A verdadeira tempestade chegou depois dos relâmpagos
Depois de ter contrariado a história diante do Bayern Munique, o Benfica tinha dolorosas contas a ajustar com o Chelsea. Por aqueles quartos de final da Champions há 13 anos e, sobretudo, pela final da Liga Europa dramaticamente perdida há 12.
Bruno Lage havia projetado um jogo de 50/50 e Enzo Maresca, técnico dos londrinos, também. Perspetivava-se, por isso, um Benfica-Chelsea marcado pelo equilíbrio, onde as duas equipas lutassem por cada metro de território e atacassem a baliza contrária com o mesmo vigor.
Mas, na prática, viu-se muito mais uma equipa do que outra na tarde deste sábado em Charlotte. O Chelsea foi aquilo que se esperava dele, sobretudo pela dimensão financeira; o Benfica foi muito menos do que a dimensão do clube, tantas vezes lembrada pelo seu treinador, o obriga a ser.
Na primeira parte, os encarnados não tiveram mais do que uma ação perigosa de Pavlidis depois de uma recuperação do grego. O resto foi ameaça permanente à baliza de Trubin, com o guarda-redes ucraniano e António Silva acima de todos os outros.
Ao Benfica faltava muito. Capacidade para sair da pressão alta montada pelo adversário, para manter a bola por mais do que meros segundos, organização no momento defensivo e a agressividade reclamada pelo técnico e que fez com que quase todas as segundas bolas fossem ganhas por homens de azul. Faltava ainda apoio a Aursnes, tantas vezes sozinho perante Cole Palmer e Cucurella, mas faltava também que jogadores como Kökcü, o homem mais criterioso com bola do meio-campo encarnado, aparecesse no jogo.
A primeira parte, de sentido único, terminou com uma boa notícia para o conjunto de Bruno Lage: um empate sem golos que poderia permitir corrigir e melhorar muitos aspetos.
Lage, que fez duas alterações na equipa – Florentino e Kökcü regressaram ao meio-campo para os lugares de Renato Sanches (poupado e de fora da ficha de jogo) e de Prestianni – e deixou Carreras no banco, mudou. Lançou Aktürkglu no início da segunda parte para o lugar de Schjelderup.
E a segunda parte, ainda que com o Chelsea menos ameaçador e as referências de marcação aparentemente mais acertadas, continuou a ser de sentido único, pelo meio apenas com um momento aparentemente acidental em que Aursnes quase marcou num cruzamento direto.
Curiosamente, foi de forma semelhante que o Chelsea chegou à vantagem. Num livre lateral, Reece James bateu direto e enganou Trubin, posicionado para abordar um cruzamento.
O cronómetro marcava 64 minutos. Havia tempo suficiente para mudar a história do jogo, mas, para isso, o Benfica teria de ser mais do que a meia-equipa que fora até aí. E conseguiu sê-lo, mesmo antes das entradas de Prestianni (que oportunidade flagrante aos 78 minutos!) e de Belotti, com Otamendi solto de marcação numa bola parada e Pavlidis a definir mal em mais uma ação individual na área do Chelsea.
A interrupção do jogo aos 86 minutos pela queda de relâmpagos nas imediações do estádio parecia adiar por mais duas horas um desfecho aparentemente anunciado, a julgar pela profunda desinspiração coletiva só interrompida por raios e lampejos de futebol.
Mas o Benfica regressou mais convicto, focado e disposto a agarrar aquela espécie de segunda oportunidade. E como do céu caíram relâmpagos, do céu caiu também um penálti, por mão de Malo Gusto. E Di María, tão habituado a momentos como este, agarrou a oportunidade na última dança com cores encarnadas.
Não seria, no entanto, a tarde do Benfica. Prestianni, com dois amarelos vistos de forma quase sucessiva, foi expulso no início do prolongamento e dificultou ainda mais a missão das águias, que resistiram até àquela perda de bola de Leandro Barreiro a meio-campo que terminou com Nkunku a finalizar para a baliza de Trubin, que podia ter feito melhor nessa jogada.
Foi aí, com a noite já a cair sobre Charlotte, o fim da história do Benfica neste Mundial, embora o jogo ainda tivesse mais dois golos, na conclusão da tempestade que foi a segunda parte do prolongamento dos encarndos: um de Neto e outro de Dewsbury-Hall para um 4-1 final que, no fundo, espelha a superioridade do Chelsea, mas castiga também um adversário que lutou até ao limite das suas forças.
Aí já só lhe restava coração.