Um Mundial por dia: 1958, com o menino Pelé o Brasil enfim deu certo

Ontem às 00:05
Brasil 1958

Viagem à história do Campeonato do Mundo em histórias, imagens, figuras, números, frases e curiosidades

Enquanto se escreve nova história no Qatar, o Maisfutebol olha para o que está para trás. De 1930 a 2018, um Mundial por dia em pequenas histórias, figuras, números, frases, curiosidades ou o percurso de Portugal. Pistas para recordar do que falamos quando falamos do Campeonato do Mundo.

Suécia 1958

8 a 29 junho de 1958

Campeão: Brasil

2º lugar: Suécia

3º lugar: França. 4º lugar: Alemanha (RFA)

Jogos: 35

Golos: 126 (3,6 por jogo)

Melhor marcador: Just Fontaine (França), 13 golos

Portugal

A qualificação europeia decidiu-se em grupos de três equipas e Portugal começou em tom cinzento, com um empate frente à Irlanda do Norte (1-1) no então novo Estádio de Alvalade. A derrota por 3-0 na visita a Belfast complicou as contas mas Portugal, naqueles tempos de altos e baixos de uma seleção capaz do melhor e do pior, faria a seguir um jogo enorme, liderada por um endiabrado Matateu, batendo a Itália (3-0) naquela que seria a primeira vitória de sempre na corrida ao Mundial. De nada adiantou para a qualificação. A derrota em Milão voltou a adiar a estreia portuguesa. Mas a Itália, que perdeu na Irlanda do Norte na última jornada e até tinha naturalizado dois campeões do mundo pelo Uruguai, Ghiggia e Schiaffino, também ficou de fora, na última vez que falharia um Campeonato do Mundo até 2018. E depois 2022.

O Mundial

O Brasil deu certo, por fim. O adolescente Pelé e o talento puro de Garrincha eternizaram a campanha de uma seleção brasileira que aliava a qualidade técnica a um sistema tático inovador, depois de uma preparação bem mais metódica do que nos Mundiais anteriores.

O Mundial assinalou a estreia da URSS, a antiga União Soviética, e tinha várias outras seleções com ambições fortes. Não tinha, em contrapartida, o bicampeão Uruguai, que falhou a qualificação, tal como a Espanha, além da Itália.

A Inglaterra aparecia por sua vez enfraquecida, quatro meses depois do desastre de Munique, que vitimou oito jogadores do Manchester United. O regresso da Argentina, após 20 anos de ausência autoimposta, foi um fiasco: a Celeste despediu-se na primeira fase, vergada ao peso daquela que seria a sua maior derrota de sempre: 1-6 frente à Checoslováquia.

A campeã em título Alemanha avançou até à meia-final, perdida para a anfitriã Suécia, enquanto a França caiu frente ao futuro campeão Brasil, antes de golear a «Mannschaft» (6-3) no jogo pelo terceiro lugar. Na final, o palco foi da fantasia do escrete, que voltou a casa para uma longa parada de aclamação de um país que espantava finalmente os fantasmas e o trauma do Maracanazo.

A Final

Brasil-Suécia, 5-2

Estádio Rasunda, em Solna

BRASIL – Gilmar; Djalma Santos, Orlando, Bellini, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo. Treinador: Vicente Feola

SUÉCIA - Svensson; Bermark, Gustavsson, Parling, Axbom, Börjesson, Hamrin, Gren, Simonsson, Liedholm e Skoglund. Treinador: George Reynor

Golos: Liedholm (0-1, 4m), Vavá (1-1, 9m), Vavá (2-1, 32m), Pelé (3-1, 55m), Zagallo (4-1, 68m), Simonsson (4-2, 80m), Pelé (5-2, 90m)

 

Figura

Pelé

15 de junho de 1958, Gotemburgo. Um miúdo de 17 anos entra em campo e em menos de duas semanas tem o mundo a seus pés. Edson Arantes de Nascimento foi um talento precoce e já era estrela no Brasil quando chegou ao Mundial. Aliando uma notável autoconfiança ao talento feito de força, velocidade, mobilidade e um sem fim de recursos, mais uma incrível capacidade goleadora, Pelé precisou de apenas quatro jogos, pontuados por seis golos, para fazer daquele o seu Mundial. Decidiu os quartos de final com Gales, marcou um hat-trick na vitória sobre a França na meia-final e bisou na decisão frente à Suécia: o primeiro depois de um incrível chapéu ao último defesa, o segundo num cabeceamento sobre o guarda-redes, a fechar o triunfo do escrete por 5-2. «Depois do quinto golo, tive vontade de aplaudir», disse mais tarde o sueco Sigge Parling. Pelé terminou o jogo em lágrimas, levado em ombros pelos companheiros. Era o mais jovem campeão do mundo de sempre, seria daí para a frente uma estrela planetária. Chamaram-lhe Rei e aquela foi apenas a sua primeira coroa.

