Um Mundial por dia: 1986, o recreio de Maradona

2 dez 2022, 00:05
Argentina-Alemanha, 1986

Viagem à história do Campeonato do Mundo em histórias, imagens, figuras, números, frases e curiosidades

Enquanto se escreve nova história no Qatar, o Maisfutebol olha para o que está para trás. De 1930 a 2018, um Mundial por dia em pequenas histórias, figuras, números, frases, curiosidades ou o percurso de Portugal. Pistas para recordar do que falamos quando falamos do Campeonato do Mundo.

México 1986

31 maio a 29 junho 1986

Campeão: Argentina

2º lugar: Alemanha (RFA)

3º lugar: França. 4º lugar: Bélgica

Jogos: 52

Golos: 132 (2,54 por jogo)

Melhor marcador: Gary Lineker (Inglaterra), 6 golos

Portugal

A vitória garantida apenas nos últimos minutos sobre Malta, na penúltima jornada, não deixava lugar a grandes otimismos. Mas ainda era possível e o selecionador José Torres, referência de ataque dos Magriços de 1966, pediu que o deixassem sonhar com aquilo que parecia impossível: ganhar na Alemanha na última ronda e esperar que a Suécia perdesse com a Checoslováquia. Aconteceu um e outro milagre: o de Estugarda num pontapé de Carlos Manuel que levou Portugal ao México. Depois, já se sabe. A presença de Portugal no segundo Mundial da sua história, 20 anos depois dos Magriços, virou pesadelo.

O Mundial

Foi o Mundial de Diego Maradona, Deus e vilão na vitória da Argentina. A consagração chegou no Azteca, o primeiro estádio a receber duas finais do Mundial. Apenas 16 anos depois de 1970, o México voltou a receber a competição, ocupando o lugar da Colômbia, que tinha vencido a candidatura mas desistiu a quatro anos do arranque, no meio das exigências da FIFA para um torneio entretanto alargado a 24 equipas.

O formato voltou a mudar, agora para uma fase de grupos seguida de eliminatórias, num Mundial que teve três estreantes: o Canadá, o Iraque e a Dinamarca, a Danish Dynamite que entusiasmou na fase de grupos e terminou à frente da Alemanha, antes de cair perante a Espanha. Outro vencedor de grupo surpresa – à custa de Portugal - foi Marrocos, que se tornou também na primeira seleção africana a chegar aos oitavos de final.

Os quartos de final tiveram no Argentina-Inglaterra aquele que é talvez o jogo mais famoso da história dos Mundiais, mas tiveram também um grande e belo duelo entre o Brasil e a França, campeã da Europa. Em Guadalajara, Platini e companhia levaram a melhor nas grandes penalidades – mesmo depois de o 10 da França ter falhado o seu penálti. Tal como quatro anos antes, uma grande geração do Brasil ficou pelo caminho demasiado cedo. Os Bleus, que já tinham eliminado a campeã em título Itália nos oitavos, cairiam na meia-final frente à Alemanha. Que voltou a terminar como vice-campeã, pelo segundo Mundial seguido. A festa foi da Argentina, campeã do mundo pela segunda vez.

A final

Argentina-Alemanha (RFA), 3-2

Estádio Azteca, na Cidade do México

Argentina: Pumpido, Brown, Cuciuffo, Ruggeri, Olarticoechea, Giusti, Batista, Maradona, Enrique, Burruchaga (Trobbiani, 89m), Valdano. Treinador: Carlos Bilardo

Alemanha: Schumacher, Jakobs, Berthold, Karl-Heinz Förster, Briegel, Matthäus, Brehme, Magath (Dieter Hoeness, 63m), Eder, Rummenigge, Allofs (Völler, 46m). Treinador: Franz Beckenbauer

Marcadores: Brown (1-0, 23m), Valdano (2-0, 56m); Rummenige (2-1, 74m); Völler (2-2, 82m); Burruchaga (3-2, 88m).

Figura

 

Diego Maradona

Nunca um jogador marcou tanto um Campeonato do Mundo. Ao seu segundo Mundial, o 10 pôs a braçadeira de capitão e a capa de super-herói e levou a Argentina até à vitória na ponta do seu pé esquerdo. No génio, na garra, nos dribles, nos golos e nas assistências, em cada minuto da competição. Marcou cinco, deu cinco a marcar: esteve portanto em dez dos 14 golos da Argentina no México. Começou no empate com a Itália na fase de grupos, seguiu com os dois golos para a eternidade frente à Inglaterra e depois com mais um bis noutro jogo sublime, a meia-final frente à Bélgica. Acabou a fazer a assistência para o cabeceamento de Burruchaga que selou a vitória argentina na final. O Mundial 86 deu corpo à lenda de Maradona, mas ela é muito mais do que isso. O menino que nasceu pobre e se fez estrela planetária, o predestinado que jogou quatro Mundiais e se fez rei em Nápoles, encarnou como nenhum outro o génio e a paixão pura e desmedida. A sua morte em novembro de 2020, um mês depois de completar 60 anos, deu a medida do que representou Maradona para gerações e gerações em todo o mundo. Pode recordar aqui algumas das histórias que retratam o génio.

