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Calor extremo, viagens longas, dormir em fusos horários distantes: o desafio de Portugal no Mundial - e os alertas do fisioterapeuta do Al Nasr

CNN , Emile Nuh
10 jun, 22:00
LISBOA, PORTUGAL - 14 DE OUTUBRO 2025: Cristiano Ronaldo, de Portugal, salpica água no rosto durante o aquecimento antes do jogo de qualificação para o Campeonato do Mundo da FIFA de 2026 entre Portugal e a Hungria, no Estádio José Alvalade, a 14 de outubro de 2025, em Lisboa, Portugal. (Foto de Diogo Cardoso - UEFA/UEFA via Getty Images)
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Portugal vai chegar ao Mundial já depois de o torneio ter começado, o que tem lançado preocupações quanto à adaptação, que a Federação assegura estar garantida. Mas soam os alertas para todas as seleções. Muitos jogos serão sob calor sufocante, há quatro fusos horários e os estádios situam-se em 16 cidades separadas por 4500 quilómetros, quase tanto como a distância entre Lisboa e Moscovo. Portugal terá de viajar quase 1500 quilómetros entre o segundo e o terceiro jogo. Fisioterapeuta do Al Nasr Football Club, nos Emirados Árabes Unidos – onde as temperaturas excedem regularmente os 40 graus – diz que “haverá uma interação entre o calor, a hidratação e o desempenho". E dá conselhos

Por que o calor, as viagens e o sono podem representar um desafio tão grande para as equipas quanto os adversários no Mundial

Com o início do Mundial marcado para 11 de junho, cresce a expectativa para o maior torneio da história da competição. Um número recorde de 48 equipas irá competir em 104 jogos nos Estados Unidos, Canadá e México. Potências como França, Espanha, Inglaterra e Argentina estão entre as favoritas, contando com estrelas como Kylian Mbappé, Lamine Yamal, Harry Kane e Lionel Messi.

Mas além do desafio óbvio de enfrentar o que o futebol mundial tem de melhor, as equipas terão também de superar uma série de obstáculos que vão muito além do campo de jogo.

Tal como no Catar 2022, muitos jogos serão disputados em condições de calor sufocante. No entanto, ao contrário do Catar — onde todos os estádios ficavam a uma curta distância de carro uns dos outros —, as exigências de deslocação serão muito maiores, uma vez que os jogos serão disputados em 16 cidades separadas por até 4500 quilómetros.

Acrescente-se o facto de o torneio se realizar em quatro fusos horários, com 13 horários de início diferentes e um calendário alargado, e os jogadores terão também de lidar com horários de sono variáveis, viagens mais frequentes e cargas de trabalho mais pesadas para alguns que não tiveram uma pré-temporada completa desde 2023.

Como resultado, a equipa que vencer o Mundial poderá não ser a mais talentosa, mas sim aquela que melhor se adaptar ao conjunto de exigências físicas e logísticas do torneio.

Calor extremo

O calor tem sido uma das maiores preocupações em termos de bem-estar dos jogadores. Em setembro de 2025, as organizações sem fins lucrativos Football for Future e Common Goal publicaram o relatório climático “Pitches in Peril”, que concluiu que 10 dos 16 locais do torneio enfrentam um “risco muito elevado” de stress térmico extremo.

As preocupações intensificaram-se no mês passado, quando 20 especialistas internacionais em saúde, clima e desempenho desportivo enviaram uma carta aberta à FIFA, classificando a sua política de calor como “inadequada” e alertando que esta poderia colocar os jogadores em risco de “lesões relacionadas com o calor”.

As suas preocupações centram-se na utilização pela FIFA da Temperatura de Globo de Bulbo Húmido (WBGT), que mede os efeitos combinados da temperatura do ar, humidade, vento e luz solar no corpo. De acordo com o Manual de Cuidados de Emergência da FIFA, os jogos só são considerados para adiamento ou cancelamento "a critério dos organizadores da competiçã"» quando a WBGT atinge 32 graus Celsius.

Para contextualizar, os especialistas em clima observaram que um WBGT de 31,9 graus Celsius – um pouco abaixo do limiar da FIFA – pode ser equivalente a uma temperatura do ar de 45 graus Celsius sem luz solar direta e com baixa humidade.

