3 de julho. No dia em que passam 12 anos exatos sobre a morte do jornalista Rui Tovar, cara e voz inconfundível do desporto na RTP, o seu filho escreve sobre o pai, com doçura - e muita saudade
Saudade.
Palavra (de honra), saudade.
Foi-se. Primeiro, foi-se da cabeça, igual a tantas outras, de sentido prático e vazias de conteúdo.
Martelo. Depois, martela-me a cabeça toda, diferente de todas as outras já ditas e reditas, lidas e relidas.
Saudade é uma palavra única da língua portuguesa. Descobri-o assim-assim p’ró tarde, aos 19 anos de idade, em Dezembro de 1996, e a culpa é, imaginem, de um alemão. Já trabalhava há um ano para o jornal Record, ali na Travessa dos Inglesinhos, por cima do ‘Portas Largas’, a um palmo de distância d’A Bola, o outro desportivo do Bairro Alto. O serviço é marcado com pompa e circunstância, como sempre. O chefe da secretaria desce do conforto do primeiro andar até à adega, alcunha dada à secção de futebol internacional, paredes-meias com o arquivo da fotografia, e faz-me a leitura do serviço. Antes, lambe o dedo indicador e passa as páginas dos serviços marcados para todos os redactores, à procura do meu nome. Silêncio que se vai cantar o fado: ‘Rui Miguel Tovar, treino da selecção da Alemanha no estádio x e, depois, no hotel y.’
É música para os meus ouvidos. A Alemanha está cá, em Lisboa, para jogar com Portugal. É a qualificação do Mundial-98 e calha-me o melhor serviço de todos, o de acompanhar a selecção recém-campeã do Euro-96, em Inglaterra. Há uma série de jogadores-heróis para desbravar, como Kohler, Sammer e Klinsmann. A organização alemã é total, a liberdade também. Quer isto dizer, há ordem e progresso no acesso aos jogadores, sejam eles quem forem, tanto no relvado, depois do treino, como no hotel, antes do almoço. A ideia do momento é apanhar Ulf Kirsten, um avançado possante, estilo Iuran. Era ele o preferido de Toni, então treinador do Benfica, nos anos 90. Há negociações entre as duas partes, Benfica e Kirsten. Chega-se a um acordo por escrito, Kirsten está feliz da vida. Às tantas, o Bayer Leverkusen rói a corda. Lá se vai o acordo. E a felicidade.
Quando apanho Kirsten no hall do hotel, calçado com chinelos de natação e a maioria dos dedos dos pés marcados por infinitas pisadelas dos defesas sem andamento para o seu estilo cavalão, abre-se-lhe um sorriso na minha direcção. Temos 12 anos de diferença. Doze, caraças. Bem vistas as coisas, ainda posso estar 48 horas sem tocar na espuma de barbear e nada, a minha pele continua a de um bebé. Já ele, pffffff, nem aguenta meio dia sem a lâmina. O sorriso parece-me de condescendência natural entre um adulto já batido e um miúdo com cara de… miúdo.
Ulf faz-se acompanhar de um tradutor português. Fala pelos cotovelos, sempre a sorrir. O Ulf, digo. O tradutor, também – embora nada sorridente, tão-só burocrático na sua função exigente de dar corda ao discurso escorreito e (já tinha dito?) sorridente. Percebo zero de alemão, só que tenho uma muleta formidável para sacar a atenção de qualquer alemão (rima e é verdade).
