminuir as inflamações e reduzir a tensão muscular. Ela pode ser utilizada antes ou depois do exercício físico. No entanto, é importante salientar que há poucos estudos que suportem os benefícios reais», garante a fisioterapeuta Sara Matues.

«O maior benefício referido acaba por ser o aumento do fluxo sanguíneo na zona onde é realizada a terapia, o que diminuiu o ácido lático, reduz a dor associada e diminui o desconforto sentido 24 a 72 horas após a atividade física de alta intensidade. Daí muitos atletas profissionais a utilizarem como técnica pós-treino. Há estudos que indicam que os músculos podem ganhar alguma flexibilidade ou maleabilidade a seguir à utilização da pistola, por haver esse tal relaxamento muscular. Mas em termos de outros resultados, não há até à data qualquer estudo que indique melhoria de performance em termos de intensidade, de velocidade ou de força.»

Mas será que a Theragun veio para ficar ou é apenas mais uma moda como, por exemplo, o cupping tornado popular por Michael Phelps há alguns anos?

«Ainda é muito cedo para dizer», garante Sara Mateus.

«O que vai ditar se é uma coisa que veio para ficar são os estudos que vão surgir nos próximos anos e que vão mostrar se os benefícios são para perdurar, ou não, e se esses benefícios são superiores aos que se obtêm com outras técnicas normais. Até porque é máquina muito fácil de manusear e que todos os atletas podem utilizar sem o apoio de um profissional.»

João Coito assina por baixo e diz ser fundamental esperar pelo surgimento de estudos mais fundamentados e, sobretudo, mais prolongados no tempo.

«Há vantagens, como o facto de ser um dispositivo portátil, de fácil utilização, poder ser utilizado pelo próprio atleta e o preço acessível. Mas tem limitações. Não quebra/desfaz fibroses ou aderências, o que é importante desmitificar- Não tem evidencia científica sólida, há sempre risco de má utilização e os efeitos sentidos são geralmente de curto prazo.»

Para já, no entanto, é seguro que nos próximos tempos ainda vai ver muitos jogadores com um Theragun na mão por esses relvados.

Quando isso acontecer, não se assuste. Esta arma não magoa.

 

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