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Jornalista. Diretor executivo CNN Portugal

15 sambas para Portugal + 1 para Diogo Jota (e outro a tovarinhar)

3 jul, 09:08
TORONTO, ONTÁRIO - 2 DE JULHO: Cristiano Ronaldo, n.º 7 de Portugal, comemora com uma camisola em homenagem ao falecido colega de equipa Diogo Jota, após a vitória por 2-1 no jogo das oitavas de final do Campeonato do Mundo da FIFA 2026 entre Portugal e a Croácia, no Estádio de Toronto, a 2 de julho de 2026, em Toronto, Ontário. (Foto de Buda Mendes/Getty Images)
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Sorte. E esta sorte não é para quem quer, é para quem crê. Deu certo, como dizem os brasileiros. Portugal 2 – Croácia 1, por um cabelo

Ai, Portugal, andas com sorte: no penúltimo jogo, um golo anulado por uns dedos do pé; neste, outro golo anulado porque a bola roçou nuns cabelos - fosse o homem careca e teríamos perdido,

Mas adiante, hoje saem sambas para toda a gente, escolhidos a dedo, até quando não são propriamente sambas mas outras canções do Brasil. É que o samba também tem juizo final, "história do bem e do mal", e uma forma de dor e alegria. Para ler com headphones, por favor.

Rafael Leão: “O que é O que é?”

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz”

Este rapaz nasceu num dia de Portugal, 10 de junho, nasceu aliás no século passado, em 1999, e no entanto é o único jovem em campo, o único que nos dá sucessivas "first dances", primeiras danças, o único que neste jogo acudiu à criatividade,  se sacudiu do aprisionamento tático e eclodiu num centro magistral para o segundo golo, Rafael pintou o renascimento da equipa como em "Escola de Atenas", melhoríssimo em campo e fora de campo e fora da órbita, partiu o rame-rame como quem parte um prato no chão, Leão não é O Leãozinho de Caetano Veloso, é um miúdo que não contém a alegria de jogar, que com o corpo se rebela contra a amestração do espírito, dai este samba que celebra a vida que rompe e irrompe, "é a vida e é bonita e é bonita e é bonita".  

Gonçalo Ramos, “Volta por cima”

"Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima

Chorei, ai eu chorei

Não procurei esconder, todos viram, fingiram

Pena de mim não precisava"

 

Ter 25 anos e não poder jogar é como ter 25 anos e ser impedido de amar, de viver, de sentir a paixão erétil no sangue, 25 anos é a idade em que não se sabe nada e não se quer saber de nada, 25 anos é ser a flor carnívora, desaustinada e irreprimível, é jorrar a vida e golear a morte, devia ser crime conter a explosão indómita dos 25 anos - e no entanto, é esse o destino de Gonçalo Ramos, ser suplente de Ronaldo na Seleção e sobressalente de Dembelé no PSG. Mas sem ser primeira escolha nem ter minutos nas pernas, Gonçalo entrou na hora do desespero, desentalou-se de entre dois defesas da Croácia e, num impulso em grito do até aqui expulso silente, deu uma cabeçada no céu da boca dos que o apertaram e apartaram do que aqui logrou: o golo, o belo golo, o golo da vitória, o golo de Gonçalo, o golo de Portugal.               

Diogo Costa, "O Poder da Criação"

"Não, ela é uma luz que chega de repente com a rapidez de uma estrela cadente, que acende a mente e o coração. É, faz pensar que existe uma força maior que nos guia, que está no ar bem no meio da noite ou no claro do dia, chega a nos angustiar, e o poeta se deixa levar por essa magia"  

Diogo Costa é o tipo de quem não se dá conta até ao momento em que precisamos dele. Não existiu nos dois primeiros jogos do Mundial, contra a RD Congo e o Uzbequistão, porque não foi preciso que existisse. Contra a Colômbia, levámos um banho de bola contra o qual só houve um contrapoder, o de Diogo, que, com a elegância de dispensar a exuberância, foi força de ferro e flexibilidade de borracha. A Croácia não metralhou mas disparou, e ele foi o alvo que se colocou à frente das setas que, acertando nele, falharam as redes que ele salvou.     