Então, qual? O Euro-88 é na RFA e o meu pai é um dos enviados-especiais da RTP. Vale acrescentar só isto: em 1988, a RTP é ‘a’ televisão. Simples, é o único canal em Portugal – a SIC só dá sinal de si em Outubro de 1992 e a TVI em Fevereiro de 1993. Pois bem, o meu pai vai à érre-éfe-á e leva a minha mãe na sua bagagem. Ou melhor, a minha mãe é quem leva o meu pai. Porque o meu pai não tem carta de condução nem saca um 14 a Germânicas na Faculdade de Letras de Lisboa – ‘baixei muito a média a partir do dia em que nasceste’, parece que estou a ouvir agora mesmo a minha mãe a falar ao longe como que a justificar um ‘14’, número de Cruijff por excelência e também o da minha melhor nota na Universidade Autónoma, na disciplina de História, que não a da carochinha, embora tenha divagado à grande e à francesa (tenho ideia que o teste era sobre as invasões napoleónicas).
De volta a 1988. À grande e à alemã, isso sim. Durante um mês, a minha mãe orienta o meu pai. Na estrada, a decifrar tabuletas escanifobéticas e a percorrer estradas cheias de cidadãos ordeiros. E no diálogo, com polícias, recepcionistas de hotéis, empregadas de restaurantes, seguranças nos estádios, you name it (Sie nennen es, assim é que é). O amor quer-se assim, lindo e além-fronteiras. Quando conto esta história, sem incluir obviamente o 14 do Cruijff nem o 14 a Germânicas, todos os alemães esbugalham os olhos e contorcem-se de forma sui generis, como se fossem marionetas. O espanto é comum, o uauuuuu prolongado lê-se no olhar. É uma vitória antes de o ser. Porque Klinsmann (capitão) mais Vogts (seleccionador) ouvem a minha lenga-lenga e fazem por abrandar o passo impaciente em troca de um dinâmico pingue-pongue sobre futebolices várias.
Com Kirsten, é diferente. Por feitio, digo. O homem quer comunicar e fá-lo com uma dinâmica própria, muito ortodoxa, entre gestos repentinos e risos brutos. Fala-se de Portugal, da Alemanha, do Benfica, do Bayer, de Lisboa. De repente, entre tantos caracteres estranhos saídos de uma considerável floresta de barba já rala, sai um saudade.
Como assim, saudade? Sim senhor, saudade. Com um ligeiro sotaque, claro. Mas sai-lhe um saudade, perfeitamente audível. Agora quem sorri com vontade sou eu, como se me estivessem a fazer cócegas. Saudade, olha olha. E pergunto ao tradutor. E o tradutor pergunta ao Ulf. E o Ulf responde, como se fosse o último português à face da Terra. ‘Saudade é uma palavra única, aprendi isso quando estive aqui a última vez. E é lindíssima, saudade. Às vezes, estou na Alemanha e vem-me essa palavra à cabeça quando estou a ver o resumo de um jogo do Benfica ou a ver uma notícia sobre Lisboa.’ E repete-se mais uma vez. Belisco-me. Um alemão, matarruano na sua forma de jogar e, tenho de ser honesto, até de falar, ensina-me uma lição preciosa. Uma lição de vida? Não, ainda não. O meu cérebro está noutra, definitivamente. A palavra saudade fica guardada – é mais esquecida, convenhamos – numa gaveta qualquer cá dentro.
Lá está, foi-se.
Aos 19 anos de idade, o saudade de Kirsten é tão-só um momento peculiar, engraçado.
O martelo só vai bater, e com força desmesurada, daí a uns (bons) anos.
2014. Estou em São Paulo, a curtir o Mundial. Dia de sol, belíssimo. Acabo de almoçar num boteco ao balcão, em plena rua, em pleno coração da capital paulista, onde redefino os sete pecados capitais. Nada de avareza, gula, inveja, ira, luxúria, orgulho e preguiça. Nããã, isso não é para mim. O meu ‘negócio’ é arroz, carne, laranja, torresmos, couve-mineira, farofa e caipirinha de maracujá.
Qual é a coisa qual é ela... Deixemo-nos de charadas, é feijoada. Coisa boa. A seguir, sesta no hotel. Antes da dita cuja, lavar os dentes. Elementar, meu caro leitor. A caminho da cama, vejo o telemóvel a brilhar. Diz pai, o visor. Atendo, animado. ‘O pai… o pai… o pai não resistiu.’ É a voz da minha mãe, de coração partido.
