Um Mundial por dia: 1974, quando a Alemanha ganhou mas a revolução foi o «Futebol Total»

29 nov 2022, 00:05
Cruijff e Beckenbauer na final do Mundial 1974 (Lusa)

Viagem à história do Campeonato do Mundo em histórias, imagens, figuras, números, frases e curiosidades

Enquanto se escreve nova história no Qatar, o Maisfutebol olha para o que está para trás. De 1930 a 2018, um Mundial por dia em pequenas histórias, figuras, números, frases, curiosidades ou o percurso de Portugal. Pistas para recordar do que falamos quando falamos do Campeonato do Mundo.

Alemanha 1974

13 junho a 7 julho 1974

Campeão: Alemanha (como RFA)

2º lugar: Países Baixos

3º lugar: Polónia. 4º lugar: Brasil

Jogos: 38

Golos: 97 (2,55 por jogo)

Melhor marcador: Grzegorz Lato (Polónia), 7 golos

Portugal

A seleção nacional voltou a falhar a qualificação, depois de terminar em segundo num grupo que integrava Bulgária, Irlanda do Norte e Chipre. Mais uma vez não começou mal, mas depois da dupla vitória sobre o Chipre a abrir a campanha a seleção não venceu mais nenhum jogo. Após um empate na Irlanda do Norte e de uma derrota em Sófia, a decisiva receção à Bulgária terminou com um empate amargo (2-2), que assinalou de caminho a despedida dos últimos Magriços, a começar por Eusébio, que saiu lesionado no decorrer da primeira parte. Sete anos depois do Mundial 66, este foi ainda o último jogo pela seleção de Simões e Torres.

O Mundial

Mais uma vez houve uma seleção a conquistar o coração dos adeptos, e mais uma vez quem ganhou foi a Alemanha. Vinte anos depois da Hungria, agora foram os Países Baixos, com a equipa que deu corpo a um carrossel de futebol coletivo liderado pelo génio de Johan Cruyff, a cair na final frente à «Mannschaft», comandada pelo «Kaiser» Beckenbauer.

A então República Federal da Alemanha organizou pela primeira vez o Campeonato do Mundo, que inaugurou uma novidade no formato. A explorar o crescente potencial comercial da competição, uma segunda fase de grupos substituiu os quartos e as meias-finais, garantindo mais seis jogos.

Sem seleções como Inglaterra, França ou Espanha, que falharam a qualificação, houve lugar a várias estreias. Foi a primeira vez da «outra» Alemanha, a RDA, enquanto a Austrália foi a primeira seleção da Oceânia a qualificar-se, no tempo em que ainda não se tinha mudado para a confederação asiática.

Em campo, a Itália caiu logo na primeira fase de grupos, tal como o Uruguai. Na segunda ronda os Países Baixos dominaram a toda a linha o seu grupo, acabando a vencer um Brasil já muito longe do fulgor de 1970. O outro grupo teve também uma RFA dominadora, depois do susto na primeira fase, quando terminou em segundo lugar atrás da RDA. Foi secundada por uma notável Polónia, que garantiria o terceiro lugar frente ao Brasil.

A final começou praticamente com os Países Baixos a vencer, num penálti convertido por Neeskens após falta sobre Cruyff. Aos 25 minutos foi a RFA a beneficiar de uma grande penalidade para igualar. Ainda antes do intervalo, o segundo título mundial da Alemanha foi entregue pelo bombardeiro Gerd Müller, que fechava ali o seu incrível registo de 14 golos marcados em apenas duas edições do Campeonato do Mundo. Essa marca apenas foi superada em 2006 pelo brasileiro Ronaldo. 