Cristiano Ronaldo, “Não Deixa o Samba Morrer”

"Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar (...)

Quando eu não puder pisar mais na avenida

Quando as minhas pernas não puderem aguentar

Levar meu corpo junto com meu samba

O meu anel de bamba entrego a quem mereça usar"

 

Quem o julga julgando que é mera teimosia estar em campo não entende nada do homem: confundir ambição com ganância é baralhar conquista com lucro. E Ronaldo já lucrou tanto que outra conquista não tem pela frente que não seja a de superar-se a si mesmo, às suas limitudes físicas e mortes encomendadas. É ser não o superhomem mas o sobrehomem de que escreve Nietzsche. Ronaldo não está em negação, está em afirmação final. Está em campo no jogo, de frente para a campa da sua carreira. É admirável que persista, que arrisque o embaraço de sucumbir à falha. Contra a Croácia, há um grande plano da televisão que mostra toda a sua mortalidade: o lapso antes de correr para a bola para marcar o penalti, o momento em que ele fecha os olhos concentrando-se, o momento em que ele sabe que não pode falhar e enfrenta o medo humano de saber que poderá falhar. Que quando um dia as suas pernas não puderem aguentar, e ele entregar a braçadeira de capitão, não deixemos o seu samba morrer, não deixemos o seu samba acabar.

Nuno Mendes, "Meu Guri"

"E na sua meninice ele um dia me disse que chegava lá"

 

Ele é o P de PSG, e S de seleção e o G de grandioso, o "melhor defesa do mundo" tinha claudicado no jogo contra a Colômbia mas voltou veloz contra a Croácia, a correr, a desmarcar, a centrar. Talvez venha a ser o melhor jogador português do Mundial - e o único do trio que joga sempre no Paris Saint-Germain à altura do que se espera dele. 

João Cancelo,  "Trem das Onze"

"Não posso ficar nem mais um minuto com você

Sinto muito amor, mas não pode ser"

 

Tornou-se um padrão neste Mundial: Cancelo entra de início e é substituído a meio. Perdoamos-lhe a baixa de forma, mas ainda não fez nada de memorável. 

 

Rúben Dias e Renato Veiga, "Heróis da LIberdade"

"Já raiou a liberdade, a liberdade já raiou

Esta brisa que a juventude afaga

Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo

É a evolução em sua legítima razão"

 

A dupla de centrais é apontada como a mais fraca da equipa. Ruben Dias porque já não tem Pepe ao lado, Renato Veiga porque é forte mas incompleto. E no entanto, à medida que os jogos se sucedem reduz-se o número de falhas a defender. Não são ases de trunfo, são talvez valetes - mas são certamente trunfos.  

Vitinha e João Neves, “Preciso me encontrar"

"Deixe-me ir, preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Deixe-me ir, preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar"

 

Talvez seja exaustão de uma época duríssima, mas esta dupla de génios centro-campistas ainda não fez um jogo marcado nem marcante no Mundial. E isso tem um impacto grande na equipa, que teria na coluna do PSG a sua principal estrutura de força. 

Francisco Conceição, "Coisinha do pai"

"Ô coisinha tão bonitinha do pai, Você vale ouro, todo o meu tesouro"

Este rapaz ainda nao desarrumou a casa nem fez a sua diagonal certeira. Precisa de sair da casca.  

Bernardo Silva, "Dança da Solidão"

"Desilusão, desilusão, Danço eu, dança você, Na dança da solidão"

A escolha da música diz tudo.

Bruno Fernandes, "Timoneiro"

"Não sou eu quem me navega, Quem me navega é o mar"

Muitos furos acima da média dos outros mas não da sua. O melhor Bruno anda perto mas ainda não apareceu.  