 

Frase

«Os maiores três minutos da história do futebol mundial»

A frase de Gabriel Hanot, o jornalista que entre muitas outras coisas foi o ideólogo das competições europeias, virou mito para recordar o início daquele Brasil-URSS da última jornada da fase de grupos, o jogo em que Garrincha e Pelé se mostraram ao mundo. Ambos tinham ficado de fora dos dois primeiros jogos do Brasil, mas depois do 0-0 com a Inglaterra - o primeiro nulo da história da competição -, o treinador Vicente Feola decidiu inclui-los na equipa para o decisivo último jogo com a URSS: entrou Pelé, que chegara ao Mundial com limitações físicas, e entrou Garrincha, que também tinha ficado à espera do seu momento. Aos 40 segundos Garrincha tirou dois adversários da frente e rematou ao poste, menos de um minuto mais tarde foi Pelé a chutar à trave e aos três minutos Didi serviu Vavá para o 1-0. O Campeonato do Mundo descobria o futuro.

Número

13 golos, o recorde de Just Fontaine

O Brasil de Pelé, Garrincha, Didi ou Vavá tinha talento para dar e vender, mas o Mundial de 1958 teve o privilégio de ver em campo muitos outros grandes nomes, do francês Raymond Kopa ao guarda-redes Lev Yashin. Além do fenómeno goleador que foi Just Fontaine, o avançado francês que marcou 13 golos na Suécia, mais do que qualquer outro jogador num único Mundial. Nascido em Marraquexe, Fontaine atingiu o auge da carreira de clubes no Stade de Reims, onde jogou em 1959 a final da Taça dos Campeões Europeus, perdida para o Real Madrid. Na seleção, o seu instinto frente à baliza traduziu-se em números incríveis e inigualáveis: ao longo dos sete anos em que vestiu a camisola da França, marcou 30 golos em apenas 21 jogos e é até hoje o jogador com melhor média de golos por jogo dos Bleus. Figura maior daquele que foi o primeiro grande Mundial da França, que só caiu na meia-final com o Brasil, fechou a competição com um póquer frente à Alemanha na vitória (6-3) pelo terceiro lugar.

Histórias

Harry Gregg, o herói de Munique

No único Mundial em que estiveram presentes as quatro Home Nations britânicas, a estreante Irlanda do Norte foi a única a passar a primeira fase, apurando-se à frente de dois pesos-pesados, Checoslováquia e Argentina. Na baliza, nessa caminhada até aos quartos de final, tinha Harry Gregg, o homem que o mundo ficou a conhecer como o herói de Munique. Jogador do Manchester United, Gregg seguia no avião que em fevereiro se despenhou a tentar descolar do aeroporto alemão. Sobreviveu e no meio do caos que se seguiu ajudou a resgatar oito pessoas dos escombros, entre eles Bobby Charlton ou o treinador Matt Busby. Quatro meses mais tarde, ocupou o seu lugar frente aos postes e foi referência da Irlanda do Norte, com uma presença que lhe valeu a eleição para a equipa ideal da competição, numa votação de jornalistas e especialistas. A história de Harry Gregg está aqui, contada por ele ao Maisfutebol.

O psicólogo que «chumbou» Pelé e Garrincha

O Brasil preparou-se a fundo para o Mundial 1958, com uma equipa multidisciplinar na comitiva que incluía até um psicólogo, algo inédito para a época. Chamava-se João Carvalhaes e submeteu os jogadores a uma série de testes e as conclusões a que chegou em relação aos dois craques da seleção viraram anedota: considerou Pelé demasiado imaturo e Garrincha demasiado irresponsável. Pelé falou sobre isso na sua autobiografia: «Felizmente, para mim e para o Garrincha, o Feola sempre se deixava guiar mais por seus instintos do que pelos conselhos dos especialistas. Ele se limitou a balançar a cabeça gravemente, dizendo: 'Você pode estar certo. O problema é que você não entende nada de futebol. Se o joelho do Pelé está bom, ele joga!’» Mas para lá das piadas o trabalho de Carvalhaes, segundo recorda a BBC num artigo publicado em abril deste ano, foi precursor e valorizado por vários jogadores. O mítico lateral Nilton Santos disse que a equipa aprendeu «a entrar em campo sorrindo», e o guarda-redes Gilmar contava que Carvalhaes deu aos jogadores ferramentas para «melhorar o desempenho»: «Nós só viemos a saber depois que isso funcionava.»

Leia aqui mais informação sobre os Mundiais, os resultados e as histórias contadas no livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», do Maisfutebol

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