Um Mundial por dia: 1970, a perfeição no tri de Brasil e de Pelé

28 nov 2022, 00:05
Brasil 1970

Viagem à história do Campeonato do Mundo em histórias, imagens, figuras, números, frases e curiosidades

Enquanto se escreve nova história no Qatar, o Maisfutebol olha para o que está para trás. De 1930 a 2018, um Mundial por dia em pequenas histórias, figuras, números, frases, curiosidades ou o percurso de Portugal. Pistas para recordar do que falamos quando falamos do Campeonato do Mundo.

México 1970

31 maio a 21 junho 1970

Campeão: Brasil

2º lugar: Itália

3º lugar: Alemanha (RFA); 4º lugar: Uruguai

Jogos: 32

Golos: 95 (2,97 por jogo)

Melhor marcador: Gerd Müller (Alemanha), 10 golos

Portugal

O Mundial 66 seria, infelizmente para a seleção nacional, um oásis. Depois da dissolução da equipa técnica formada por Manuel da Luz Afonso e Otto Glória e da perda de algumas referências, Portugal voltou a enredar-se em expectativas falhadas, primeiro na corrida ao Europeu de 1968 e depois na qualificação falhada para o Mundial 70. Nem começou mal, mas a vitória sobre a Roménia (3-0) na primeira jornada seria a única em seis jogos, numa campanha a que se seguiu uma embaraçosa derrota na Grécia (4-2) e outra em casa com a Suíça. Ao fim de mais dois empates e uma derrota, a seleção terminava em último lugar do grupo.

O Mundial

O México foi o palco de um Mundial que fica para a história como o triunfo do jogo bonito. Nunca uma seleção seduziu tantos adeptos como o Brasil de 1970, com um ataque de luxo liderado por Pelé.

O primeiro Campeonato do Mundo transmitido a cores e em direto foi memorável, apesar de se ter jogado em altitude e com muitos jogos em pleno dia, ao jeito dos espectadores europeus. Em campo rolou a primeira bola oficial – a Telstar – e a estreia das substituições e dos cartões amarelos e vermelhos lançava uma nova era, naquele que foi também o primeiro Mundial a dar entrada direta a uma seleção africana, lugar garantido por Marrocos.

Estavam presentes todos os campeões do mundo anteriores: Inglaterra, Alemanha, Itália e Uruguai, além do Brasil. Todos se colocaram a salvo de sobressaltos na primeira fase, que teve desde logo um mediático Inglaterra-Brasil (1-0).

O Mundial com a melhor média de golos desde 1954  teve ainda uma meia-final para a história entre Itália e Alemanha (4-3). Mas teve, sobretudo, a fantasia de um grande Brasil, que ganhou o direito a ficar em definitivo  com a Taça Jules Rimet, privilégio de tricampeão.

A Final

Brasil-Itália, 4-1

Estádio Azteca, na Cidade do México

Brasil: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino

Treinador: Mário Zagallo

Itália: Albertosi, Burgnich, Cera, Bertini (Juliano, 75), Rosato, Facchetti, Domenghini, De Sisti, Mazzola, Boninsegna (Rivera, 84) e Riva

Treinador: Ferrucio Valcareggi

Golos: Pelé (1-0, 18m), Boninsegna (1-1, 37m), Gerson (2-1, 66m), Jairzinho (3-1, 71m), Carlos Alberto (4-1, 86m)

 

Figura

Pelé

Outra vez ele. O único jogador três vezes campeão do mundo, três títulos em quatro presenças no Mundial, doze anos de intervalo entre o primeiro e o último. Depois de brilhar ainda adolescente em 1958, de se lesionar a meio da caminhada para o título em 1962 e de passar diminuído pelo falhanço do Brasil em 1966, Pelé chegava ao México com 29 anos e, se muitos questionavam se ainda teria o que era preciso, depressa acabou com as dúvidas, arrancando para um campeonato em que aliou o talento de sempre à maturidade, que colocou ao serviço de uma equipa de luxo. A estreia frente à Checoslováquia foi o primeiro sinal de que aquela podia ser a melhor versão de Pelé. Coroou a exibição com um golo, depois voltou a ser decisivo no passe para Jairzinho marcar frente à campeã em título Inglaterra, a seguir bisou com a Roménia. O último ato, a final com a Itália, começou a ser decidido num voo suspenso de Pelé para o golo que abriu o marcador, o último dos seus 12 golos em Mundiais. Acabou levado em ombros, a consagração definitiva do eterno Rei.

 

Frase

«Banks foi o único guarda-redes que defendeu um golo meu»

Aquele nem foi o primeiro grande não-golo de Pelé nesse Mundial. Esse aconteceu logo no jogo de estreia, quando tentou explorar o adiantamento do guarda-redes Ivo Viktor com um chapéu de muito longe que passou a centímetros do poste – disse mais tarde que tinha percebido que os guarda-redes europeus saíam muitas vezes da linha. No jogo seguinte, ainda com o marcador a zeros, Gordon Banks fez-se eterno quando se atirou para a direita, a um cabeceamento de Pelé, e com a mão fez a bola sofrer um desvio que desafiou as leis da física. Chamaram-lhe a defesa do século. Pelé e Banks tornaram-se amigos e voltaram muitas vezes a recordar aquele momento. O Rei, que marcou mais de mil golos na carreira, nunca esqueceu os que não entraram naquele Mundial. «Às vezes sonho com os dois batendo na rede», escreveu na sua autobiografia.

