Da Luz à Bombonera, este português que foi emigrante na Argentina vai torcer pelo seu clube de sempre e para sempre. E conta-nos como o futebol une
São mais que as mães, hoje em Miami e sempre que há futebol - sempre que joga o Boca Juniors -, os argentinos jogam de fora mas não brincam por dentro: em Buenos Aires ou nos bons ares de Miami, estão lá e fazem-se ouvir. "O mais incrível do futebol argentino é como ele une as pessoas”, conta Álvaro Andion, 100% benfiquista e 20% do Boca - porque nisto do futebol o coração é sempre maior que a matemática. E maior para Álvaro é o Benfica, que vai ver hoje em Miami como outras vezes viu o Boca na Argentina, onde viveu dez anos. Como daquela vez em que até pensou que ia ser roubado mas saiu a ganhar.
“Daquela vez” foi já há uns anos, Álvaro Andion tinha chegado há uns brevíssimos três dias à Argentina, onde acabaria por viver dez anos. Entrou logo de cabeça, num acirradíssimo clássico entre o River Plate e o Boca - e basta dizer estes dois nomes para qualquer adepto de futebol saber que estamos a falar de arrepios. "O estádio estava a rebentar pelas costuras”, recorda, “os adeptos escalavam as grades e o ambiente era eletrizante".
A eletricidade começara antes do jogo, aliás. "Fui com um amigo de uma amiga minha, e comprámos bilhetes a um sujeito que parecia tão duvidoso que até hoje não sei como não fomos roubados", ri-se agora (mas não se riu então). “E a entrada no meio da ‘barra brava’ [claque organizada] foi uma experiência única: "Era malta da pesada, daquelas que fazem os presidiários portugueses parecerem meninos do coro".
Dois mundos colidem (mas pouco)
Desta vez é no Hard Rock Stadium - esta segunda-feira às 6 da tarde, horas locais, 11 da noite em Lisboa. E se Álvaro Andion é adepto dos dois clubes, bom, na verdade é fácil para ele arbitrar esse conflito: “Fanático, sou do Benfica. Com o Boca, simpatizo”. É tudo uma questão de escala.
Será a primeiríssima vez que os dois clubes jogam em competições oficiais (na história há quatro jogos amigáveis, com quatro empates aos 90 minutos) e espera-se muito mais adeptos argentinos no estádio: o Boca fala em 50 mil xeneizes no estádio. A torcer. A cantar. Sem parar.
"Os adeptos do Boca cantam os 90 minutos”, antecipa por experiência Álvaro Andion, “é uma energia que não se vê na Europa. Em Portugal, sofremos muito com o futebol, mas lá eles exteriorizam tudo". OK mas “acredito na vitória do Benfica!”, ressalva, que encontra os seus dois amores que em nada são iguais mas tem a certeza de qual ele gosta mais.
Álvaro Andion é benfiquista desde pequenino, mesmo antes de milhares de horas frente ao monitor, fosse a jogar Football Manager ou a ver jogos que o fizeram encantar-se talvez pelo único jogador argentino que o mundo inteiro conhece pelos três nomes, dois próprios da zona sul da grande Buenos Aires e um impróprio para este pequeno planeta:, Diego Armando Maradona. Um herói do povo. Como o Boca, aliás. "Sempre simpatizei com o Boca por ser um clube do povo, como o Benfica", conta Álvaro Andion. Ao viver na Argentina dos 26 aos 36 anos, a admiração transformou-se numa paixão que dura até aos dias de hoje, dos seus 44 anos.
Também o Benfica tem um lugar especial no futebol argentino, graças a ídolos como Pablo Aimar, Javier Saviola e Ángel Di María (para a história ficou também a passagem de Claudio Caniggia, anterior, com contornos mais… complexos). "O Aimar é o meu jogador favorito de sempre”, proclama. Aliás, “quando ele veio para o Benfica, muitos argentinos começaram a acompanhar o clube”..
Álvaro destaca que Di María, hoje um herói nacional na Argentina, ainda não era a estrela que é hoje quando jogou pela primeira vez no Benfica. "Ele ganhou esse status depois do Real Madrid e da seleção, mas foi no Benfica que começou a mostrar o seu talento e de lá que deu, depois, o salto".
A ligação entre os dois clubes não se resume a jogadores. "Tenho amigos argentinos, fanáticos pelo Boca, que me arranjaram os bilhetes para o jogo em Miami. Eles sabem que eu sou do Benfica, mas respeitam essa minha dupla paixão".
Esta segunda de manhã, Álvaro já andava cedinho pelas ruas de Miami. Sim, eles são mais que as mães, mas entre estes dois hemisférios não há grande animosidade - não é por ser oficial que um jogo deixa de poder ser amigável. "O Benfica pode passar a fase de grupos, mas depois dependerá muito do sorteio”, diz Álvaro Andion, até porque sobre cada coração de adepto há sempre uma cabeça de comentador, às vezes misturando-se, “acredito que podemos surpreender" neste Mundial.
É um Mundial de Clubes, o primeiro, a competição está (ainda?) longe do estatuto do “verdadeiro” Mundial, o de seleções, e aí a Argentina é a campeã em título. Nesse dia de 2022 viu-se bem esse “mais incrível” contado por Álvaro Andion, o de como o “futebol argentino une as pessoas.” Lá, quando a Argentina ganhou a Copa do Mundo em 2022, “as empresas pararam, as ruas encheram-se”. E cá, ele, Álvaro, “eu, português, chorei de emoção". Mais que as mães.