Os especialistas recomendaram também um limiar de calor muito mais baixo do que o da FIFA, argumentando que níveis de WBGT acima de 26 graus Celsius já criam "um ambiente de alto risco para o futebol competitivo". E, de acordo com a World Weather Attribution, 25% de todos os jogos do Mundial – incluindo a final no MetLife Stadium – poderão ser disputados em condições que excedam esse nível.

Numa declaração à CNN Sports, a FIFA referiu-se ao seu Manual de Cuidados de Emergência e afirmou que "está empenhada em proteger a saúde e a segurança de todos os jogadores, árbitros, adeptos, voluntários e funcionários. Os riscos relacionados com o clima são avaliados como parte do planeamento geral do torneio e geridos em estreita coordenação com as cidades anfitriãs, as autoridades dos estádios e as agências nacionais".

"A programação também foi elaborada tendo em conta as considerações climatéricos. O calendário de jogos equilibra os requisitos desportivos, operacionais e de transmissão, minimizando as deslocações, maximizando os dias de descanso e tendo em conta os perfis climáticos locais e as infraestruturas dos recintos, com base na extensa análise de risco de calor realizada pela FIFA em cada local", acrescentando que "limitou estrategicamente" os jogos ao ar livre nas horas mais quentes do dia.

“A FIFA continuará a monitorizar as condições em tempo real, integrando a vigilância da Temperatura do Globo de Bulbo Húmido e do Índice de Calor, e está pronta para aplicar os protocolos de contingência estabelecidos caso ocorram eventos climatéricos extremos."

O impacto do calor extremo já se fez sentir no Open de França, onde vários jogadores de topo tiveram dificuldades nas condições sufocantes de Paris. E embora Roland Garros se realize a mais de 4.800 quilómetros de distância da América do Norte, o evento destaca o impacto que as temperaturas extremas podem ter no bem-estar e no desempenho dos jogadores.

Dominic Rae, fisioterapeuta sénior da equipa principal do Al Nasr Football Club nos Emirados Árabes Unidos – onde as temperaturas no verão excedem regularmente os 40 graus Celsius – disse à CNN Sports: “Haverá uma interação entre o calor, a hidratação e o desempenho.

“Quando o stress fisiológico aumenta, aspetos como a tomada de decisões, a clareza cognitiva e a capacidade de produzir um elevado rendimento físico são afetados.”

Todos os 104 jogos do Mundial terão pausas obrigatórias para hidratação, mas Rae, que também é Diretor de Medicina Desportiva e Desempenho no The Ten Percent Club, afirma que as equipas precisarão de estratégias muito mais abrangentes em torno dessas pausas.

"Gerir o tempo que os jogadores passam em campo e o volume de treino vai ser tão importante quanto a reidratação propriamente dita durante as pausas para beber água", afirma.

"Se estiver a contar com uma pausa para beber água como estratégia de hidratação, já está a errar – a hidratação começa na semana que antecede o jogo. Esta é uma lição que aprendi muito bem ao vir para o Médio Oriente."

Distâncias de viagem enormes

Realizar um Mundial em três países cria inevitavelmente desafios logísticos, por isso, para ajudar a mitigar as exigências de viagem, a FIFA agrupou as equipas em "clusters" regionais Ocidental, Central e Oriental para grande parte da fase de grupos e das primeiras rondas eliminatórias.

Mesmo assim, os 16 locais do torneio estendem-se por quase 4500 quilómetros – para comparação, a Europa estende-se apenas cerca de 3300 quilómetros de norte a sul.

Entre as favoritas, França tem um dos calendários mais leves, viajando apenas 538 km durante a fase de grupos entre Nova Jérsia, Filadélfia e Boston.

No entanto, a Inglaterra e a Espanha enfrentam um fardo muito mais pesado. A Inglaterra percorrerá 2 770 km entre Arlington, Massachusetts, e Nova Jérsia, enquanto a Espanha viajará 2 360 km entre Atlanta e Zapopan, no México.

É um contraste gritante com o Catar 2022 e algo com que muitos jogadores baseados na Europa estarão relativamente pouco familiarizados. Dos 52 jogadores selecionados pelo treinador da Inglaterra, Thomas Tuchel, e pelo técnico da Espanha, Luis de la Fuente, apenas o avançado dos Three Lions, Ivan Toney, joga atualmente pelo seu clube fora da Europa.

