Esta segunda-feira as manchetes internacionais encheram-se de imagens de um Cristiano Ronaldo em lágrimas, de um Mikel Merino transformado em herói improvável de Espanha e de um Portugal eliminado pela margem mínima, depois de um jogo em que esteve sempre à altura do desafio, mas acabou castigado pela eficácia espanhola quando o prolongamento parecia já inevitável
As lágrimas de Cristiano Ronaldo deram a volta ao mundo, mas não foram a única imagem que marcou a reação da imprensa internacional à eliminação de Portugal frente à Espanha, nos oitavos de final do Mundial de 2026. De Londres a Paris, passando por Madrid e Barcelona, os jornais destacam uma seleção portuguesa que discutiu o jogo até ao fim, elogiam a exibição de Nuno Mendes e concluem que a diferença esteve num único momento de desconcentração, aproveitado por Mikel Merino já no tempo de compensação.
Nos Estados Unidos, o The Athletic escolhe como imagem da noite a despedida de Cristiano Ronaldo dos Campeonatos do Mundo. "A carreira de Cristiano Ronaldo nos Mundiais termina em lágrimas", escreve o jornal, que considera que, aos 41 anos, o capitão português viveu "um adeus discreto" ao maior palco do futebol.
Os americanos lembram que Ronaldo entrou neste Mundial como o primeiro jogador da história a marcar em seis edições diferentes da competição, mas considera que, frente à Espanha, teve "pouca influência" no jogo e viu o sonho de conquistar o único grande troféu que lhe falta terminar de forma "cruel".
Ainda assim, o The Athletic faz questão de sublinhar que Portugal nunca foi dominado pela Espanha. Pelo contrário, considera que "as duas seleções praticamente se anularam" durante mais de 90 minutos e que a eliminatória só foi decidida por um momento de inspiração entre dois suplentes lançados por Luis de la Fuente: Ferran Torres e Mikel Merino.
Em França, o L'Équipe escolhe para manchete a frase "La Roja sur le fil" (A Roja por um fio). Para o jornal francês, a Espanha "tremeu, duvidou, mas passou", sendo obrigada por Portugal a disputar uma das eliminatórias mais difíceis da competição.
Os franceses consideram que a Seleção portuguesa criou várias ocasiões perigosas, sobretudo na primeira parte, através de João Félix, Cristiano Ronaldo e, principalmente, Nuno Mendes, que esteve perto de marcar com um remate à trave.
E é precisamente o lateral esquerdo que merece um dos maiores elogios. O L'Équipe considera que, enquanto esteve em campo, Nuno Mendes voltou a vencer o duelo individual com Lamine Yamal, dando "problemas" a um dos jogadores mais influentes do torneio. Só depois da sua saída por lesão, escrevem, a Espanha conseguiu ganhar superioridade pelo corredor direito - uma opinião partilhada praticamente por toda a imprensa internacional.
O Marca descreve Nuno Mendes como "o prodígio" e admite que a sua lesão "foi um alivio para toda a Espanha". O jornal considera que o lateral português foi novamente a "kryptonita" de Lamine Yamal, expressão utilizada para explicar a forma como conseguiu retirar influência ao jovem extremo espanhol durante praticamente toda a partida. O catalão Sport diz que, até abandonar o relvado, o lateral português estava a realizar uma exibição "intransponível", anulando praticamente todas as iniciativas de Lamine Yamal e sendo uma ameaça constante quando subia no terreno.
O jornal, que escolhe para manchete "Espanha manda Cristiano Ronaldo para a rua", sublinha a qualidade do "prodigioso" meio-campo português, formado por Bruno Fernandes, Vitinha e João Neves, considerando que a equipa liderada por Roberto Martínez nunca deixou de discutir o controlo do jogo frente a uma das seleções mais fortes da competição.
Já os madrilenos elogiam a forma como Portugal obrigou a Espanha a jogar um encontro de enorme desgaste físico e emocional.
"Jogar contra Portugal é um incómodo de detalhes, medos e de saber jogar com o coração gelado", escreve o Marca, que considera que a equipa de Roberto Martínez construiu um verdadeiro "labirinto" para o ataque espanhol.
Do lado espanhol é Merino quem merece elogios generalizados na imprensa. O AS compara o médio do Arsenal a Andrés Iniesta, recordando que voltou a aparecer no momento mais decisivo, tal como já tinha acontecido no Europeu de 2024, frente à Alemanha. "Merino vestiu-se de Iniesta", escolhem para manchete, provavelmente recordando o golo do então médio do Barcelona na final do Mundial de 2010.
Mas o jornal madrileno vai mais longe e encontra também um culpado do lado português pelo desfecho da eliminatória. Com ironia, escreve "Gracias infinitas, Bernardo Silva!", considerando que "o novo jogador do Real Madrid ficou tonto", ao demorar a reagir à marcação rápida da falta que originou o golo espanhol, permitindo que Ferran Torres recebesse a bola sem oposição antes de assistir Merino.
Na leitura do AS, foi esse pequeno instante de desconcentração que acabou por decidir um jogo que caminhava inevitavelmente para prolongamento.
