Caro Manuel Albino Morim Maçães: o Inácio espera que vocês fujam "das situações de contacto"

27 nov, 08:00
Bino

FUTEBOL || Há 25 anos, Inácio tornou o jogador Manuel Albino Morim Maçães campeão nacional. Pelo Sporting. Agora, o treinador Manuel Albino Morim Maçães pode ser campeão mundial. Por Portugal. Manuel Albino Morim Maçães é Bino para quem hoje está ansioso pelo grande jogo - e Bino é selecionador dos sub-17, o Portugal-Áustria começa pelas 16:00 e é a final do mundial da categoria. Nota relevante: é a primeira vez que Portugal chega a uma final mundial deste escalão

Antes de tudo, o óbvio - mas é um óbvio relevante: na imagem anterior é o treinador Bino a ser erguido pelos seus jogadores, na imagem que vem a seguir a estas palavras é o treinador Inácio a ser levantado há 25 anos pelos seus futebolistas. E um dos de Inácio naquele tempo era o próprio Bino, o Bino jogador. O futebol está definitivamente repleto de ciclos emocionantes, portanto falemos com Inácio sobre Bino a propósito das coisas comoventes que podem acontecer das 16:00 em diante.

Augusto Inácio nas celebrações da conquista do título pelo Sporting, a 14 de maio de 2000 foto Getty

Augusto Inácio acredita que Portugal "pode ser pela primeira vez campeão mundial de sub-17" - afinal, já foi campeão da Europa neste escalão, "a expectativa era de que Portugal pudesse fazer um grande mundial e está a fazê-lo". "Portugal está na final pela primeira vez num campeonato do mundo de Sub-17. Os miúdos têm demonstrado uma capacidade mental muito grande num sistema de jogo em que se sentem confortáveis. O Bino está a levar as coisas para o lado competitivo, da união e da unidade dentro do relvado. As coisas estão a correr bem e Portugal merece estar nesta final."

Na época 1999/00, Inácio pegou num Sporting despedaçado que não era campeão há 18 anos. No plantel havia Beto Acosta, Peter Schmeichel, Pedro Barbosa, De Franceschi - e Manuel Albino Morim Maçães, Bino, agora selecionador dos sub-17. A quem Inácio deixa um alerta.

"A Áustria é a grande surpresa deste Mundial. Olha-se para o nome da Áustria e pode parecer que está perfeitamente ao nosso alcance, mas Portugal tem de manter a sua mentalidade e nível competitivo. Como fez até agora. Se não for assim... Há o exemplo do jogo com o Japão, baixou-se um bocadinho essa concentração e esse foco e Portugal perdeu." Inácio vinca que os austríacos têm um "jogo muito físico, gostam de provocar situações de contacto e Portugal tem de fugir disso mesmo para poder impor o seu jogo e ganhar". Resumindo: "Vai ser um jogo duro, se Portugal não tiver a técnica, as dinâmicas, as movimentações e a rapidez do seu lado pode sofrer".

Os Quendas

Para chegar aqui, o caminho foi este na fase a eliminar: 2-1 com a Bélgica nos 16 avos, 5-0 com o México nos oitavos, 2-0 com a Suíça nos quartos, 0-0 com o Brasil nas meias - que depois ficou 6-5 nos penáltis. É uma seleção de craques: craques sub-17, sub-17 de 17 anos, a idade de Geovany Quenda quando chegou ao plantel principal do Sporting, Quenda já vendido ao Chelsea por 50 milhões de euros. Pergunta: há Quendas nos sub-17 de Bino?

"O Quenda é uma exceção", responde Inácio, lembrando que o plantel de Bino prima essencialmente por "valer pelo seu todo, pelo conjunto". "Não há aquela individualidade, não há aquela estrela. Portugal é homogéneo, tem um ponta de lança que está a marcar golos [Anísio Cabral], tem um guarda-redes muito seguro [Romário Cunha], tem ali jogadores interessantíssimos, mas estamos a falar de jogadores sub-17." Sendo assim: "Têm as suas etapas pela frente, têm de percorrer escalões e atingirem um nível para serem apostas na equipa principal dos seus clubes".

Inácio constata que "apareceu o Quenda, é verdade", que "apareceu o Rodrigo Mora". "Mas quantos mais apareceram?" Inácio explica que não é por um jogador ser campeão do mundo nas camadas jovens que deve ser imediatamente chamado para a equipa principal - mas ressalvando: "Se um destes miúdos tiver aqui ou acolá uma oportunidade, vai responder".

O caso mais flagrante disto mesmo parece ser José Neto, defesa-esquerdo que em sete jogos neste mundial já soma quatro golos. É do Benfica, atua numa posição ainda meia órfã de Carreras - merece que José Mourinho lhe dê uma oportunidade? Inácio avisa: às vezes essas oportunidades são um presente envenenado para um jogador tão jovem: "Podem queimá-lo. Da maneira que o Benfica está, tão intranquilo, com uma pressão enormíssima, com um fio de jogo que não valoriza os jogadores, imaginemos que o miúdo vai jogar e por qualquer motivo as coisas não correm bem ou não tem uma prestação muito boa. Queimava-se logo o valor do jogador".

Inácio recorda o que aconteceu com o Sporting na época passada, quando João Pereira e depois Rui Borges enfrentaram com um elevado número de lesões. Aí, os "jogadores tiveram de ir para fogueira e apareceram um ou dois que jogaram na equipa principal e depois nunca mais jogaram". Posto tudo isto, "as coisas não podem ser feitas assim, deve haver um contexto favorável para que estes jogadores possam aparecer".

O estranho caso de Alcochete

O Sporting é clube em Portugal com mais bolas de ouro de jogadores vindos da formação. Foi o berço de Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Paulo Futre, Nani, Quaresma, Nuno Mendes, Simão Saborosa, João Palhinha e tantos outros - onde estão os meninos de Alcochete nesta seleção, que é sobretudo composta por jogadores do FC Porto e do Benfica? Há na realidade apenas um nome que chama casa a Alvalade: Alexandre Tverdohlebov, guarda-redes de 17 anos - dupla nacionalidade russa, ainda não somou qualquer minuto no mundial. 

"Acho que é da fornada, porque no ano passado o Benfica ganhou tudo: venceu os campeonatos de iniciados, juvenis e júniores. Enquanto isso, o Sporting não ganhou nada", diz Inácio, lembrando que, historicamente, o "Benfica sempre deu mais jogadores à seleção do que o Sporting".

"Mas é curioso: na formação, as coisas parecem que não andam bem em Alcochete, mas chega-se às equipas B e o Sporting este ano está a lutar pelo primeiro lugar. Isto vem da formação - e se calhar alguns jogadores também vêm de fora para dar mais corpo a esta equipa B do Sporting", sublinha Inácio. Mas: "Ter só um jogador nesta seleção - e ainda por cima um que não joga - é preocupante para o Sporting".

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