A Final

Países Baixos-Alemanha, 1-2

Estádio Olímpico, Munique

Países Baixos: Jongbloed; Suurbier, Rijsbergen (De Jong, 69), Haan, Krol, Neeskens, Jansen, Van Hanegem, Rep, Cruijff e Rensenbrink (Van de Kerkhof, 46). Treinador: Rinus Michels

Alemanha: Maier; Vogts, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Breitner; Overath, Hoeness, Bonhof, Grabowski, Müller e Hölzenbein. Treinador: Helmut Schön

Golos: Neeskens (0-1, 2m gp), Breitner (1-1, 25m gp), Müller (2-1, 43m)

 

Figura

 

Johan Cruyff

No original escreve-se Cruijff, mas ele próprio, pragmático e visionário, acabou por adotar a versão internacional do nome que identifica talvez a personalidade mais marcante que passou pelo jogo. 1974 é o Mundial da consagração de Franz Beckenbauer, o líder da campeã Alemanha e referência de sempre da competição, mas foi também o único que teve o privilégio de ter em campo Johan Cruyff, o capitão e farol de talento e liderança daquela seleção que seduziu o mundo. Aquela passagem pelo Mundial da Alemanha condensa um pouco de tudo o que foi Cruyff. O fenómeno que explodiu no Ajax chegou com estatuto de estrela ao Campeonato do Mundo e confirmou-o em campo. A jogar e a marcar – bisou na goleada à Argentina e fez o segundo na vitória sobre o Brasil, na segunda fase de grupos, além de ter ganho o penálti que abriu o marcador na final. A inovar: ao segundo jogo, o nulo com a Suécia, inventou a finta que leva até hoje o seu nome, a Cruyff Turn. Tão desconcertante como o movimento é a explicação para o ter feito: «Estava ali um adversário e eu tinha de o passar. Aquela era a forma mais fácil.» A marcar posições: fez questão de usar o seu número 14 nas costas, furando a lógica de numeração por ordem alfabética da equipa, numa camisola a que arrancou uma das três riscas, em protesto por o patrocínio da marca que vestia a seleção não envolver os jogadores. Perdura até hoje a influência de Cruyff, o génio de elegância e inteligência em campo, o treinador que inspirou gerações – Pep Guardiola é o seu mais notório discípulo – o ideólogo que provocou, questionou, abalou convicções e deixou um imenso legado de ideias e conceitos, alguns dos quais estão aqui, retirados da autobiografia a que chamou «My Turn», um trocadilho com a finta de 1974. E que deixou frases imortais. Muitas delas estão aqui, mas fiquemos só com duas, clássicas. Esta: «Jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é o mais complicado que há». Ou esta: «Se quisesse que entendesses tinha explicado melhor.»

A Cruyff Turn explicada pelo próprio:

Cruyff no Mundial 74

Frase

 

«No fim de contas talvez tenhamos sido os grandes vencedores. O mundo lembra-se mais da nossa equipa.»

Em setembro de 2014, 40 anos depois do Mundial 1974 e 18 meses antes da sua morte, Johan Cruyff refletia assim, numa entrevista ao Guardian, sobre aquele Campeonato do Mundo e o legado dos Países Baixos, a equipa que deu corpo à revolução a que chamaram «Futebol Total». Liderada no banco por Rinus Michels, o treinador que aperfeiçoara no Ajax essa filosofia de jogo que assentava na dinâmica coletiva, na inteligência e na mobilidade, aquela Holanda – ainda lhe chamávamos assim naquele tempo – sublimou esses princípios no Mundial, conciliando um grupo de jogadores assente em dois clubes, Ajax e Feyenoord, num jogo de movimento permanente. Depois do Mundial, Cruyff dava a medida da inovação que os Países Baixos levaram para os relvados da Alemanha, recordando o jogo de estreia. «Quando jogámos com o Uruguai, cinco jogadores estreavam posições: o guarda-redes nunca tinha sido titular, o líbero sempre fora médio, o central nunca jogara nesse lugar, Neeskens jogou no posto que era habitualmente de Janssen e Janssen foi para a vaga deixada por Haan no meio-campo», disse: «Quando os jornalistas falavam do nosso bloco homogéneo, nem nós conseguíamos perceber como tinha sido possível.» Na final, o penálti assinalado por falta sobre Cruyff para o 1-0 chegou depois de 17 passes seguidos entre os jogadores de laranja, um longo primeiro minuto de jogo sem que a Alemanha tocasse na bola. Depois a «Mannschaft» deu a volta e levou a taça. Mas, como diz Cruyff, foi aquela ideia revolucionária em forma de equipa que trouxe um mundo novo ao jogo, inspirou gerações e perdura até hoje. 