Baaaaaaaaaang, que martelada.
A tarde passa a correr, a noite cai num ápice. Chove dentro do Aeroporto Viracopos, em Campinas. Chove muito. Sem parar. Por muito que os olhos se fechem, a torneira continua aberta – como a ferida do golpe. Só me vem à cabeça a terceira cena do ‘Cinema Paraíso’, a da chegada do Totó a casa, em Roma. A namorada já está embrulhada nos braços de Morfeu, mas ainda consegue transmitir o recado da mãe: ‘Alfredo [o projeccionista] è morto.’
Inicia-se um flash-back sobre o meu pai. Os jogos de rimas com os nomes dos colegas da escola primária, as explicações de matemática, o significado dos cognomes dos reis de Portugal, as capitais do planeta todo, associações da língua portuguesa através do latim, as idas à Luz (e Alvalade) (e Restelo) (e Bonfim) (e Portimão), os remates à baliza em Tróia (e na Columbano Bordalo Pinheiro) (e na Praia d’El Rey), o primeiro barbear, o enésimo penteado mal concebido porque o risco não está onde deve, as dúvidas sobre o verdadeiro proprietário das camisas (“essa não é minha?”), as viagens de barco entre Ayamonte e Vila Real de Santo António, o fado da Menina das Tranças Pretas, o cantarolar dos êxitos do Festival de Sanremo, as histórias da tropa, os anuários de futebol, os números dos cromos em falta nas suas colecções, os almoços ao sábado, os lanches à segunda-feira depois da terapia da fala, as tardes a ouvir relatos na rádio deitados na cama (e os murros no ar por cada golo), as noitadas a ver o Mundial-94 (e o Seinfeld) (e o Era Uma Vez na América), os dias inteiros a consultar jornais amarelados no cofre do DN, as conversas intermináveis na Lourinhã, as lições de domínio da velocidade da máquina, vulgo carro, os recordes do Tetris, a magia da paciência, as recepções no aeroporto, a memória fotográfica de Florença, a adoração pela música de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, a sobrancelha esvoaçante no olho esquerdo, o bigode sempre no sítio, as perguntas incómodas antes de uma saída com amigos, os inquéritos por telefone nas manhãs das ressacas, a mão à frente da boca para abafar a gargalhada sonora, os emails divertidos, as histórias da tropa (nãããããããããão, outra vez nãããããããão), os comentários graciosos em directo.
Euro-84, em França. Sousa pega na bola e atira sem rodeios, é o 1-0 à Espanha: “Quem remata assim não é gago.” Mundial-86, no México. Intervalo de um jogo da fase de grupos e a câmara fixa-se por alguns segundos em duas jovens: 2-0. “Aqui vemos dois belos exemplares da raça asteca.” Liga-97, em Espanha. Um exibicionista todo nu interrompe o Barcelona vs. Betis. “Estava a coisa neste pé quando entrou em campo um indivíduo com o rabo-de-cavalo à mostra... e o outro também.” Nesse preciso momento, vê-se um plano do traseiro do exibicionista, 3-0. Também há aquela piada de um golo fácil da Checoslováquia, de baliza aberta, e o meu pai fala de ‘um checo sem cobertura’.