Frase

«Um pouco com a cabeça de Maradona e outro com a mão de Deus»

Ainda no interior do Estádio Azteca, Diego Maradona tentava driblar o enxame de microfones que o rodeava. Até hoje discute-se se ele disse mesmo a frase assim, porque não há registo de imagens. Há quem sugira que foi um jornalista italiano que, insistindo em questionar Diego se tinha marcado com a mão, acabou por atirar: «Então terá sido a mão de Deus?» Ao que Maradona respondeu: «Sim, terá sido.» Seja como for, a expressão que ficaria para a eternidade foi cunhada logo ali. E sim, ele ajeitou a bola com a mão para, com o seu 1,65m, ganhar no ar a Shilton e marcar o primeiro golo. E safou-se com isso. Os ingleses protestaram, mas o árbitro tunisino, Ali Bin Nasser, validou mesmo o golo, sem ter conseguido entender-se com o assistente, o búlgaro Bogdan Dochev – mais tarde puseram as culpas um no outro. Os ingleses nunca perdoaram a batota e ao longo dos anos Maradona fez questão de deitar sal na ferida. No seu livro «Yo soy el Diego», por exemplo, disse que aquele golo teve sabor especial no contexto da guerra das Malvinas, o conflito que quatro anos antes tinha oposto a Inglaterra à Argentina: «Foi como roubar a carteira a ingleses.»

Número

Doze toques de pé esquerdo

A jogada de todos os tempos, chamou-lhe Victor Hugo Morales na narração também ela lendária daqueles doze toques de Maradona a deixar ingleses pelo caminho e a ganhar lugar na eternidade. O golo do século, o golo de todos os tempos. «Barrilete cósmico, de qué planeta viniste?», exclamou o jornalista uruguaio, a exprimir o sentimento de todos os que assistiam, de olhos arregalados de espanto. Naqueles pouco mais de dez segundos, Maradona ainda teve tempo para se lembrar de um reparo do irmão Lalo, a propósito de um lance parecido em Wembley, cinco anos antes, em que rematou demasiado cedo. E esperou o tempo suficiente para bater Shilton. A Argentina começou a ganhar o Mundial ali, naquele jogo mais revisitado do que qualquer outro na história dos Mundiais.

Histórias

O caso Saltillo

Portugal não foi a primeira nem a última seleção a implodir em pleno Campeonato do Mundo, mas Saltillo foi um exemplo de tudo o que não se deve fazer. Os problemas já lá estavam e tinham sido disfarçados pela boa campanha no Euro 1984. Agravaram-se no México, até à rutura entre jogadores e Federação. Na aparência, parecia uma festa, nas imagens que chegavam dos jogadores da seleção, onde brilhava a jovem promessa Paulo Futre, em alegre convívio com a população da localidade de Saltillo. Mas esse longo período de ociosidade não ajudou. Foi mais um sinal de uma preparação desleixada, depois de uma convocatória rodeada de polémica e marcada por um controlo antidoping positivo a Veloso e de uma organização que falhou em coisas tão básicas como a definição de adversários para jogos de preparação. O comunicado lido pelos jogadores a pouco mais de uma semana da estreia no Mundial, a denunciar prémios por acertar e a ameaçar greve, tornou a crise pública. Depois a situação foi amenizada e Portugal até entrou a vencer a Inglaterra, com novo golo de Carlos Manuel. Mas o que começou torto não se endireitou. A grave lesão de Bento, que terminou ali a carreira internacional, foi mais um contratempo. As derrotas com Polónia e Marrocos ditaram o regresso precoce a casa e deixaram sequelas no futebol português que demoraram anos a sanar, desde logo a suspensão de vários jogadores.

Quando Alex Ferguson foi ao Mundial

Poucos se recordarão, mas em 1986 uma circunstância dramática levou Alex Ferguson a orientar a Escócia no Mundial. O ainda treinador do Aberdeen – sairia na época seguinte para se tornar o maior de sempre no Manchester United – fazia parte da equipa técnica da seleção em parti-time e viu-se forçado a assumir a liderança depois da morte súbita de Jock Stein, que sofreu um ataque cardíaco na noite em que a Escócia garantiu a presença no play-off para o Mundial. No México, a Escócia ficou num grupo a que chamaram de morte, com a Alemanha, o Uruguai e Dynamite dinamarquesa. Perdeu os dois primeiros jogos, mas ainda tinha hipóteses de apuramento na decisão frente ao Uruguai. Ferguson deixou o veterano Graeme Souness de fora - mais tarde disse que foi um erro - para um jogo que foi tenso e ficou marcado pela expulsão mais rápida da história dos Mundiais, quando Batista viu o vermelho aos 56 segundos por uma entrada por trás sobre Gordon Strachan. A Four Four Two recorda as palavras que disse no final um furioso Alex Ferguson, acusando o Uruguai de anti-jogo e violência e referindo-se de caminho aos tempos difíceis que vivia o futebol britânico, com a morte de Stein e a tragédia do Heysel, um ano antes: «Depois do que aconteceu hoje e dos traumas que aconteceram no mundo do futebol no ano passado, digo-vos que estou feliz por ir para casa, acreditem, porque nada disto faz parte do futebol como o vimos durante anos e anos.»

O monumento de Negrete

O brilho de Maradona ofuscou quase tudo o resto, mas houve muito mais que contar em 1986, o Mundial que teve no Brasil e na França duas grandes seleções que se defrontaram num jogo memorável. E que teve também outros grandes golos. Alguns dias antes de Maradona fazer magia, o Azteca assistiu a outro monumento assinado pelo mexicano Negrete. Chamem-lhe pontapé à meia volta, golo na horizontal ou remate de tesoura, foi uma obra de arte aquela que construiu frente à Bulgária o médio que rumaria depois ao Sporting. Em 2018 o golo de Negrete foi eleito, numa votação online promovida pela FIFA, o melhor de sempre em Mundiais.

 

Leia aqui mais informação sobre os Mundiais, os resultados e as histórias contadas no livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», do Maisfutebol

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