Número

36.8 cm para o novo sonho de ouro

A Taça Jules Rimet foi entregue em 1970 ao tricampeão Brasil – até desaparecer em 1983, roubada da sede da CBF, tendo provavelmente acabado derretida. Curiosamente, sobreviveu ao tempo uma parte do troféu original: a base, que tinha sido substituída por uma mais alta em 1954, foi encontrada nas caves da sede da FIFA em 2015. Voltando a 1970. Depois de entregar em definitivo a Jules Rimet, a FIFA lançou um concurso para a criação de um novo troféu. Houve 53 candidaturas e o vencedor foi o italiano Silvio Gazzanigga e a sua escultura de linhas que vão desenhando dois atletas segurando o globo terrestre. A Taça do Campeonato do Mundo, o objeto mais cobiçado do planeta futebol, mede 36.8 cm – apenas mais 1,5 cm do que a Jules Rimet -, pesa 6.175 kg, é de ouro e tem uma base de 13 centímetros, entremeada por dois anéis em malaquite. A Alemanha, em 1974, foi a primeira equipa a vencer o novo troféu. Também foi a primeira tricampeã desde a sua criação, com o título de 2014, mas não levou a taça para casa. O troféu original não será entregue em definitivo. Atualmente, nem fica à guarda do campeão em título, que recebe em vez disso uma réplica.

Histórias

O duelo de Alemanhas sorriu ao Leste

Numa das ironias em que o Mundial é fértil, o sorteio colocou no mesmo grupo RFA e RDA, as duas metades da Alemanha separadas pelo Muro de Berlim. Chamaram-lhe «Jogo de irmãos». Em plena Guerra Fria, o significado político daquele duelo num mundo e num país dividido entre dois blocos era enorme, mas a RFA teve de criar condições para que o jogo se realizasse. Defrontaram-se na última jornada, onde ambas as equipas chegaram já apuradas, mas com o primeiro lugar em jogo. Jogou-se no Volksparkstadion de Hamburgo e a Alemanha do Leste venceu mesmo, com um golo de Sparwasser ao minuto 78. Mais tarde, o antigo médio resumiu assim o significado daquele golo: «Se um dia na minha campa estiver apenas escrito ‘Hamburgo 74’, toda a gente saberá na mesma quem está ali enterrado.» No campo, o jogo foi bem menos tenso do que se antecipava e no fim os jogadores até trocaram camisolas – mas no túnel de acesso aos balneários, porque estavam impedidos de o fazer em público. Em 2002, Paul Breitner ofereceu a camisola que tinha trocado com Sparwasser para ser doada numa iniciativa de solidariedade. O primeiro lugar seria uma espécie de presente envenenado para a RDA, na sua única presença numa grande competição - foi parar na segunda fase ao grupo que tinha Brasil, Países Baixos e Argentina e ficou pelo caminho. A RFA avançou até à vitória no Mundial e aquela derrota, a única que sofreu na competição, valeu pelo susto e pela chamada de atenção, diria mais tarde Franz Beckenbauer: «O golo de Sparwasser acordou-nos. Sem ele não teríamos sido campeões do mundo.»

A vergonha do jogo-fantasma

A última barreira de acesso ao Mundial 1974 era um play-off intercontinental entre a Europa e a América do Sul, a que chegaram a URSS e o Chile. A decisão começou poucos dias depois do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 que derrubou o governo de Salvador Allende e instituiu a ditadura militar de Augusto Pinochet. Depois de uma primeira mão em Moscovo que terminou sem golos, a URSS recusou jogar no Estádio Nacional de Santiago do Chile, que a ditadura usava para torturar presos políticos. A FIFA promoveu uma inspeção ao local que não viu nada de mal, porque nesse dia o regime tinha transferido os presos para outro local. A URSS foi desqualificada e o Chile ganhou o lugar. E a 21 de novembro encenou o «jogo» da segunda mão. Há imagens para provar que aquilo aconteceu mesmo. Sozinhos em campo, os jogadores do Chile avançaram a passo, até o capitão Valdés introduzir a bola na baliza deserta. Os jogadores celebraram a presença no Mundial e o árbitro deu aquilo por terminado. Eduardo Galeano chamou-lhe o jogo mais triste da história. Estavam 20 mil nas bancadas, porque para «compor» o momento o Chile tinha convidado o Santos para um jogo particular, que aconteceria a seguir à farsa do jogo fantasma. 

 

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