O Brasil e a Argentina podem estar mais habituados a viagens de longa distância, no entanto, já que muitos dos seus jogadores já o fazem a nível nacional. Mesmo assim, o Brasil ainda viajará 1.750 km durante a fase de grupos, enquanto a Argentina, atual campeã, tem um calendário mais favorável, percorrendo apenas 740 km entre Kansas City e Dallas.

Resta saber se isso será uma vantagem para a Albiceleste, no entanto, porque, como Rae destaca, "não é a viagem em si que causa problemas, é a incapacidade de intervir na sequência dela." Essa intervenção inclui a gestão dos horários de treino, das refeições, da recuperação e do sono.

Mas as viagens prolongadas também podem criar desafios mais subtis.

Os voos longos significam uma exposição prolongada à pressão da cabina, o que "por si só aumenta a desidratação", explica Rae. O antigo fisioterapeuta da equipa principal do Aston Villa afirma ainda que voar pode ser problemático para jogadores que estão a lidar com lesões.

"Já tive situações, mesmo num voo de duas horas para um jogo da Liga dos Campeões, em que um jogador com uma lesão aguda ou crónica no joelho estava no avião e o joelho inchou. E esse era um jogador que estava disponível."

Assim, apesar de a maioria dos jogadores de elite estar habituada a voar com frequência, "é mais uma variável que as equipas têm de gerir", afirma.

Num torneio em que as margens são mínimas, até mesmo os efeitos de viagens prolongadas podem revelar-se significativos.

Horários de sono perturbados

O sono pode parecer algo simples e direto, mas num Campeonato do Mundo que se estende por quatro fusos horários, com 13 horários de início de jogo diferentes que variam do meio-dia à meia-noite (horário da costa leste dos EUA; 18h e 6h, horário da Europa Central), torna-se uma consideração importante.

Quase metade dos 72 jogos da fase de grupos terá início entre as 19h e a meia-noite ET , o que significa que muitos jogadores europeus irão competir numa altura que o seu corpo normalmente percebe como sendo o meio da noite.

A atual campeã europeia, Espanha, por exemplo, viajará 2 360 km de Atlanta para Zapopan antes de enfrentar o Uruguai a 26 de junho às 20h00 ET – 02h00 em solo espanhol.

Inglaterra não deixou nada ao acaso, tendo alegadamente levado "kits de sono" personalizados para a sua base em Kansas City, incluindo sobrecolchões adaptados ao tipo de corpo de cada jogador e almofadas refrescantes para compensar o calor e a humidade.

Pode parecer excessivo, mas num ambiente caracterizado por uma pressão imensa, o sono pode ser facilmente afetado, e não há maior pressão do que o Campeonato do Mundo.

“O sono é a ferramenta mais importante para a recuperação e, juntamente com a hidratação e a nutrição, deve ser a prioridade número um”, diz Rae, que também explica como a chave é manter rotinas familiares.

"É aqui que vejo tantos treinadores e equipa de apoio a errarem. Seja qual for a rotina normal de sono que um jogador seguiu durante toda a época, mantenham-na dentro do estágio."

"Se um jogador janta normalmente às 19h, não decidam de repente jantar às 21h e ter uma reunião às 22h. Eles não fizeram isso nos últimos 10 meses."

"Da mesma forma, se não têm dormido com o ar condicionado ligado e vão para um hotel com ar condicionado, como é que isso afeta a ventilação e a temperatura do quarto?"

"Se têm um determinado tipo de almofada, tragam-na. Dêem-lhes a mesma almofada que têm usado nos últimos 10 meses."

"Este é o tipo de coisas que as equipas precisam de ter em conta para gerir minuciosamente e aprofundar os detalhes do sono."

É claro que nenhuma equipa ganha um Mundial simplesmente por ter a estratégia de sono, o calendário de treinos ou o plano de hidratação mais abrangentes. O talento, as táticas e a execução serão sempre o mais importante.

Mas entre os favoritos, onde as margens já são estreitas, esses detalhes podem tornar-se decisivos – especialmente após dois verões consecutivos de torneios de futebol, com o Mundial de Clubes de 2025, o Campeonato Europeu e a Copa América em 2024.

Mas, como diz Rae: "Se tivermos duas equipas igualmente capazes, como Espanha e França, aquela que gerir melhor estes pilares fundamentais terá a melhor vantagem."

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