Pedro Neto, Nelson Semedo, Rúben Neves, "Vai Passar"

"Tenho uma palavra pra você

Não desanimes

Tudo que você pediu a Deus

Já está vindo"

 

Gonçalo Inácio e Francisco Trincão, "Sonho Meu"

"Sonho meu

Sonho meu

Vai buscar quem mora longe

Sonho meu"

Um jogou pouco, o outro nada. Tanto talento sentado no banco.

Roberto Martínez, "Apesar de Você"

"Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia

Você vai ter que ver a manhã renascer 

E esbanjar poesia

Como vai se explicar vendo o céu clarear 

De repente, impunemente 

Como vai abafar Nosso coro a cantar Na sua frente"

 

Roberto, apesar de os jogadores jogarem presos ao chão, apesar de passarem a bola para o lado, apesar da falta de atividade e de criatividade, apesar da previsibilidade do jogo corrido e da imprevisibilidade do modelo de jogo, apesar de tudo, apesar de você, amanhã há de ser outro dia.

VAR, "Sorte"

"Tudo de bom que você me fizer

Faz minha rima ficar mais rara

O que você faz me ajuda a cantar

Põe um sorriso na minha cara"

 

O VAR foi decisivo no resultado. Nos golos que anulou e no penálti que marcou. Não é que errasse, mas bafejou Portugal. Gratis. Gratos. 

Diogo Jota, “Poema”

"Hoje eu acordei com medo, mas não chorei

Nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via um infinito sem presente

Passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo

Era uma coisa sua que ficou em mim"

Dois irmãos morreram há um ano na estrada, sabe-se lá porquê, sabe-se lá o quê, a morte nunca apresenta mérito nem justificação, vem e vai, vai e leva, leva também uma parte dos que ficam para sempre sem a parte que sempre tiveram. Nomes próprios, André e Diogo, camisolas 30 e 21, família. 

PS pessoal e a tovarinhar

Quem vai lendo estes artigos que vou escrevendo sobre os jogos de Portugal no Mundial (RD Congo, Uzbequistão, Colômbia e este da Croácia) percebe que a deambulação é uma forma de não falar exatamente sobre futebol mas do à volta dele e da sua carga emocional. Com a esperança, apesar de tudo, de ver que, ao contrário de outros campos, como o da política, no futebol as emoções positivas são mais fortes que as negativas. Somos mais felizes quando ganhamos do que infelizes quando perdemos.

Nestas deambulações, há também um contrabando de método, a partir de pessoas únicas. Pessoas como o Rui Miguel Tovar, que aqui está a escrever sobre o Mundial. E se  Eça criou o termo "gouvarinhar" para a Condessa de Gouvarinho, e Agustina chamou de “Bouvarinha” a Ema, eu apelido a estas deambulações "tovarinhar", pela pirataria de inspiração, que por exemplo permite aqui dizer que há outra Ema nestes parágrafos, a filha do Rui Miguel Tovar, que ainda há dias perguntava se as pessoas no céu comem nuvens.

Hoje, 3 de julho, faz um ano que morreu Diogo Jota e André Silva. Hoje, 3 de julho, faz 12 anos que morreu Rui Tovar, a quem o filho hoje escreve uma doçura de texto, eles tão parecidos na devoção diarística ao desporto e tão diferentes em coisas como o tempo que passam à mesa. A eles dedico a última canção deste texto, "Naquela Mesa", escrita por um filho a um pai, por Sérgio Bittencourt em homenagem a Jacob do Bandolim.

"Naquela mesa ele sentava sempre

E me dizia sempre o que é viver melhor

Naquela mesa ele contava histórias

Que hoje na memória eu guardo e sei de cor

Naquela mesa ele juntava gente

E contava contente o que fez de manhã

E nos seus olhos era tanto brilho

Que mais que seu filho

Eu fiquei seu fã"

 

 

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