Há pais comprometidos, ausentes, realistas, desnaturados, airosos, perigosos, tranquilos, inconsequentes. O meu é amigo. Cúmplice. Verdadeiro. O melhor de todos. Como Alfredo, o projeccionista, para Totó. Como o pai dele. Atenção à sua descrição: “O meu pai foi o pioneiro do cinema na sua vila natal. Tinha uma máquina de projecção que ainda hoje, lá pelos sótãos, resiste ao tempo. Nessa altura dava brado e impunha olhares respeitosos. De Lisboa, o meu pai recebia cópias em estado lastimoso de que ninguém se queixava e uns caderninhos de promoção que eu não me cansava de folhear. A sala, cedida pela câmara, fazia o resto. Cinema nos anos 50, e mesmo antes, era um luxo! Empenhado em garantir entretenimento aos seus conterrâneos, o meu pai encarregava-se também da tarefa de anunciar o filme a exibir. Sobre uma imensa cartolina pregada em grosseiro mas bem talhado placard de madeira, ele pintava, a tinta encarnada, em letras garrafais, o título e demais informes. Tudo com muito perfeccionismo, como ele sempre fazia questão. Uma vez, porém, borrou a pintura. As letras, tão bem desenhadas, não tinham ainda secado e a tinta teimosamente escorreu um pouco quando o painel foi colocado na vertical, para ser afixado em local público. Já não havia tempo para repetir o trabalho e, para desespero do meu pai, foi assim mesmo que o placard seguiu. Mas a irritação depressa se desvaneceu. No dia seguinte, toda a gente o cumprimentava pela ideia que ele tivera ao fazer aquelas letras fantasmagóricas. É que o filme dava pelo título de ‘O Conde Drácula’...” Continua a chover. Quando amainar, quero ser o terceiro projeccionista da família. O avião levanta voo, a ideia cai por terra. Abandono-me por completo, nem sei de que terra sou. E até me sinto pessimamente por adormecer numa hora trágica.
O dormir arrasta-se por todas as horas do voo. O corpo precisa. A mente nem se fala. O acordar é violento. Em memórias singulares, nada condizentes com o momento. A mais forte de todas tem a ver com a RTP. Rui, esquece. Digo para mim. RTP? A esta hora, porquê? Porque conheço bem três RTP’s. A da Marechal Gomes da Costa, a da 5 de Outubro e a da Alameda das Linhas de Torres. Esta última é a minha preferida. Finta-se a bomba de gasolina e sobe-se uma calçada portuguesa em S. À direita, voilà, os estúdios. Tenho recordações vagas, memórias soltas. Nas redondezas, há muitos restaurantes. O Magriço, claro, é o mais sonante. Mesmo à frente da bomba. Às vezes, de tão cheio, o meu pai impacienta-se e leva-me a outro sítio.
Uma vez, é ali no Centro Comercial Stromp, sentados a um balcão numa atmosfera meio escura. Às tantas, o meu pai entretém-se com o vizinho. E vice-versa. Patati patatá, elogios para aqui, elogios para ali. Gostei muito de o ver na televisão naquele dia, gostei muito de o ver a marcar três golos ao Manchester United naquela noite. “Três golos?”, pergunta o senhor. “Foram quatro.” Aiiiii. O meu pai insiste no hat-trick, o senhor insiste no póquer. O senhor é Osvaldo Silva, avançado brasileiro de Porto, Leixões e Sporting.
Em Alvalade, é um dos heróis da gloriosa epopeia da Taça das Taças 1964. Na famosa eliminatória dos ¼ final com o Manchester United, o Sporting apanha 4-1 em Old Trafford e ninguém acredita na reviravolta. Ninguém? Baaaah. Osvaldo abre o marcador, de penálti, e fixa-o ao 5-0. Pelo meio, o 2-0 ainda antes do quarto de hora. O meu pai faz o relato, Osvaldo abana a cabeça com um sorriso. “Marquei mais um golo, senhor Rui.” Que regabofe. Três, quatro, três, quatro. Eles não saem dessa lenga-lenga. Eu, sossegado, ouço-os. Sem perceber nem entender a dimensão da aposta.
Ah pois, há uma aposta. Promovida por Osvaldo: “Se forem quatro, o senhor Rui dá-me razão; se forem três, dou razão ao senhor Rui e ainda levo o seu filho a treinar aos infantis do Sporting.” Tchan tchan tchan tchaaaaaaan, eis-me a estrear pelo Sporting. E, ao mesmo tempo, a despedir-me. Dois em um. Se toco na bola? Uma ou duas vezes, num lançamento lateral ou assim. Passo o tempo a apanhar bonés naquele peladão irregular onde agora é o metro do Campo Grande.
