OPINIÃO || Eis um Portugal peripatético, mistura de apático e patético, que se perdeu contra a RD Congo a deambular num passeio no parque e só encontrou sossego quando o jogo acabou com a aflição
Portugal gosta de sofrer. Portugal precisa de sofrer. Portugal precisa de sangrar para singrar, de retalhar-se em velhos pedaços para se talhar em novos aços, temperados pela destemperança. Portugal não é assim-assim, é tragédia ou poema épico, é de provações e superações, de angústias e heroísmos. Não basta viver, é preciso destino. Não basta jogar, é preciso frémito. Quando o caminho surge largo e despedrado, quando o simples parece bastar, Portugal cria a ameaça para imaginar o herói. Portugal 1 – RD Congo 1.
O jogo começou fácil, fácil demais, fácil como o exame nacional de Português desta semana, um golo bem cedinho marcado por Nené (Ne-to cruza para Ne-ves cabecear), quase meia horinha com a RD Congo nas encolhas, sem pressionar, abrindo praças despovoadas na defesa, mas Portugal lento, um jogo oco, os jogadores a deambular como Cesário Verde em “O Sentimento de um Ocidental” (que saiu no tal exame de Português), Portugal numa arenga trôpega, flutuando sobre andas, fácil de mais, um suspiro. Análise brilhante n.º 1 ao jogo de hoje, por Cesário Verde: "Um desejo absurdo de sofrer."
... E enquanto Portugal estava todo ele em pausa para hidratação, para oxigenação da sua existência, a RD Congo começou a correr como as gazelas, subindo, apanhando Portugal peripatético, em pensativo passeio, tanto que Tomás Araújo foi ler Saramago (também saiu no exame) e deixou Wissa sozinho no jardim a cabecear bem alto para o primeiro golo de sempre da RD Congo num Mundial.
É o fim, “This is the end, beautiful friend”.
É o fim?
Não, claro que não. É só o princípio e o princípio tem de ser assim, a sofrer.
Análise brilhante n.º 2 ao jogo de hoje: “A vida é uma coisa estranha — aquele misterioso emaranhado de lógica implacável com um propósito fútil”, escreve Joseph Conrad, em “Coração das Trevas” (1899), um pequeno grande livro sobre violências e extorsões de marfins e de almas, cuja ação decorre pelo Rio Congo, no que é hoje a República Democrática do Congo e era então colónia do Rei Leopoldo II da Bélgica. O livro foi transvasado oitenta anos depois para o guião do filme “Apocalypse Now” (Francis Ford Copolla, 1979), com outro palco, a guerra do Vietname, outras selvas, as do Camboja, e outro rio, o Nung, que o Capitão Willard (Martin Sheen) sobe para assassinar o Coronel Kurtz (Marlon Brando). Análise brilhante n.º 3, de Kurtz, ao jogo de hoje: “Vi um caracol a rastejar ao longo do fio de uma lâmina de barbear. Esse é o meu sonho. Esse é o meu pesadelo.”
O jogo deveria ter sido triunfal para Portugal, tanto como a famosa cena em que o tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) lidera a cavalgada de helicópteros sobre as praias e exclama a frase infame “adoro cheiro de napalm de manhã. Cheira… a vitória”. Fá-lo ao som furioso e inebriante de “A Cavalgada das Valquírias” (1856), de Richard Wagner, um fervoroso nacionalista que impressionou Nietzsche com um flamejante tapete garrido bordejado de penas de flamingo. Análise brilhante n.º 4, de Wagner, ao jogo de hoje: "Creio em Deus, em Mozart e em Beethoven” – e nós em Cristiano Ronaldo, que hoje não desfeiteou Lionel Mpasi e assim não comparou com o Lionel Messi.
As Valquírias eram deidades da mitologia nórdica que voavam sobre campos de batalha para escolher os guerreiros corajosos tombados, mas a única neste jogo teria sido a Valquíria Miss Dior (2023) de Joana Vasconcelos, uma monumental estrutura metamórfica do tamanho de uma grande área. Análise brilhante n.º 5 ao jogo, de Joana Vasconcelos: “O brilho da seda e a elegância da organza contrastam com uma multiplicidade de texturas, a exuberância dos estampados e a riqueza de pormenores, conferida através de intrincados elementos em croché, meticulosos bordados e um festim de ornamentos, tais como lantejoulas, galões, borlas e centenas de luzes LED, que simulam um efeito de vibração própria.” O futebol devia ser mais simples.
É muito “o brilho da seda e a elegância da organza” desta seleção nacional, que começa mal porque só assim poderá agora ser heroica e sublime.
Análise brilhante n.º 6 ao jogo de hoje, por The Doors: “Cenas esquisitas no interior da mina de ouro”, declaram em “The End” (1967), canção que abre o filme “Apocalypse Now” e já acima citámos. O ouro é este nosso meio-campo inacreditável e estas nossas alas-gazuas, e mesmo se Bernardo Silva e Vitinha estiveram com o sono preso, Conceição esteve para as curvas e quase chegou às retas. Seguimos dentro de momentos.
A personagem Kurtz é um líder brilhante que enlouquece, ensandece, alucina ante uma horda de fanáticos, no filme (e no livro) que termina com o suspiro repetido “O horror! O horror!”, declaração que T.S. Eliot usará como epígrafe do poema “The Hollow Men”, “Os Homens Ocos” (1925). Análise brilhante n.º 7 à seleção nacional de hoje, por T.S. Eliot: “Fôrma sem forma, sombra sem cor / Força paralisada, gesto sem vigor”.
É parafraseando o poeta americano que terminamos o texto, aspirando a que o próximo jogo seja belo e assim justifique a necessidade de descalabro deste que acabou num suspiro. Afinal, como na análise brilhante final, “É assim que o mundo acaba, Não com um estrondo, mas com um gemido”.
Já podemos começar a sério?