A defesa de Banks

E o outro não-golo de Pelé em 1970

 

Número

9 jogadores no golo perfeito

O Brasil seduziu o mundo naquele Mundial, num percurso imaculado. Um jogo que encantou e que se traduziu num domínio absoluto, o triunfo do futebol-arte a toda a linha: seis vitórias em seis jogos, 23 golos marcados e apenas dois sofridos. Mario Zagallo, bicampeão em 1958 e 1962, sucedeu ao genial e controverso João Saldanha, afastado em definitivo pelo governo de ditadura militar, e tornou-se o primeiro campeão do mundo como jogador e treinador, depois de conseguir conciliar em campo o incrível talento de um ataque de sonho: Jairzinho, Rivelino, Tostão, Pelé. Venceram três campeões do mundo até ao título – a Inglaterra na fase de grupos, o Uruguai na meia-final, um triunfo duplamente simbólico, a enterrar o trauma do Maracanazo, e depois a Itália, incapaz de fechar caminhos perante aquela avalanche de talento. Para fechar, o Brasil selou o tricampeonato com o golo perfeito de sintonia coletiva. No 4-1, passou por nove jogadores – só não tocaram na bola o guarda-redes Félix e o central Brito - até terminar no remate de Carlos Alberto, a um passe subtil de Pelé. Para recordar aqui, acompanhado de entrevistas de Jairzinho e Tostão ao Maisfutebol a evocar esse verão perfeito.

 

Histórias

O Kaiser e uma derrota para a lenda

Este foi também o Mundial de Gerd Müller, o «Bombardeiro» que marcou 10 golos na caminhada da Alemanha até à meia-final. Mas das muitas histórias do México emergiu a lenda de Franz Beckenbauer. A estrela do Bayern Munique já se tinha apresentado ao mundo em 1966, aos 20 anos, bisando na estreia frente à Suíça e jogando cada jogo na caminhada da Alemanha até à final perdida para a Inglaterra. Quatro anos mais tarde, o homem que definiu a posição de líbero, o defesa que lançava o jogo ofensivo da equipa, liderou com um grande golo a épica reviravolta frente à Inglaterra nos quartos de final. E foi exemplo de liderança naquele a que chamaram Jogo do Século. A Itália calculista que tinha passado a fase de grupos com um único golo marcado venceu por 4-3, mas só depois de um jogo levado para prolongamento num golo de Schnellinger nos descontos e que a partir daí desafiou toda a lógica, com cinco golos naqueles 30 minutos extra. A acentuar o drama, Beckenbauer sofreu uma luxação na clavícula mas continuou em campo, de braço ao peito. A imagem definiu para sempre o Kaiser, o Imperador que quatro anos mais tarde capitaneou a «Mannschaft» e conquistou enfim o Mundial. E que em 1990 levou a Alemanha a novo título, agora como treinador. No campo, no banco e mais tarde nos gabinetes – foi presidente do Bayern e da organização do Mundial 2006, implicado também ele nas muitas polémicas que envolveram a FIFA e a atribuição desse e dos Mundiais de 2018 e 2022 -, o homem que venceu duas vezes a Bola de Ouro, três vezes a Taça dos Campeões Europeus e ainda foi campeão da Europa em 1972 é uma das figuras mais marcantes da história do jogo. E do Campeonato do Mundo.

 

Honduras-El Salvador, futebol na antecâmara de uma guerra

Chamaram-lhe a Guerra do Futebol, mas não foram os jogos entre Honduras e El Salvador a desencadear o conflito. A tensão entre os dois países vizinhos, centrada numa disputa por terras agrícolas, na expulsão compulsiva pelas Honduras de emigrantes salvadorenhos e em enorme convulsão social, acumulava-se. Foi no meio desse ambiente que se deu a coincidência de as duas seleções acabarem a disputar entre si um lugar no Mundial 1970. Os dois primeiros jogos da segunda ronda de qualificação ficaram marcados por incidentes, tal como a partida de desempate, no México, que se realizou sob forte dispositivo policial. Naquele dia em que El Salvador venceu por 3-2, o governo do país cortou formalmente relações diplomáticas com as Honduras. Duas semanas mais tarde, começou um conflito armado que durou quatro dias, 100 horas que terão causado mais de duas mil mortes, na maioria civis, e muitos milhares de desalojados. El Salvador garantiu a estreia no Mundial depois de jogar um último play-off frente ao Haiti. No México, sofreu três derrotas e não conseguiu marcar qualquer golo, numa participação que fica marcada por um momento insólito: um livre que devia ser favorável a El Salvador foi aproveitado pelo México para marcar, desencadeando uma enorme confusão, resolvida pelo árbitro apitando para o intervalo.

Leia aqui mais informação sobre os Mundiais, os resultados e as histórias contadas no livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», do Maisfutebol

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