Rio-me para dentro, já a caminho da porta de saída das chegadas no aeroporto, em Lisboa. Rio-me, porque o meu pai tem mais razão que o próprio herói. Rio-me, porque só faço uma figura de corpo presente no treino. E rio-me, porque o treino acaba com penáltis. ‘Quem marcar, pode ir para casa. Quem falhar, é pé-de-chumbo e só sai daqui quando meter a bola na baliza.’ Quem o diz é Osvaldo, homem de palavrão fácil. Pé de chumbo, é só rir.
Mas não consigo. Rir, digo. O meu pai vai a dois Mundiais e comenta essas finais, ambas RFA vs. Argentina, em 1986 (Azteca, Cidade do México) e 1990 (Olímpico, Roma). Eu estou a cumprir o meu primeiro e a final é Argentina vs. Alemanha (Maracanã, Rio de Janeiro). Lá está, não consigo rir. Só escrever. Pensamentos soltos. Histórias. Uma há em que inicio com a ajuda de dois arranques literários mais sensacionais de que há memória.
Ei-la.
Chamem-me simplesmente Rui. Aqui há uns anos, dei-me conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio e decidi voltar a navegar. Ou seja, aventurar-me de novo pelas vastas planícies líquidas do Mundo. Achei que nada haveria de melhor para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num barco à deriva, num mar revolto.
Cheguei a Macondo, então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um lei¬to de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las bastava apontar com o dedo.
Às tantas, vi finalmente uma pessoa. E resolvi apontar o dedo, sem medos. Apanhei um susto. A pessoa falou comigo como se me conhecesse. E disse: 'Descontrai-te. Recolhe-te.' Perplexo, fiquei. 'Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia.' Olhei à minha volta e já não havia mundo nem coisas com nomes. Só eu e a pessoa. Nomeeio-o Ministro do Conhecimento. Porque sabia tudo sobre mim. A começar pelos sete nomes, até o ‘de’. E a acabar no voto para as últimas presidenciais.
E foi directo ao assunto, sem mais rodeios.
- Se quiseres, tens de volta o teu pai.
- Como?
- É só dizer.
- Quero, óbvio.
- Então é teu.
- Onde?
- Aqui, agora, já.
- Quan...
Esquece lá a pergunta, o meu pai está aqui! tudo perfeito: cabelo penteado com laca, bigode aparado, cara morena como se fosse um guerreiro terracota, voz inconfundível, fato, gravata, sapatos a brilhar. À primeira vista, per-fei-to. À segunda, também. O problema é...
- Problema?, pergunta o Ministro do Conhecimento, com a testa enrugada.
- Este é o Rui Tovar-jornalista.
- Sim, e então?
- Então? Então não é o Rui Tovar-pai.
- Meu filho, falas do quê?
- O Rui Tovar-pai não fala para o pequeno ecrã, não lê pivots nem debita resultados como se fosse uma IBM.
- Então faz o quê, porventura sabes?
- O Rui Tovar-pai é... o Rui Tovar-pai. É o do rrreeeeeeetiiiirrroooo a palavra.
- Explica-me.
- Trabalhava ele n'O Dia e foi enviado-especial a um país qualquer com o Ramalho Eanes. No avião, o assessor do presidente da República apresenta-o a todos os jornalistas. Quando chega a vez do meu pai, 'este é o Rui Tovar, d'O Dia', o presidente remata de primeira: 'um jornal eminentemente perigoso'. Faz-se a viagem de avião, faz-se a reportagem nesse tal país e volta-se a Portugal. No avião, o assessor volta a juntar o presidente com os jornalistas. Quando chega ao meu pai, 'este é o Rui Tovar, d'O Dia'. E o meu pai antecipa-se: 'o do jornal eminentemente perigoso'. Ao que Ramalho Eanes reage, com notável fair-play: rrreeeeeeetiiiirrroooo a palavra. A partir daí, o rrreeeeeeetiiiirrroooo a palavra é um must.
- Pois, é giro...
- O mais giro é depois. Imagina que entramos na casa de um amigo dos meus pais para uma festa ou, pior, no casamento de família, daqueles longe para burro. Eu, tímido, e sem jeito para fazer conversa, nem quero ir. E continuo sem querer, já lá dentro da movida. O meu pai desconstrói o drama, com palavras de incentivo. Vale, aceito os seus conselhos. De repente, já estou minimamente enturmado e ele passa por mim e diz, baixinho, quase ao ouvido, rrreeeeeeetiiiirrroooo a palavra. É a senha para sair dali, com uma desculpa esfarrapada qualquer ou até sem desculpa, a famosa saída à francesa. Oui oui. Casos desses há aos montes e a senha até já se faz mais curta com o tempo. A melhor cena de sempre é um casamento sei lá onde e o meu pai persegue-me até à casa de banho. Há três urinóis e o do meio está ocupado por um ilustre desconhecido. Estaciono à sua direita e nem me apercebo do meu pai, na outra extremidade, até que ouço um rrrrrrrrr. Só isso. Nem sequer levanto a cabeça, limito-me a rir. Lavamos as mãos, sorrimos de frente para o mesmo espelho e saímos de cena. O rrrrrr torna-se o motor de arranque para o dar de fuga de acontecimentos insignificantes, sem história na nossa história.
- É giro até porque se torna engraçado.
- Isso era o que diria o meu pai, caraças!
- Bem sei.
- Mas agora… o Rui Tovar-jornalista não diz isso. Tal como não se lembra de me entalar na cama como se fosse uma salsicha couve-lombardo para me proteger do frio. Tal como não se lembra do ‘mais speed nessa cenaça’.
- Conta lá essa.
- É do Jaime Almeida Ribeiro, um jornalista da rtp desporto. Era um pouco baldas. Preparava mal os jogos e, depois, travava muito o seu discurso em directo no Domingo Desportivo. Uma noite, num bar do bairro alto, acho, alguém se abeirou dele e ‘gosto à brava de ti mas... mais speed nessa cenaça.’ No dia seguinte, o bom do Jaime contou a história delirante na redacção do desporto e partiram-se todos a rir. O meu pai chegou a casa e, claro, contou-nos. A partir desse instante, o ‘mais speed nessa cenaça’ é palavra-chave em (mais) festas de família e amigos, em intervalos de filmes e teatros, em situações bizarras. Se o meu discurso de apresentação de um livro é desinpirado, levo com um mais speed. Se me atraso para almoçar, levo um nessa cenaça.
- Percebo-te.
- É tudo assim: meia palavra e, já está, total entendimento. Quero isso.
- Percebo-te, sim. Mas...
- Mas?
- Mas tens de ter paciência. O Rui Tovar-jornalista está aqui, à tua beira. O Rui Tovar-pai não está. Ainda. Estará, se tiveres paciência e tranquilidade.
- Quando?
- Paciência e tranquilidade.
- Vai custar-me. Sou aquariano.
- Mantém-te calmo, a fazer a tua parte, e desfruta do resto.
- Qual resto?
- Escreve livros, faz exercício físico, lê, vê filmes, mergulha no mar, passeia.
- ...
- Então?
- Estou a interiorizar. E a gostar. Muito. Vamos a isso. Não desisto de quem gosto.
Fim, impõe-se um fim. Estou é capaz de chutar a palavra saudade para um sítio sem ângulos nem redes. Um pontapé de raiva incontrolada para um buraco negro qualquer. Se for golo, o universo devolve-me o pai?
